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O mundo pós-pandêmico

Em entrevista, o 'future designer' André Bello tenta imaginar como será o amanhã

Por 2min
9 de abril de 2020

Professor da Escola de Rebeldia, autor de livros e speaker do TEDx, o “future designer” André Bello acredita que estamos vivendo “uma abrupta transição da Era Industrial para a Era do Conhecimento, do Mundo Linear para o Mundo Exponencial, do Mundo Pré-Pandêmico para o Mundo Pós-Pandêmico”. Sempre atento às revoluções digitais do dia a dia, ele compartilhou com 2minutos algumas de suas percepções sobre o momento atual – e o amanhã – na entrevista abaixo.

É verdade então que o futuro não é mais como era antigamente?

Historicamente o mundo vem se transformando numa velocidade crescente. No início de nossa jornada como sapiens, as grandes transformações ocorriam com intervalos de tempo longuíssimos. À medida que a tecnologia e a informação evoluíram, experimentamos a conexão entre pontos distantes e a complexidade do mundo aumentou numa fração do tempo do que acontecia no passado. Essa dinâmica nos traz cenários extremamente instáveis, que podem se modificar quase que instantaneamente.

Hoje testemunhamos uma aguda transição entre o mundo industrial – com suas formas de poder e decisão centralizados -, para uma sociedade em rede, mais digitalizada e de alguma forma mais distribuída que antes.

A reboque de todo este processo, nossa percepção de futuro também vem sofrendo mudanças. Passamos a percebê-lo de uma forma mais palpável e próxima de nós. O futuro está mais surpreendente e se misturando ao presente. Como se as fronteiras temporais estivessem cada vez mais rarefeitas.

Sendo assim, estamos desenvolvendo novos olhares no presente para tentar desvendar os rumos do futuro antes que eles nos surpreendam.

O futuro não é mais como era antigamente. E não será mais como é hoje.

Que lições é possível tirar agora sobre este amanhã pós-pandêmico?

A maior lição que temos a tirar desta realidade é que devemos e podemos pensar mais e agir mais para construir novos futuros.

Eu acredito que todas as pessoas, em maior ou menor escala, experimentaram algum tipo de reflexão sobre a pandemia e as lições já podem ser tiradas a partir de agora. Não diria que são conclusões ou lições definitivas, pois a volatilidade do mundo é gigantesca. Muitas coisas podem mudar novamente num curto espaço de tempo. Seja a partir de um anúncio da comunidade científica sobre a vacina contra o Covid-19, ou uma declaração de um líder corporativo ou político sobre como se portar diante das ameaças.

 

O fato é que a pandemia tem ensinado muitas coisas para quem se permitir aprender. Novas reflexões em dimensões e profundidades diversas.

– Sobre os indivíduos: Reflexões sobre nós mesmos, sobre medo, responsabilidade e coragem. Sobre nossas vidas, nossas crenças e propósitos. Nossas missões e sobre nossos papéis na sociedade.

– Sobre as relações humanas: reflexões sobre quem está ao nosso lado, sobre nossos familiares, vizinhos e comunidade. O valor de uma conversa presencial e a importância do tempo ao lado de entes queridos.

– Sobre o mundo e o futuro de nossa espécie: como será o amanhã, como voltaremos a uma nova normalidade. Como será o futuro trabalho, a produção de valor para a sociedade. Como a economia vai se reorganizar, como serão a relações entre países e desenvolvimento da ciência.

Todas estas são questões ainda sem respostas, mas que merecem nossa atenção, sobretudo porque, seremos nós os responsáveis – ou pelo menos seremos impactados – pela reconstrução das rotinas e dinâmicas do mundo pós-pandêmico.

Então de fato existe um lado positivo na pandemia? 

As crises normalmente são percebidas de forma – e em momentos – diferentes pelas pessoas, comunidades, segmentos de mercado e pelas nações. Cada crise pode nos cristalizar, mas tem, cada uma a seu modo, o poder de impulsionar o desenvolvimento de quem as sofre.

Crises e manifestações de perigo nos deixam alerta, mais energizados, focados e mais orientados. Nos fazem mais críticos, permitem/obrigam a estimular a criatividade, desenvolvem novos saberes ou favorece alianças políticas. Nos incentiva a um movimento que não aconteceria sem estímulo. Crises são momentos de oportunidade para as mudanças. São oportunidades para abandonar velhas formas de pensar e agir. São oportunidades para acelerar as transformações.

Desta vez temos algo novo para quase toda a população. Estamos diante de uma crise que atinge 7 bilhões de pessoas que precisam se adaptar a uma nova realidade num curtíssimo espaço de tempo. Os esforços nesse sentido são massivos e as mudanças talvez sejam proporcionais ao impacto que estamos vivendo.

É claro que todas estas mudanças são/serão dolorosas. Pessoas estão morrendo, desemprego e recessão já são realidade. Estamos sofrendo impactos de curto prazo, enquanto os benefícios desta transformação demoram a chegar. A economia certamente passará por momentos realmente difíceis, mas o planeta voltará, de alguma forma, em algum aspecto, mais evoluído depois disso tudo.

Segundo o historiador israelense Yuval Noah Harari, há três desafios existenciais para o Século XXI. Um possível retorno das guerras, um possível colapso ecológico e a anunciada disrupção tecnológica. Essa quarentena que nos isolou, mas conectou, não seria o oposto dessa disrupção?

Importante perceber que no (novo) mundo complexo que vivemos, não há mais espaço para pensamentos isolados, fora de seu contexto. É preciso encarar a realidade de forma sistêmica. O fenômeno da globalização e a proliferação do Covid-19 pelo mundo são manifestações desse novo sistema interconectado que vivemos.

Em sua abordagem à pandemia, vejo Harari mantendo a postura que o alçou a um dos pensadores mais proeminentes da atualidade. Seu pragmatismo e isenção iluminam que a crise do Coronavirus, em todas as suas instâncias – seja na saúde, na economia ou na política – têm o poder de expor o melhor e o pior do ser humano.

Este momento, refletindo a complexidade de seu contexto, também é repleto de dualidades e dilemas. A disrupção tecnológica ventilada por Harari como um desafio existencial para o Século XXI traz em si alguns impasses.

Muitos de nós já estamos experimentando percepções contraditórias. Como a quarentena que nos isola e ao mesmo tempo nos conecta. Como a tecnologia, que muitas vezes foi vista como vilã dos relacionamentos pessoais, hoje permite que o isolamento físico não signifique isolamento social. Afinal, mantemos contato, interagimos e nos relacionamos mesmo à distância.

Harari, no entanto nos leva mais fundo nessa questão quando extrapola a ferramenta tecnológica, além do indivíduo. Expõe, dolorosamente, o dilema da disrupção tecnológica que, como qualquer ferramenta, pode construir ou destruir.

Por exemplo, um chip subcutâneo que poderia monitorar a saúde de toda a população global e prevenir outras pandemias no futuro, poderia também ser objeto de desejo de governos e corporações pelo valor dos dados ali contidos. O que colocaria privacidade do mundo em xeque, assim como o poder de decisão individual e da própria democracia.

E como toda a crise é também uma oportunidade, talvez exista esperança para aprendermos a viver num mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo. Só o amanhã dirá, mas talvez estejamos iniciando agora um processo de adaptação a um novo mundo. Uma reflexão ocasionada pela desaceleração forçada da humanidade por alguns meses, talvez seja a brecha para um novo arranjo das ciências e dos saberes que nos leve mais longe como espécie.

Ao menos será uma chance para reflexão individual. Uma oportunidade de sairmos da pandemia melhor do que quando entramos.

 

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