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Vidas negras têm que importar mais

No Dia da Consciência Negra, é necessário prestar atenção ao fosso racial que divide o país

Por 2min
20 de novembro de 2020

Neste Dia da Consciência Negra, é importante estar atento aos dados divulgados pelo IBGE na semana passada, relativos a 2019. Qualquer número escolhido demonstra a profundidade do fosso que ainda divide o Brasil, que precisa dar mais importância a vidas negras. Vamos a alguns deles:

– O índice de desocupação era de 9,3% para brancos, e de 13,6% para pretos ou pardos;

– Entre os que estavam ocupados, o percentual de pretos ou pardos na informalidade chegava a 47,4%, contra 34,5% entre trabalhadores brancos;

– Brancos ganhavam 73,4% mais do que pretos ou pardos. Em reais, a diferença era de R$ 2.884 para brancos e de R$ 1.663 para pretos e pardos;

– Entre os trabalhadores com nível superior, o rendimento/hora de brancos era de R$ 33,90, enquanto pretos e pardos com o mesmo nível de instrução ganhavam R$ 23,50/hora.

– Dos que estavam abaixo da linha de pobreza, 70% eram de cor preta ou parda;

Como já dito, todos os indicadores acima são de 2019. Portanto, pré-pandêmicos. O que leva a crer que, na próxima pesquisa, o problema terá piorado.

– Vemos agravamentos cruéis da manutenção da não-humanidade de pessoas pretas e do nosso genocídio. Temos 71% a mais de chances de desemprego durante a pandemia do que pessoas não-negras – disse ao 2min Nina Silva, fundadora do Movimento Black Money, hub de inovação negro. – Com o entendimento de que existem diferentes mundos dentro de um país continental, precisamos cada vez mais trazer diferentes e melhores oportunidades pra todes – afirmou.

A busca por diversidade e inclusão é fundamental, como observou Fábio Coelho, presidente do Google no Brasil, durante o festival “O que o futuro (do varejo) nos Reserva?”:

– Quando cheguei ao Google, havia muita gente parecida, de um alto nível educacional. A diversidade de raça, de orientação sexual, de background, de estilos, começamos a pensar como fazer para incluir. O conceito é diversidade, inclusão e equidade – que é remover algumas barreiras, e não tratar todo mundo igual – disse. – Entravam 25 trainees por ano. Um dia vi que todos eram brancos. Todos têm que falar inglês, e muita gente não tem a chance de aprender. Criamos outro grupo de trainees, sem a barreira do inglês, e nesse programa a gente busca jovens de minorias tão talentosos quanto os outros – disse, lembrando que as medidas têm um “caráter reparatório”.

No Magazine Luiza, um dos maiores varejistas do país, a percepção é a mesma. Este ano, a empresa abriu seu processo seletivo de trainees apenas para afrodescendentes. Num primeiro momento, a decisão gerou reação de haters; em seguida, os clientes e fãs da marca saíram em defesa do Magalu.

– Temos um comitê de igualdade racial há 7 anos. Eu achava que eu era uma pessoa não-racista, até que fui a uma reunião do comitê. Fico muito emocionada até hoje porque ali entendi o que era o racismo estrutural, é muito mais grave do que a gente imagina. O Brasil teve muito negro por causa da escravidão. E teve uma libertação mal feita, levando todo mundo pra periferia sem fazer nada. Você não muda um paradigma sem tomar paulada – avaliou Luiza Trajano, também durante um talk no festival.

Segundo o Movimento Black Money, 54% da população é afrodescendente, assim como 51% dos empreendedores nacionais. Com o episódio George Floyd – assassinato de um negro pela polícia americana, que levou milhares de pessoas a protestar nas ruas, mesmo durante a pandemia –, muitas empresas tentaram fazer com que o ativismo ecoasse nos negócios. Para Nina Silva, poucas foram além de uma hashtag (#Vidas Negras Importam) em redes sociais.

– A gente vê que está cada vez mais forte o investimento em ESG – Enviroment, Social, Governance –, as empresas sabem que tem um impacto que precisam fazer, principalmente por conta de o mundo estar assistindo as movimentações não só externas como internas das empresas. Então cada vez mais, quando se trata de inclusão e diversidade, elas precisam estar amplificadas pra todes, e não somente para determinados grupos – disse.

Em junho, a Reserva assinou um compromisso antirracista junto ao Sistema B e ao Instituto Identidades do Brasil (ID_BR). A ideia é desenhar um plano de ação para trabalhar o antirracismo nas várias frentes da empresa.