Causas

Uma aula de solidariedade

Maria Pau-Ferro comanda instituição que recebe doações via 1P5P e atende a 554 famílias em Alagoas

Por 2min
15 de abril de 2020 Atualizado em 11/05/2020 às 11:21

O programa 1P5P da Reserva divide seus recursos entre duas instituições. Em São Paulo, a parceria é com a ONG Banco de Alimentos. Em Alagoas, com o projeto Mesa Brasil, do Sesc – que atinge 123 entidades e quase 300 mil pessoas por mês. Fomos visitar uma dessas instituições beneficiadas, a Associação Beneficente Santa Lúcia, em Maceió. Este é o depoimento de Maria Pau-Ferro, sua criadora, que nos dá uma aula de solidariedade.

Meu nome é Maria Pau-Ferro, tenho 51 anos.

Acho que a pior situação do mundo é criança passar fome. Só sabe quem passou. Fui de uma família muito pobre. Tinha nove irmãos, e minha mãe partia um ovo para cada quatro. Quando tinha ovo. Quando não tinha, a gente comia o caroço do feijão ao meio dia e o caldo no jantar.

Quando me casei, aos 13, fui morar na fazenda de uma usina, no Passo de Camaragibe (AL). Lá tive a ideia de ser catequista e de fazer um trabalho social com os padres salesianos. Senti amor por isso. Meu sonho era matar a fome de quem tivesse fome.

Quando vim para Maceió, conheci uma família que me fez uma doação de um espaço e de vários itens de uma escola que tinha fechado. Eles compraram e me deram. E eu toquei o trabalho. Há 21 anos criei a Associação Beneficente Santa Lúcia. Nesse tempo, passaram por aqui mais de 10 mil pessoas. Atualmente, a gente mantém 208 crianças e 554 famílias.

Não tinha ajuda de ninguém no início. Muitas vezes eu chorei. Algumas crianças traziam comida de casa; outras, não. A pior hora do dia era quando tinha que distribuir entre todos. Eu roubava escondido um biscoito daquele que tinha mais para dar a outro que não tinha nada.

 

 

Meu marido e minha filha trabalhavam, e o dinheiro que eles ganhavam era para comprar comida para as crianças daqui. Até hoje eu moro aqui dentro. Não tenho uma casa para morar. Só tenho uma cama pra dormir, não tenho um móvel. Minha vida é esse projeto. Quando meu marido se aposentou, fez uma doação de R$ 30 mil. Compramos uma van com esse dinheiro, e ela fica à disposição para levar as crianças para passear.

Antes de termos a parceria com o Mesa Brasil aqui no projeto, tudo aqui era mais difícil. Já tive que optar entre as contas a pagar e a comida das crianças. E eu sempre optei pela comida das crianças. As telhas estavam velhas, não tínhamos os banheiros infantis. As salas de aula não tinham porta nem cerâmica.

Depois que a gente passou a receber a ajuda da Reserva, através do Mesa Brasil, as doações passaram a ser usadas nessas melhorias. Antes, a gente não tinha condições de alimentar a todos. Dávamos duas refeições por dia, hoje são cinco. As crianças estudam até o sexto ano e têm todo tipo de atividade, como aula de música e capoeira. E aqui é como uma família. Quem pode, contribui.

A gente recebe alimentos do Mesa Brasil quinzenalmente, e faz de tudo para que não falte nada naquela quinzena. Se sobrar alguma coisa, a gente ainda distribui para famílias da região, sobretudo para aquelas que mais precisam. Mas a gente aqui recebe anjos. Já teve dia em que não tinha nada para amanhã. E me perguntavam: “Maria, o que vai ser amanhã?”. E eu dizia: “A Deus pertence”. E logo depois batia à porta uma doação. Pera, maçã, tinha gente que nunca tinha visto. E as crianças não queriam comer porque nem sabiam o que era.

Eu fico muito triste quando vejo pessoa desperdiçando alimento. A gente aproveita qualquer tipo de alimento aqui. O leite que a gente recebe vira queijo, faz manteiga, requeijão. Cada curso que eu faço, proporcionado pelo Mesa Brasil, orientando sobre o melhor uso dos alimentos, depois eu repasso para os pais.

Atualmente, contamos com a ajuda de 19 voluntários. Uma empresa doa produtos de limpeza, o Sesi doa um salário mínimo, que ajuda nas contas, e o resto são doações de pessoas. Tem médico voluntário, tem dentista. A vida que qualquer criança sonha em ter.

Hoje eu sou realizada. Com todos os problemas que tenho, me sinto realizada.”

 

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