Causas

Preconceito é prejuízo

Uma em cada cinco empresas não contratam homossexuais, e homofobia custa US$ 405 bilhões à economia

Por 2min
17 de Maio de 2020

 

Há exatos 30 anos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aboliu a classificação de homossexualidade como “distúrbio mental”. Em outras palavras, se não há doença, não é preciso ter cura. Por isso, desde 2004 se comemora nesta data o Dia Internacional Contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia. Embora muitos avanços tenham ocorrido de lá para cá, o caminho contra o preconceito ainda é longo.

– Por um lado, a descentralização dos meios de comunicação e a popularização das redes sociais possibilitaram uma visibilidade que antes não existia: para se ter uma ideia, no Youtube existem mais de 700 milhões de visualizações de vídeos sobre “sair do armário”, de acordo com dados do Google de 2019 – diz Thalita Gelenske, da Blend Edu, startup de educação que ajuda empresas a construírem uma cultura de diversidade e inclusão. – No entanto não podemos tomar esses avanços por garantidos. A conscientização e a representatividade precisam seguir sendo prioridade para evitar retrocessos – alerta.

Para o publicitário Pedro de Figueiredo, do Memoh – grupo que tem como propósito promover a equidade de gênero, fazendo o homem refletir sobre seu modo de agir – o combate à homofobia é uma questão tão importante quanto a desigualdade de gênero.

– É preciso fazer cada vez mais com que os homens entendam que existem milhões de maneiras de ser homem, e todas devem ser respeitadas. Não deve existir um padrão específico – diz.

Ele se refere a “homens” devido a seu público-alvo, mas o raciocínio vale para mulheres também. Thalita, que se define lésbica, afirma que, corporativamente, homossexuais ainda se colocam dentro de um armário imaginário, com medo de represálias profissionais devido ao preconceito.

– Demorei muito tempo até me sentir confortável para falar abertamente sobre o tema no ambiente corporativo. E admito que, até hoje, dependendo do espaço onde eu estiver (e da cultura da organização onde estiver presente) tenho certeza que declarar isso vai moldar o olhar das pessoas em relação a mim, o que pode até fechar portas – diz. No entanto, ela costuma optar por falar.

A maioria, porém, não age desta forma: 61% dos funcionários LGBTIs no Brasil dizem esconder sua sexualidade para colegas e gestores, de acordo com o Center for Talent Innovation.

– Isso fere um elemento básico de equipes de alto desempenho: a segurança psicológica. Quanto menos as pessoas se sentem confortáveis para ser elas mesmo, menos elas conseguem inovar e atingir bons resultados – explica Thalita.

A consultora cita ainda um cálculo estimado com base em produtividade, processos judiciais e turnover, segundo o qual é possível estimar que a homofobia custe US$ 405 bilhões para a economia brasileira, segundo a OutNow Global. Outra pesquisas nacionais apontam ainda que 20% das empresas não contratariam homossexuais, e 33% não contratariam pessoas LGBTI para cargos de chefia. Além do prejuízo financeiro, uma tragédia para uma parcela da população:

– Isso leva a que 90% das pessoas trans se tornaram profissionais do sexo, por não terem acesso a oportunidades de emprego, entre outros motivos – avalia Thalita.

Para ajudar a mudar essa realidade, Thalita Gelenske lista cinco tarefas que as empresas podem realizar para construir um ambiente mais inclusivo para LBGTQIs:

1 – Crie bases para a mudança: levante dados, mostre o apoio institucional e promova um ambiente que garanta o respeito, o suporte e a igualdade de oportunidades;

2 – Construa uma base de aliados: busque apoio da alta liderança e estimule a criação de grupos de diversidade;

3 – Representatividade importa: dê um “lugar à mesa” e ofereça oportunidades de desenvolvimento de carreira para LGBTIs;

4 – Conquiste corações e mentes: invista em ações de sensibilização e educação;

5 – Vá além dos “muros” da sua empresa e impacte outros stakeholders.