Causas

Relatos da linha de frente (3)

Médica separou-se dos pais e dos cachorros para proteger a família durante a pandemia

Por 2min
28 de agosto de 2020

“Uma vida que a gente salva já vale. É uma família. Um pai de alguém, um filho de alguém. E falar que a gente não se envolve é mentira”, diz a médica Maria Cláudia Resende Klein, de 29 anos. Formada há três, ela começou a residência em terapia intensiva no início de março, poucos dias antes da chegada da pandemia ao Brasil, e entrou para a linha de frente do combate à doença.

Se, academicamente, a coincidência foi positiva, é claro que Maria Cláudia sentiu o drama de se ver, de uma hora para a outra, afastada dos pais e dos dois cachorros, Greg e Lua, com quem mora (na foto acima, feita nesta sexta-feira, 28/8, o registro de um dos primeiros encontros da médica com a mãe, Celeste, e os dois cães, na garagem do prédio onde vivem, em Ipanema).

– Aluguei um apartamento no mesmo bairro, tipo airBnB, já mobiliado. O iFood foi meu grande parceiro nos últimos meses – conta. – Sou filha única. A decisão de sair de casa foi difícil pra minha mãe. Mas vi que não tinha muito jeito, porque eu estaria muito exposta, trabalhando em hospitais. Mesmo com todos os cuidados, eu poderia ser assintomática e transmitir dessa forma. Conversamos e achei mais prudente sair de casa – lembra.

De fato, Maria Cláudia acabou pegando o coronavírus. Mesmo depois de curada, decidiu permanecer afastada da família, já que a literatura ainda é escassa e ninguém garante que uma pessoa não possa se reinfectar.

–  A gente falava muito por vídeo, e de vez em quando eu descia do Uber e dava tchauzinho pra eles. Colocavam os dois goldens na janela. Mas dava uma saudade muito grande – diz.

– Ainda é muito difícil – concorda a mãe, sem conter a emoção.

No caso de Maria Cláudia, a doença deu sinal durante um plantão. Na mesma hora, fez o teste e confirmou que estava com Covid. Era maio, auge do pico da pandemia no Rio.

– E estava muito sozinha. O doente sente isso, estar isolado. Mas não estar internada já era um alívio – diz. – Fiquei com medo porque no quinto dia fiquei mais cansada, não sentia cheiro e estava sem paladar. Pensei: se estou assim no quinto dia, imagina no décimo, que normalmente era o pior. Acho que entra muito a cabeça nisso tudo.

Felizmente, depois de duas semanas Maria Cláudia voltou à rotina nos hospitais. E, aos poucos, o sufoco das primeiras semanas da doença no Brasil foi passando, com muito aprendizado em seu enfrentamento – por exemplo, o tempo de entubação, que não pode ser longo demais, por risco de infecções.

– Meu tio também é médico, e disse que em 30 anos de profissão não tinha visto nada igual. No início era uma dificuldade grande de vaga, os gestores estavam preocupados. A gente tinha plantões insustentáveis, em que não dava pra fazer xixi, beber água, nada. Não tinha tempo. Começou a ficar muito pesado tanto no hospital público como no privado – lembra.

A parte mais difícil, claro, foi ver gente jovem morrer.

– Na terapia intensiva, a gente lida com doentes graves, com uma proximidade da morte que a gente não gostaria tanto. Mas paciente mais jovem é mais difícil, nestes casos não dava nem pra família absorver. A gente fala que ninguém sairá normal disso. De vez em quando ainda dou uma chorada, do nada.

Seu plano agora é voltar pra casa, ainda no início de setembro, embora não vá deixar a linha de frente.

– Depois, quero viajar, pra qualquer canto – diz, reforçando que manterá os cuidados por um bom tempo ainda. – O que a gente pode fazer agora é usar máscara. Eu evitaria ir a bar. Não me sentiria à vontade. Sei que tá todo mundo trancafiado há muito tempo, e que os bares precisam, mas eu esperaria mais um pouco.

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