Causas

Relatos da linha de frente (2)

Jovem de apenas 24 anos conta como aprendeu a se colocar no lugar do paciente: 'Não tenho que ser só médica'

Por 2min
12 de agosto de 2020

 

A médica Luisa Lucena tem apenas 24 anos, menos de dois de formada, e ainda está na residência. Atuar na linha de frente do combate ao coronavírus – no seu caso, trabalhando em hospital privado, público e até em hospital de campanha – tem sido uma experiência que ela vai carregar pra sempre. Com uma lição que não tinha como ser recebida em sala de aula: a empatia.

– Aprender a se colocar no lugar do paciente e do familiar foi o grande aprendizado. Não tenho que achar que sou “só” a médica. Tenho que ser filha, neta. Tenho que perguntar sobre a vida dele, e não só sobre o tratamento. E mantê-lo conectado com as outras pessoas, pra que ninguém seja esquecido – diz Luisa.

Ela cita especificamente o caso de pacientes que atendeu no hospital de campanha montado na Gávea. Com ótima estrutura, tinha um porém: a falta de janelas, que faz com que os pacientes percam a noção das horas.

– Fiquei me colocando no lugar deles. Imaginando meu pai totalmente isolado, sem saber se é dia ou noite, sem celular, nada.

A rotina por lá, então, passou a incluir passeios pelo lado de fora, assim que o estado de saúde permite.

– Depois de 14 dias, quando não estão mais transmissores, alguns conseguem chamar a família para observar o banho de sol, e isso tem sido importante – conta. – É muito legal ver essa cena, depois de ter visto a pessoa numa condição pior, na semana anterior.

No último sábado, uma senhorinha que se recuperava da doença pediu que Luisa a abraçasse. A médica fez o papel de neta e não negou o carinho, porque sabe a diferença que isso faz.

– Eles ficam muito gratos, alguns mandam cartas depois – diz.

Apesar de muito exposta ao vírus, Luisa não foi infectada, ao contrário da maioria de seus amigos. Em casa – ela mora com os pais, com o irmão, também médico, e a irmã, estudante de Medicina  –, toma todos os cuidados necessários. Ao chegar, vai direto para o banho e coloca as roupas para lavar. Apesar de não terem doenças pré-existentes, os pais são motivo de preocupação constante.

– A gravidade de alguns pacientes, mesmo jovens e sem doenças graves, me impressionou – alerta.

Mesmo assim, Luisa acredita que a pior fase da pandemia já passou. Dos seis CTIs (cada um com entre 15 e 21 leitos), apenas dois estão funcionando atualmente no hospital de campanha.

– No início, chegou um momento em que não tinha mais respirador caso precisasse entubar paciente. E num plantão que eu tava, precisamos. Fiquei muito desesperada. Ao chegar em casa, estava muito ansiosa. Minha mãe não conseguia entender essa ansiedade. Com o tempo, as coisas foram se encaixando no hospital, e acho que a parte mais crítica já passou. Acredito que até o fim do ano esteja bem menor. Mas esses cuidados que temos tido, só depois da vacina vamos poder parar. O platô ainda é muito alto por dia – resume.

Curtiu? Leia também, da série Relatos da linha de frente:

Relatos da linha de frente – No Dia Nacional da Saúde, uma homenagem da Reserva a profissionais como a pneumologista Margareth Dalcolmo