Causas

Relatos da linha de frente

No Dia Nacional da Saúde, uma homenagem da Reserva a profissionais como a pneumologista Margareth Dalcolmo

Por 2min
5 de agosto de 2020

Neste dia 5 de agosto se festeja o Dia Nacional da Saúde. Em homenagem aos profissionais que, como Margareth Dalcolmo, dedicam-se a combater o coronavírus, 2min lança hoje a série Relatos da Linha de Frente. Ao longo de seis semanas vamos postar depoimentos de quem fez a diferença. A série foi proposta pelo fotógrafo Thiago Diz, que vai colaborar com imagens para o projeto. 

***

“Nunca trabalhei tanto na vida”, diz a pneumologista Margareth Dalcolmo, da Fiocruz. “Se antes já trabalhava 12 horas por dia, agora são 14 pelo menos”, conta. Ela se divide entre as atividades em seu consultório no Jardim Botânico, atendendo a pacientes online, e idas à instituição de pesquisa, em Manguinhos. Além de compromissos docentes, lives, webinários e entrevistas para a televisão e jornais – e, ufa, a coluna semanal de O Globo. Sem esquecer das ações humanitárias.

O aumento da carga horária está longe, muito longe mesmo, de ser uma queixa. Margareth ama o que faz e está na linha de frente do combate ao Covid-19 não apenas atendendo, mas propondo abordagens de tratamento – e de prevenção. Ela é uma das defensoras de primeira hora do uso de máscaras caseiras pela população, antes mesmo de isso tornar-se um mantra das autoridades sanitárias de todo o mundo.

– Defendo o uso de máscaras não apenas porque trabalho com doenças infecciosas. Conheço epidemias de perto. Assessorei na época da Sars, e as vejo na África, para onde vou pelo menos duas vezes por ano – diz a médica capixaba, que escolheu o Rio para viver. Como consultora do Banco Mundial, ela ajuda no combate a epidemias de Aids e tuberculose entre mineiros da África subsaariana. Há cerca de 9 milhões de trabalhadores em minas no continente.

Para Margareth, o uso de máscaras vai muito além do de barreira mecânica: “sempre digo que é um gesto de solidariedade”.

– Nas culturas asiáticas, isso é muito comum. Todas as vezes que fui pra lá, isso me chamou a atenção – diz ela, que costuma brincar que, em seu trabalho, “é como se eu vivesse em epidemia. Tem filtro no ar e todos usam máscara N-95, além de equipamentos de proteção”.

No caso do Covid-19, ela teve admiração imediata pelo modelo seguido na Coreia do Sul desde o início. O país tomou duas medidas sanitárias que ajudaram a conter o coronavírus: reforçou a necessidade do uso de máscaras e testou em massa. Isso permitiu um excelente controle, na avaliação da pesquisadora.

– Fico muito triste quando vejo uma máscara no queixo, ou quando vi aquela aglomeração nos bares da Rua Dias Ferreira, no Leblon, uma demonstração coletiva de arrogância.  E sobretudo com o número de tolices que têm sido ditas, de que a máscara atrapalha a respiração, que você respira seu próprio gás carbônico… Deveríamos gastar o tempo com mensagens propositivas. São conselhos de civilidade, mais do que orientações médicas. Precisamos de um patamar civilizatório melhor – diz.

[No início da pandemia, foi à doutora Margareth que a Reserva recorreu para validar a proposta de confeccionar máscaras caseiras para a distribuição entre comunidades de baixa renda. Até então, essa orientação não vinha das autoridades de saúde (apenas no início de abril o então ministro Mandetta declarou-se favorável ao uso de máscaras).Também estávamos em março quando ela previu que o Covid-19 atingiria mais jovens no Brasil do que em outros países, devido às condições socioeconômicas e geográficas do país.]

Em maio, foi a vez de ela própria passar a paciente, como aconteceu com vários profissionais da linha de frente. Ela estava na Fiocruz quando se sentiu mal pela primeira vez. Voltou pra casa mais cedo, com menos energia. Foi dormir antes do habitual, e ao acordar percebeu que estava sem paladar e olfato. O teste laboratorial apenas confirmou o autodiagnostico: era Covid.

Felizmente, ela teve uma forma moderada da doença. Mas a fraqueza muscular lhe tirava autonomia para coisas elementares como fazer a cama ou comer. A saturação de oxigênio chegou a baixar, e ela fez alguns exames, mas não precisou ser hospitalizada. Isolou-se num apartamento, longe do marido, assistida por profissionais de enfermagem. Foi um período, ela diz, em que sentiu medo.

– Quando passa a fase dos primeiros dias, entra na fase inflamatória. É aí que dá medo. Muitas pessoas ficaram bem até o 8º dia e depois pioraram. Eu acordava à noite para ver se estava respirando bem. Nunca escondi que tive medo – conta.

De positivo, neste período, ela conseguiu escrever um capítulo do livro “O mundo pós-pandemia”, lançado em julho, que reúne 50 textos de grandes nomes dos mais diversos setores da sociedade – das artes à economia, passando, logicamente, pela ciência. Margareth faz companhia a Pedro Bial, Fernanda Torres, Luís Roberto Barroso e Bernardinho, entre outros. Mais um livro para sua já robusta estante, cenário habitual de suas participações na Globonews (no consultório, onde fizemos a foto, o quadro de Amílcar de Castro ao fundo adorna o ambiente que também já ficou conhecido pelos brasileiros).

Margareth ainda ressalta o surgimento de pessoas mais companheiras, que descobriram seu espaço privado. Uma contraposição às pessoas estressadas e deprimidas, que passaram a beber mais.

– Li que a venda de destilados aumentou muito e me entristeceu, porque é muito difícil sair da adicção. Por outro lado, muitas pessoas fizeram a redescoberta de seu espaço, reformaram a casa, escreveram memórias, mudaram a qualidade da relação com a família e os amigos – diz. – Acho que vamos ter muita coisa escrita e registrada sobre isso.

E que sejam histórias com final feliz.

 

linha de frente