Empreender

As pessoas em primeiro lugar

Eric Santos e Guilherme Junqueira defendem que a cultura corporativa atue como uma bússola na crise

Por 2min
27 de abril de 2020

inovação ou morte

 

Eric Santos e Guilherme Junqueira têm histórias de vida parecidas. Eric perdeu o pai aos 3 anos; Guilherme só conheceu o seu aos 14. Ambos têm mães funcionárias públicas. Os dois apostaram em estudo e trabalho como ferramentas para um futuro melhor. E desde cedo foram para o caminho do empreendedorismo. Hoje defendem que a cultura de cada empresa funcione como bússola na crise.

A primeira empresa de Eric, de 2004, já pensava em soluções de aplicativos e sites para celular (lembrando que o primeiro iPhone só foi lançado três anos depois). Hoje está à frente da RD (Resultados Digitais), focada em CRM. Depois de quatro rodadas de investimento e US$ 100 milhões levantados, conta com 700 funcionários e clientes em 25 países (o Brasil é o principal mercado, com 15 mil clientes).

Guilherme já quebrou uma empresa, mas isso não o impediu de tentar novamente. Fundou uma associação e agora está na Gama Academy, uma escola de tecnologia que trabalha a formação de profissionais que estão migrando para o trabalho digital ou desejam se especializar. Os dois reuniram-se na quarentena de lives da Reserva, onde analisaram o atual momento.

Segundo Eric, a RD foi uma das primeiras empresas de Florianópolis a fechar seu escritório, implementando o sistema de home office.

– Não foi uma decisão fácil de implementar, mas foi uma decisão fácil de ser tomada porque é a decisão mais óbvia. A prioridade número é a saúde de todos e de suas famílias. Nessa crise estamos fazendo um esforço extra para evitar demissões porque tem muitas empresas demitindo e nenhuma contratando – diz.

O CEO da Resultados Digitais alerta para uma possível ‘gourmetização’ ou uso indevido da palavra “humanização”, e que a crise atual vai testar que empresas de fato colocam as pessoas à frente dos negócios.

– Eu não acho que quando um empreendedor põe pessoas à frente ele tá sendo diferente ou altruísta. A longo prazo, quem não for realmente genuíno e quem não colocar as pessoas realmente no centro do processo vai ter muitas dificuldades, porque as coisas giram muito rápido. Mais do que nunca vamos precisar do time, das pessoas, pra sair disso. Eu me gratifico muito de ver as pessoas se desenvolvendo, crescendo. As empresas têm que entender que é o principal ativo, no momento de crise que somos testados

Guilherme vai na mesma linha, lembrando que o primeiro valor da Gama é “people first”, o que leva ao seguinte raciocínio: “se nosso primeiro valor é esse, então todos os cortes de custo têm que ser ‘people last’”.

– Um livro muito bom pra quem lidera é o “Radical Candor”, da Kim Scott. Em português, “empatia assertiva” – sugere, lembrando ainda que não se deve entrar na pressão social para que se aproveite cada instante da quarentena para 500 cursos online grátis, ou aulas de yoga às 5 da manhã.

Os dois concordam que, mesmo atuando à distância, é necessário que as empresas consigam manter sua cultura ativa. Ela vai servir de guia para enfrentar a crise do coronavírus.

– Nós estamos num processo de revisitar nosso culture code, porque as ideias que botamos quando tínhamos isso em mente, naturalmente elas vão dando uma diversificada, e trazer coisas que não estavam no culture code original. Um dos pontos da cultura são os rituais, que podem reforçar elementos da cultura. E o segundo ponto é como usamos a cultura pra tomar decisões agora, usar os valores como norte, bússola para a crise – diz Eric Santos.

Guilherme Junqueira recomenda, a propósito, o livro “Powerful”, de Patty McCord. A diretora de Recursos Humanos da Netflix – que revolucionou o tema RH – fala como criou a cultura da empresa, inspiração para muitas outras.