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Que mundo será esse?

André Fran diz que o mundo pós-pandemia vai valorizar mais as ciências e o bom jornalismo

Por 2min
13 de abril de 2020

O jornalista André Fran sabe como poucos que mundo é esse. Por causa de seu programa na Globonews, esteve em lugares pouco convencionais do planeta para trazer relatos esclarecedores. Por exemplo, deu boas notícias vindas da África (onde estão alguns dos maiores epidemiologistas do mundo) e conheceu a praça onde até hoje a Arábia Saudita faz decapitações em público. Ele esteve na nossa quarentena de lives para nos ajudar a imaginar que mundo será esse após a pandemia.

– Nessas histórias eu tive oportunidade de ver países vivendo momentos dramáticos de crise total e desespero. Infelizmente eu puder ver as piores mazelas do ser humano e as situações mais caóticas que o mundo tenha a oferecer. Mas é nessas horas que a gente vê o melhor do ser humano, sempre tem uma pessoa altruísta que arrisca a vida pra melhorar a situação da sua comunidade – conta Fran.

Quando ocorreu o tsunami no Japão, ele estava num avião, voltando de lá com a esposa. Ao pousar no Brasil, soube do acidente em Fukushima, e uma semana depois estava novamente por lá, desta vez com sua equipe.

– Percebemos como o senso de comunidade do Japão estava fazendo o país se recuperar tão rápido. Quando fomos pro Haiti, mais ou menos um ano depois do terremoto que tinha varrido Porto Príncipe [a foto que ilustra este post é de lá], parecia que a gente estava chegando no dia seguinte ao terremoto. Tudo ainda destruído, as pessoas vivendo de forma improvisada. E perguntamos sobre o dinheiro da doação, da ajuda humanitária. Os governantes desviavam até esse dinheiro – relata.

André tem acompanhado todas as notícias sobre o coronavírus – “até mais do que é recomendado para a saúde mental” –, e diz que governos podem atuar para o bem e para o mal, e que a organização da sociedade civil pode fazer toda a diferença.

– Foi um absurdo o que o Partido Comunista Chinês fez, escondendo informações e perseguindo profissionais de saúde que queriam denunciar o problema. Foram atitudes totalmente condenáveis da ditadura comunista, mas depois, quando tiveram que encarar a situação, agiram muito rápido com o lockdown e fazendo testes em massa – avalia André, para quem logo depois o Irã virou o grande exemplo de tudo o que de errado pode acontecer numa crise. O governo local, ele lembra, acobertou a epidemia para não se prejudicar eleitoralmente, já que a escolha do novo parlamento acontecia naquele período.

 

Se tem uma coisa positiva disso tudo é que nós víamos movimentos antivacina, terra-planista, e agora vemos a importância do médico, do cientista, do jornalista

Segundo Fran, a pandemia vai acirrar ainda mais a disputa comercial China x EUA, além da guerra de influência das duas maiores potências globais nos demais países. Em relação às eleições americanas, o jornalista tem dúvidas sobre se a crise fortalecerá ou não Donald Trump na tentativa de reeleger-se:

– Geralmente as crises ajudam os presidentes, com medidas mais duras e discursos tranquilizadores. Mas agora é diferente, é uma mensagem desconhecida para a nossa geração: “entre em pânico, tenha cuidado, não saia na rua para proteger a si e aos demais”. E o Trump demorou a agir, e agiu com informações muito desencontradas. Tá naquela de empurrar um remédio que ainda não tem comprovação pelos órgãos de saúde [cloroquina], uma coisa arriscada, o que pode fortalecer mas também pode derrubar – analisa.

Sem dúvidas nenhuma, para André Fran, o momento é de fortalecimento do bom jornalismo e da ciência.

– As fakenews antes atingiam os campos políticos, pra influenciar cenários e candidatos, agora você vê fake news de ciências. As pessoas querendo ir contra a ciência e a medicina querendo desinformar as pessoas. Mas se tem uma coisa positiva disso tudo é que nós estávamos vendo a imprensa ser tão atacada, a medicina ser tão atacada, o conhecimento. Nós víamos movimentos antivacina, terra-planista, e agora vemos a importância do médico, do cientista, do jornalista, quando temos uma crise como essa.