Causas

Doar não dói

Pandemia faz doações atingirem R$ 5,4 bilhões através de 345 mil doadores contabilizados - e certamente há mais

Por 2min
29 de Maio de 2020

Se existe um dado positivo em relação à pandemia do coronavírus, é o aumento exponencial de doações feitas nos últimos dois meses e meio. Segundo o monitor de doações da Associação Brasileira de Captadores de Recursos, o número chegou a R$ 5,41 bilhões, vindos de quase 345 mil doadores.

– São dois saltos: o número de doadores e volume da doação, em especial a empresarial [85% do volume total, ou R$ 4,51 bilhões, veio de empresas]. Nunca tivemos tantas pessoas doando tanto, em tão pouco tempo. Isso é inédito e muito inspirador – diz João Paulo Vergueiro, diretor executivo da ABCR. – Além disso, um grande volume de doações não é informado com valor, e por isso não está sendo mapeado, além de muitas doações estarem sendo feitas por meio de aplicativos de celular, que não são ainda abertas a divulgarem os seus números. Por isso, acreditamos que os números podem ser pelo menos 30% maiores que os atuais.

Historicamente, pessoas físicas doam por ano R$ 14 bilhões (dados de 2015), o que representa 0,23% do PIB. E os grandes doadores institucionais doaram R$ 1,1 bilhão em 2019 – ou seja, apenas durante a pandemia, já doaram quatro vezes a mais.

– A pandemia, sozinha, não será responsável por transformar o hábito do brasileiro para que doe de forma mais recorrente, mas contribui bastante para isso. Na verdade, um dos maiores legados desse período vai ser aumentar imensamente o número de pessoas no país que já ouviu um pedido de doação, que já teve a oportunidade de doar e até doou. Isso as tornará mais receptivas para pedidos futuros – e as organizações devem estar preparadas para isso.

O advogado Henrique Barbosa é um ótimo exemplo de como nasce o hábito. Até três anos atrás, quando tinha 37, mesmo já tendo trabalhado em comunidades da Zona Sul do Rio, desconhecia a realidade (ainda pior) das favelas da Baixada Fluminense, “invisíveis”, segundo ele. Ao ouvir o relato de uma estagiária que fez um projeto voluntário para a ONG Teto –  que ajuda a construir casas para quem não tem –, decidiu ajudar também. Primeiro, com consultoria jurídica. E depois, colocando (literalmente) a mão na massa.

– Logo no início da pandemia, comecei a imaginar como essas pessoas que eu conheci ao longo desses anos ficariam. Eles já tinham escassez de tudo o que é mais básico. A maioria sai atrás do almoço no mesmo dia – explica Henrique. – E não estamos falando de favelas que ficam na Zona Sul do Rio, mas na Baixada. Na Zona Sul, de um jeito ou de outro, as coisas chegam. Lá, não chega nada – diz.

 

 

Através dos amigos, pelo whatsapp, começou a arrecadar. Na primeira semana, entregou 75 cestas básicas, via lideranças comunitárias que conheceu através do Teto. Na segunda semana, foram 200. Na terceira semana, conseguiu apoio do Instituto Dharma, presidido por uma amiga de Henrique, Karina Oliani. As fotos que ilustram este post mostram a ação.

Passados dois meses, as doações chegaram a 1.840 cestas, ou 35 toneladas de alimentos, que foram distribuídos em nove comunidades. Também foram arrecados 20 mil litros de água mineral, 6 caminhões-pipa com 100 mil litros de água potável, 4.805 máscaras e 1.365 frascos de álcool gel, através de empresas parceiras.

– É muito fácil ficar anestesiado com uma pandemia como essa, é quase uma reação natural – avalia Henrique. – Ninguém esperava por isso. Ao mesmo tempo, você percebe que as pessoas têm vontade de ajudar e não sabem como – diz Henrique.

De acordo com A ABCR, normalmente as doações no Brasil são feitas por mulheres, pessoas de mais idade e maior estabilidade financeira. Entre as empresas, as multinacionais têm mais tradição em doar, e muitas grandes empresas brasileiras desenvolvem a mesa cultura interna.

E como nasce a cultura da doação? Henrique responde:

– Acredite nas ideias mais malucas que você tiver, se forem do bem. Eu tinha uma frustração por nunca ter tirado do papel, por vergonha, por achar difícil ou por não acreditar – conta o advogado, que ano passado fez uma viagem pela costa nordestina a bordo de pranchas de kitesurfe, acompanhado por 18 médicos do Dharma. Em dez dias, percorreram 380 quilômetros, do Ceará ao Piauí.

– Velejávamos um dia e atendíamos no outro, com apoio por terra – explica Henrique. Essa aventura beneficente vai virar documentário no canal Off em breve.

A propósito: para ajudar na arrecadação de Henrique, o Instituto Dharma criou um crowdfunding. A meta é chegar a mais mil cestas básicas.