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Nandão Sigal, sócio-fundador da Reserva, recorda os primórdios da marca com Rony Meisler

Por 2min
1 de Maio de 2020

A história guarda um lugar muito especial para grandes duplas que pisaram no planeta. São muitas, e é desnecessário enumerá-las. Basta lembrar de duplas de ataque no futebol, de músicos parceiros, ou até de bandidos e personagens de ficção, além de casais. No caso da Reserva, a dupla é Rony Meisler e Fernando Sigal, o popular Nandão, sócios-fundadores da marca. Eles encerraram a primeira etapa da nossa quarentena de lives contando bastidores da construção da companhia. E anunciaram que a festa continua, no projeto 40+, na TV Reserva.

Depois de quase 14 anos de sucesso, com mais de uma centena de lojas, mais de mil pontos comerciais, quase R$ 400 milhões de faturamento anual e mais de 1.500 colaboradores, é fácil imaginar que chegar a esses números foi apenas o resultado de uma espiral de acertos, culminando no certificado de empresa B.

– Para chegarmos onde estamos, a Reserva teve muitas derrotas. Mas derrotas que eram pequenas dentro da nossa expectativa do que seria a Reserva. O sonho de construir a marca era muito maior, então a dificuldade ficava muito pequena – lembrou Nandão, hoje diretor de Produto da marca. – Eu e Rony somos judeus, e o que fez nosso povo sobreviver até hoje é o otimismo. E é isso que temos que ter constantemente, e sempre pensar como podemos ser melhores.

Rony, a propósito, já era amigo dos tempos de escola – e, sim, eles já caíram muito na porrada. Os dois tiveram o estalo da criação da marca quando estavam numa academia e repararam que praticamente todos ali dentro usavam a mesma bermuda. Resolveram fazer eles mesmos uma diferente, e começaram vendendo para os amigos. Foi o começo da história.

No início, Nandão era responsável pelo trabalho de Compras e Tributação, enquanto Rony se ocupava do Marketing e Vendas (a foto que ilustra este post é do dia da inauguração da primeira loja, em Ipanema). Em sua cabeça, essas tarefas “que davam dor de cabeça” deveriam ficar com ele, “porque eu achava que se o Rony tivesse que lidar com isso, ele desistiria”. E, naquele estalo na academia, Nandão já sabia que estava prestes a tocar o negócio de sua vida, e não queria queimar a oportunidade.

 

Eu me lembro da gente escolhendo que contas íamos pagar. Ou rachávamos a conta de luz ou do telefone. E no Rio de Janeiro não tinha nem dúvida: era conta de luz, não tinha como sobreviver sem ar no escritório.

– Eu me lembro da gente escolhendo que contas íamos pagar. Ou rachávamos a conta de luz ou do telefone. E no Rio de Janeiro não tinha nem dúvida: era conta de luz, não tinha como sobreviver sem ar no escritório. Nossos pais pagavam os nossos celulares, então podíamos ter o telefone da empresa sem funcionar, mas nossos celulares estavam em dia, então ainda eram comunicáveis – disse.

Como experiência profissional, Nandão tinha apenas duas anteriores: trabalhava com um tio na loja Pé de Anjo, de sapatos para mulheres que calçam números altos, criada por sua avó; e, através deste mesmo tio, descolou uma representação de calça jeans, mais como remédio para a timidez do que por outra coisa. A ajuda financeira do tio também foi importante para o início da história da Reserva, mas até certo ponto.

 

história nandão rony

 

– Em certo momento eu estava precisando de dinheiro. Sou muito próximo de um rabino, e ele percebeu que eu estava muito preocupado, e me perguntou o que houve. Eu falei que estava precisando de dinheiro, e ele se ofereceu para pedir emprestado a alguém, se colocando como fiador. Eu agradeci mas recusei, porque não tinha ideia se conseguiria pagar de volta. Mas a oferta foi o abraço que eu precisava para sentir que alguém acreditava em mim e me deu força para termos continuidade – lembrou Nandão.

Em função desse episódio, anos depois Nandão juntou-se a um grupo para criar uma organização de empréstimos sem juros, que hoje já emprestou mais de R$ 5 milhões.

– Pra quem tá empreendendo, a planilha aceita tudo, né? De seis em seis meses eu achava que a gente ia ficar milionário, de acordo com uma planilha lá de vendas. Passávamos seis meses e estávamos rebolando pra conseguir manter o negócio – disse. – No começo era um sonho, não tirávamos remuneração pra gente, então eu vendi meu carro, entrei no cheque especial, os desafios não paravam. Era muito engraçado porque no início a gente se olhava e pensava: “como vamos sair disso?” Mas também sempre tivemos o lema de resolver um problema de cada vez, e depois vemos o próximo. E nisso conseguíamos várias vitórias, ir pra frente e prosperar.

Sobre o momento único que o mundo está vivendo, Nandão falou sobre como a Reserva está enfrentando a pandemia. No momento, com as lojas fechadas, o faturamento está entre 30 e 40% do habitual.

 

A primeira coisa é o modo sobrevivência. Você tem que entender qual sua capacidade nesse momento, o que posso pagar, o que não posso. Todo mundo vai se machucar, mas o pensamento é: o quão menos machucado eu vou conseguir sair disso

– A primeira coisa é o modo sobrevivência. Você tem que entender qual sua capacidade nesse momento, o que posso pagar, o que não posso. Todo mundo vai se machucar, mas o pensamento é: “o quão menos machucado eu vou conseguir sair disso e aproveitar pra conseguir me reinventar?” O mundo mudou independentemente de você querer ou não, e como eu vou ser depois disso? Como vou repensar meu negócio em cima disso? Como eu vou lidar com meu cliente depois disso?  E como meus produtos terão que ser remodelados pro novo mundo – avaliou.

Na área de Produto, que afinal é a alçada de Nandão, foi criada uma metodologia que se sustenta em três pilares: 1) ter humiladade para entender as necessidades para permitir a reinvenção; 2) hackear o sistema, reinventando-o; 3) empatia para entender a dor do cliente.

– Temos semanalmente conversas com o cliente, temos uma nuvem de todos os feedbacks que vêm da loja, e partir disso nós revemos nossos produtos – afirmou. –Nós falamos hoje em dia sobre bots mas não tem nada igual ao bot humano, você ligar pro seu cliente é as vezes é 10x melhor do que todos os nossos sistemas que cruzam os dados. Que nós consigamos conversar, que consigamos ser humanos. Essa crise nos ensina que nós achávamos que podíamos tudo, que as máquinas iam revolucionar o mundo. Mas quem vai revolucionar o mundo somos nós, e temos que ter isso dentro do coração – disse.

Ou seja: ainda vem muita história por aí.