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O mundo pós-meteoro

Head da WGSN avalia impacto do coronavírus sobre diferentes extratos etários da sociedade

Por 2min
18 de junho de 2020

A pergunta de um milhão de dólares – e que todos têm se feito – é sobre como será o mundo após o meteoro Covid-19. Em relação a comportamentos e formas de consumo. Luiz Arruda, head da WGSN Mindset na América Latina, aceitou nosso desafio de tentar respondê-la, numa live promovida pela TV Reserva.

A WGSN é a empresa líder em pequisa de tendência – seja para comportamento, consumo, produtos, varejo. De certa forma, a rotina de Arruda é responder a este tipo de questão.

– Somos uma rede global, com 86 operações pelo mundo. São mais de 400 colaboradores, de áreas diversas, como moda, tecnologia, antropologia etc – explicou Arruda. – Nosso trabalho é mapear expressões inovadoras de comportamento. Como as pessoas estão agindo. Isso é a base do nosso trabalho e da pesquisa de tendência: a partir do momento em que notamos um tipo de comportamento se repetindo, um padrão, isso nos faz antecipar os movimentos que vão surgindo.

Para Arruda, está claro que nada será como antes. Ele dividiu os consumidores em blocos geracionais, e assim explicou o que está acontecendo e o que é previsível que aconteça com cada um desses grupos:

Baby boomers (nascidos entre 1946 e 1964)

“Formam uma geração superinteressante. Ela está passando por uma transformação gigantesca. E pensamos que vão ressurgir como grupo com muita força depois da pandemia. Com muitas mudanças. Se comportando e consumindo de forma diferente.

A primeira dessas transformações é o que chamamos de digital surfers. Essa geração, apesar de haver preconceito, é um grupo ativo digitalmente. A quarenta fez essa geração repensar a forma de consumo e os trouxe mais ativamente para as compras online.

O mercado acaba esquecendo de atuar para esse pessoal de 60/70 anos, e que são às vezes o maior potencial de consumo. Se os compararmos com as gerações mais novas, os boomers foram os que menos cortaram gastos durante o período de isolamento. Não podemos ignorar isso.

A segunda mudança está fazendo com essa geração é o que chamamos de uma geração que não se aposenta. Tem dois pontos interessantes: o aumento da expectativa de vida; e podemos dizer que muitos deles vão precisar/querer voltar ao mercado de trabalho depois da pandemia.”

 

 

Geração X (nascidos entre 1965 e 1978)

“É uma geração que é chamada de “forgotten generation”, esquecida porque tá no meio de duas gerações muito protagonistas, os boomers e os Y ou millenials. Fica esquecido também pelo mercado.

É uma geração muito fundamental a partir de agora. Neste momento, há muitos lares multigeracionais, e os X tomam conta dos pais que envelhecem e dos filhos que ficam em casa, especialmente neste momento de crise.

É uma geração muito exausta, em certos aspectos, e pouco se fala dela.

Quais são as transformações que o covid trouxe pra esse grupo? Primeiro é como o mercado está chamando a liderança da recuperação. São esses caras os líderes. São a grande maioria dos chefes de família, as posições de alta liderança estão nas mãos deles. É uma geração com poder político e econômico, com poder de trazer a sociedade para outros eixos. Vai ganhar um protagonismo gigantesco.

A segunda grande transformação sobre a geração X é o que chamamos de “consultores de vida”. O papel dela nas casas e nos núcleos familiares é tão gigantesco que é necessário dar ferramentas para ela. Precisa de tempo de inatividade, qualidade para relaxar. É uma geração ultra-atarefada. E é uma geração que está dando valor para as pausas. Uma reflexão sobre a rotina, produtividade. Será que a gente precisa fazer tudo o que é imposto pra gente? Será que não posso me dar um momento de indulgência? Essa geração está descobrindo isso de maneira tardia, mas está aprendendo.

Por fim, existe uma carência de capacitação. Por que um olhar contemporâneo pra família não pode ser centrado na geração X?”

Geração Y ou millenials (nascidos entre 1979 e 1993).

“Os estudos sobre gerações vieram muito em função dessa geração. Muito discutida e comentada. Porque teve uma ruptura gigantesca, que cresceu de forma analógica mas que rapidamente, enquanto jovens, tiveram que aprender o que é a vida digital. Tem a tecnologia na sua essência, ao contrário dos boomers e da geração X.

O que o covid está trazendo para essa geração? Jà falei que uma geração é fruto do seu palco.

Se a gente pensar o que foi o desenvolvimento dos Y, olhando pro Brasil, na década retrasada, foram momentos no Brasil e no mundo de grande expectativa e otimismo. Essa geração cresceu com esse olhar, com um mundo de sonho. O Brasil, até 2013, existia uma projeção que era um momento incrível, de ascenção. A capa da “Economist” do Cristo decolando. Imagina quem entrou no mercado de trabalho então, existia oportunidade, o que se plantava colhia. A geração cresceu com isso.

A Covid está dando um choque de realidade tardio, uma geração que não foi fruto de crise. E estamos vivendo uma crise estrutural, e quem não tem ferramental pra lidar com isso pela primeira vez está lidando com um cenário muito difícil. Esse cenário pandêmico gerou essa primeira grande rasteira nessa geração.

E aí a gente vem pra segunda transformação dos millenials, que é o foco na saúde mental e no bem estar. Uma geração que teve que parar e pensar: estou vivendo mais ansioso e angustiado. Pela primeira vez discute autocompaixão e precisa trabalhar isso.”

Geração Z (nascidos entre 1994 e 2009)

“A geração Z, que é filha de crise, é a bola da vez. Pessoas  que estão entrando no mercado de trabalho. Aqui no Brasil especificamente, tem encontrado muita dificuldade nos últimos 5 anos pra entrar no mercado de trabalho. Uma geração que está se tornando adulta, virando força consumidora, de forma muito cruel.

Se tem um lado bom é que eles já têm ferramentas, porque essa sempre foi a realidade deles, ao contrário da Y.

É uma geração que está vivendo a crise dos principais marcos (formatura, primeiro emprego, independência financeira, morar sozinho. Isso está gerando ansiedade e angústia, é a geração que está sofrendo mais com o isolamento. 33% sofrem muito, contra 22% das outras gerações, segundo uma pesquisa.

Essa galera de 20 e poucos usa a internet de forma sofisticada, como ferramenta, para criar o trabalho, amplificar as redes. Está fazendo com que se auto-organize.

Os momentos de crise são os momentos de inovação. E a geração Z tem uma capacidade reflexiva gigantesca, porque é filha de crise e já aprendeu como se virar. Boto fé nessa geração.

Se a geração X vai liderar a gente a sair da crise, a Z vai liderar de um ponto de vista cultural e social. É uma potência criativa.”

Geração alfa (de 2010 para cá)

“Normalmente são filhos dos millenials, e criados de forma completamente diferente do que os pais foram criados. Esse momento também tá transformando esses indivíduos.

Adeptos da Navegação Figital (físico + digital). Com a tecnologia, a gente juntou essas peças, por exemplo com a impressão 3d. Pra essa geração, tudo é uma coisa só. Mas nesse momento de isolamento tá criando um contexto muito específico pra essa geração, sobretudo no que se refere à educação, pelo corte brusco de sair da escola e dos momentos de socialização. Já estavam acostumados com a tela, mas a tela era parte da vida, e não a totalidade. Essa geração vai valorizar demais esse tempo fora da tela, analógico. Mas ao mesmo tempo vai saber que, se precisar, uma tela pode resolver quase tudo na vida. É muito interessante ver como isso vai marcar essa geração, do on e off.”