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‘Que os danos sejam menores aqui’

In Hsieh trabalha, que com empresas chinesas e brasileiras, avalia estragos causados pelo Covid-19 aqui e lá

Por 2min
25 de março de 2020

In Hsieh começou sua carreira em 1999, como parte da equipe fundadora do Submarino. Depois, empreendeu com negócios ligados a e-commerce, até se tornar executivo de uma grande empresa de tecnologia, a Xiaomi. Atualmente, ajuda empresas do Brasil e da China a fazerem negócios. Tanto pela questão profissional como pela origem familiar chinesa, In tem acompanhado muito de perto toda a crise do coronavírus, “vendo o que as empresas fizeram de certo e de errado”. Para ele, “não será fácil, mas podemos passar por isso se todos se protegerem adequadamente. O investidor americano Paul Graham nos deixou a melhor frase: ‘se algo cresce exponencialmente, a hora de agir é quando achamos que ainda é cedo demais’.”

– Venho enfrentando os danos do coronavirus no meu trabalho desde Janeiro porque minha empresa é focada em negócios entre Brasil e China. Os impactos na economia virão mais fortemente depois, mas não precisamos novamente esperar o problema bater na nossa porta para tomar uma atitude – afirma In, que bateu um papo com 2min sobre o cenário atual e futuro, para que nos ajude a ter ideias de como fazer deste amargo limão uma deliciosa limonada.

 

 

Temos lido que a vida começa a voltar ao normal na China. Já é possível avaliar o impacto da crise do coronavirus por lá?

Os chineses estão voltando às atividades, mas ainda não é “vida normal”. Em muitas cidades, principalmente as mais distantes do epicentro, quase 100% das empresas estão funcionando, mas abaixo do ritmo anterior. Muitos serviços, lojas e restaurantes já estavam operando há algum tempo e agora praticamente todos abriram. Os clientes é que demoram mais para voltar.

Os impactos estão sendo enormes. O primeiro obviamente é em vidas humanas. Milhares de mortos e sobreviventes com sequelas. Além dos econômicos e sociais. Econômicos com o mercado sofrendo brutais quedas de produção e vendas, perdas de empregos e fechamento de empresas. Impactos sociais com grandes mudanças de comportamento e hábitos. E que seja para algo mais sustentável, saudável e social.

Algumas dessas consequências poderão ser percebidas nas primeiras semanas e meses após a pandemia, mas outras serão sentidas somente ao longo do tempo, principalmente as sociais.

E no Brasil? Quais as semelhanças e diferenças que vê entre os dois mercados?

O maior desejo agora é que os estragos sejam menores no Brasil, pela preparação que está sendo feita, principalmente pela população e a iniciativa privada.

Chineses e brasileiros têm culturas e histórias diferentes, mas habitam o mesmo planeta. Esperamos que, assim como os chineses conseguiram usar suas principais características para controlar o coronavírus, os brasileiros também possam aproveitar seus talentos e recursos para vencer. No final, temos o mesmo objetivo: sobreviver.

O modelo de governo e a cultura chinesa de foco no coletivo têm facilitado o combate ao Covid-19. Existe uma consciência social muito grande e uma aceitação das diretrizes do poder público. Obviamente vários erros foram cometidos no início, tanto é que os principais responsáveis foram demitidos e serão punidos, mas existe o entendimento da maior parte da população de que os governantes estão genuinamente preocupados com o bem-estar de todos.

No ocidente, de forma geral, existe uma preocupação maior com o conforto dos indivíduos, por isso, tende a ser mais difícil baixar medidas duras em momentos de crise.

Quem pode tirar proveito da crise, se é que alguém pode?

Na cultura chinesa, existe a visão de que que toda crise traz alguma oportunidade. Isso vem de uma imprecisão na interpretação do ideograma “crise”, que supostamente é formado pelas palavras perigo e oportunidade. Mesmo não sendo correto, o conceito mostra que nesse momento em que estamos mergulhados na crise, precisamos olhar também para frente. Alguns setores conseguirão passar melhor, principalmente quem vende itens e serviços de primeira necessidade, saúde, medicamentos, limpeza, alimentos básicos e conveniência. Também poderão ter algum sucesso quem trabalha com educação, conteúdo e entretenimento online. Todo o resto deve se focar totalmente em conseguir manter os negócios até a retomada social e econômica. E quem puder estabelecer um bom relacionamento com a população agora, vai largar na frente.

Na crise de 2002/2003, por conta da SARS, o Alibaba reinventou-se virando a empresa que é hoje. Pode nos lembrar essa história?

Dois exemplos de empresas chinesas que nasceram ou decolaram em meio a grandes pandemias são a JD.com e o Alibaba. No período da SARS, em 2003, a JD era um varejista físico de CDs e eletrônicos em ascensão que teve que fechar todas as lojas para se concentrar no online, vendendo principalmente por comunicadores instantâneos locais, parecidos com o WhatsApp e Facebook Messenger. A empresa conseguiu vender bastante na crise, fez a transição para o online e criou um site próprio no ano seguinte, tornando-se um dos maiores do mundo. Em 2018, o faturamento da companhia foi de US$ 67 bilhões.

Nesse mesmo período, o Alibaba era uma startup com poucos anos de vida. Depois de participar de uma feira internacional, uma funcionária voltou com SARS, obrigando o fechamento do escritório. E foi nesse momento de crise que a força de liderança do fundador Jack Ma se sobressaiu. Com as equipes trabalhando de casa, numa época que o home office não era popular, e com os grandes compradores estrangeiros evitando visitar a China, Jack conseguiu motivar e levantar a moral de todos, transformando aquela pequena companhia no maior grupo de comércio eletrônico do mundo. Um dos grandes negócios da companhia também nasceu nessa época, o Taobao, que anos depois conseguiu tirar o eBay do mercado chinês.

Esta não será a última crise global causada por uma pandemia. Que precauções as empresas podem tomar em relação à próxima? Ou só quando se está no meio da tormenta é possível avaliar os caminhos?

Conseguiremos vencer essa e as próximas crises com preparo, resiliência, empreendedorismo e criatividade. Isso não só as empresas, mas as pessoas também. Estando preparados, tanto sabendo o que fazer, quanto com recursos humanos e financeiros estruturados. As famílias e empresas estão sempre muito alavancas, vivendo no limite, o que não deixa nenhuma margem para crises sem precedentes como esta.