Atualidades

Uma outra pandemia

Neste Setembro Amarelo, atenção extra aos sinais de transtornos que podem levar ao suicídio, que mata 1 milhão por ano

Por 2min
10 de setembro de 2020 Atualizado em 17/09/2020 às 08:28

Não é apenas o Covid. No momento, lidamos com outra pandemia, esta silenciosa: anualmente, são registrados 12 mil suicídios no Brasil, e 1 milhão em todo o mundo (apenas para efeito de comparação, o número de mortos pelo coronavírus até aqui é de cerca de 900 mil). E, claro, o Covid-19 pode fazer este número piorar. Um recente artigo publicado no Lancet Psychiatry  levantou a questão, especulando sobre um possível aumento nos índices de suicídio.

O problema é tão grave que a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), em parceria com o Conselho Federal de Medicina, organiza nacionalmente, desde 2012, o Setembro Amarelo, mês marcado para conscientização. O dia 10 deste mês é, oficialmente, o Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio. No caso de 2020, com a combinação com a outra pandemia, é possível que um maior número de pessoas apresente transtornos mentais, como depressão, transtorno de estresse pós-traumático e transtornos ansiosos, e aquelas que já sofrem experimentem uma piora.

É importante que a sociedade desmistifique o tabu em torno do tema e auxilie os médicos a identificar, tratar e instruir seus pacientes. Por motivos religiosos – normalmente, o suicídio é considerado o mais grave dos pecados –, muitas vezes evitamos falar sobre o assunto, o que claramente só atrapalha em sua prevenção.

Por isso, selecionamos alguns dados relevantes:

– 17% da população brasileira pensaram, em algum momento, a tirar a própria vida;

– Entre os homens, o número de suicídos é praticamente o dobro do que entre as mulheres;

– A cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio no mundo, e a cada 3 segundos, há uma tentativa;

– O número de suicídios ultrapassa o de homicídios e guerras combinados;

– Cada suicídio tem forte impacto na vida de outras seis pessoas, em média;

– O Brasil é o oitavo país em número de suicídios. Entre os jovens, esta é a terceira maior causa de morte no país;

Os dois principais fatores de risco são: tentativas prévias de suicídio e doenças mentais (muitas vezes não diagnosticadas). Há evidências de que conflitos em torno da identidade sexual causem um comportamento suicida. Transtornos causados por uso de álcool ou outras drogas também entram na lista.

O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias. Basta ligar 188. As ligações são gratuitas a partir de qualquer linha telefônica fixa ou celular.

Ouvimos o psicólogo Leonardo Piamonte sobre o tema. Ele reforça a necessidade de desestigmatizar o tratamento da saúde mental, com ou sem pandemia.

“O que vem na sua cabeça quando se fala em saúde mental? Vem a ideia de alguém profundamente transtornado, perigoso, psicopata talvez? Alguém incapaz de viver em sociedade? Somos capazes, aliás, de olhar pra nossa própria angústia sem sentir que somos fracos, que falhamos, que somos errados? Falar de saúde mental é fundamental porque estamos vivos, e quem está vivo vai passar por um estresse que gera ansiedade, por um baque que gera resposta depressiva, por uma situação que nos incomoda e nos deixa agressivos. Não estigmatizar a saúde mental é importante para que a gente possa procurar a ajuda correta, o apoio necessário, aprender o jeito mais saudável de   lidar com a situação sem nos machucarmos nem machucar aos outros. Por isso precisamos falar de saúde mental. Como diria Wittgenstein, “eu só conheço aquilo para o que tenho palavras”. Vamos falar?”