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Criatividade à prova

Ex-menino prodígio da internet, Murilo Gun diz que o Marketing Digital precisa se reinventar e dispensar gatilhos de medo

Por 2min
27 de Maio de 2020

Quando era adolescente, Murilo Gun gostava de prever o futuro. E ao conhecer a internet – ele tinha 14 anos quando o mundo virou uma realidade paralela digital –, percebeu que aquilo era o futuro.

– Vi aquilo como uma coisa muito importante, e comecei a mexer com internet. Acabei ganhando uns prêmios, com 14 anos, e saí da escola no primeiro ano do ensino médio, em 99, pra montar um startup – no século passado – lembra, em transmissão da TV Reserva. – Eu captei R$ 1 milhão com 17 anos, para montar um site de pedidos de comida, tipo iFood, que se chamava “Peça comida”.

O negócio funcionou por um tempo, mas depois “deu pau”. Segundo Murilo, por uma questão de comunicação. Ainda era um tempo de fax e pagers, o celular (que provavelmente resolveria a questão) ainda era caro e para muito poucos.

Passou a criar sites. E voltou pra escola, para entrar na faculdade de Administração. Ao se formar, foi escolhido pela turma como orador. E para não decepcionar, resolveu estudar comédia – queria que o discurso fosse engraçado. Levou tão a sério que virou comediante.

– O stand up comedy estava começando no Brasil. Foi uma grande mudança de vida, porque criavam uma expectativa de eu ser o ‘menino da internet’. Não fazer Informática já foi um grande desvio do que as pessoas esperavam – conta.

Murilo, porém, sempre havia visto a si próprio como o ‘menino do conteúdo’, e não da informática. Ao longo de dois anos, manteve a empresa de informática enquanto rodava os palcos do Brasil. Quando viu que o teatro estava dando mais dinheiro, desfez-se da empresa e ouviu muita gente incrédula perguntar se ele “trocaria o certo pelo duvidoso”.

– Mas o que é certo? Neste momento, a humanidade está nos mostrando que não há certeza, a certeza que algumas pessoas achavam que existia, até mesmo de trabalhar em grandes empresas, ser funcionário público. A certeza é uma ilusão, porque a natureza da natureza é a incerteza, a mudança, a inconstância, e nós criamos essa ilusão de querer trazer certeza para as coisas – avalia.

 

 

E, coerentemente, dez anos depois de subir num palco pela primeira vez, Murilo tornou a reinventar-se.

– Viajei o Brasil inteiro, fiz programa de televisão, fiz especial pro Netflix. Quando eu inventei de fazer um curso no Vale do Silício, numa escola chamada Singularity, no parque da Nasa, eles me aceitaram, e então deixei de usar a comédia como meu produto final, e usar como meio para entrar no assunto educação, e principalmente educação da criatividade – recorda.

Ao fazer um TED sobre criatividade, estudou o processo criativo. E chegou à conclusão de que “criatividade é a imaginação aplicada para resolver problemas”. E percebeu que criatividade não é matéria-prima apenas para artistas, mas para advogados, médicos, contadores…

– Temos dois caminhos: o da memorização e o da imaginação. Os dois caminhos fazem sentido, o problema é que está desbalanceado, fomos educados a usar muito mais a memorização do que a nossa imaginação – diz.

Na escola, Murilo aponta, em 99% das vezes a memorização vai ajudar a resolver os problemas.

– Nós atrofiamos um dos principais plug ins que o nosso bicho recebeu de fábrica, a imaginação. Nós nos robotizamos e nos industrializamos ao virarmos lembradores de coisas. Quando chega a tecnologia, que é muito melhor do que nós para lembrar das coisas, surgiram as questões que as tecnologias estão roubando os empregos. Se você trabalhar feito robô, você pode ser trocado por robô. Você não tá desperto, você só vira homo sapiens quando usa a imaginação com frequência, senão somos apenas robôs que repetimos – afirma.

Na avaliação de Murilo, vivemos um cenário de transformação do Marketing Digital, de menor utilização de gatilhos de medo e escassez.

– Se você faz um Marketing que deixa as pessoas desesperadas para querer algo, você já começa fazendo algo de mal para elas. É um momento de revisar, questionar o tráfego também. Eu tenho uma crença de que o Marketing deveria evoluir cada vez mais para ser mais orgânico, mais fluido.