Empreender

Com as bênçãos de São Patrício

Negócio cervejeiro cresce 30% ao ano no Brasil e supera a marca de mil fábricas artesanais

Por 2min
17 de março de 2020

Neste dia 17 se comemora São Patrício, padroeiro da Irlanda. Em sua homenagem, a igreja católica local abria uma exceção durante a Quaresma, permitindo que se bebesse cerveja  – por isso a associação do santo à cultura cervejeira. Cultura essa que o Brasil vem importando aos poucos, com a criação de suas próprias bebidas artesanais.

– O mercado cervejeiro vem crescendo bastante nos últimos tempos, uma média de 30% ao ano. Só de 2017 para 2018 foram 210 novas fábricas, fechando 889 negócios em atuação no país. O levantamento de 2019 ainda não está finalizado, mas em junho o Brasil chegou à marca de mil – diz Carlo Lapoli, presidente da Abracerva (Associação Brasileira de Cerveja Artesanal). Na conta não estão incluídas as chamadas “cervejarias ciganas”, aquelas que se utilizam de maquinários de terceiros para produzir suas receitas.

Como a maioria dos negócios, uma cervejaria costuma nascer por causa do gosto (neste caso, literalmente) do empreendedor pelo tema. E tudo pode começar com um investimento de apenas R$ 1.500, o básico para a compra de equipamentos para fazer sua própria cervejinha, ainda sem escala comercial, mas para bebericar com os amigos. O passo seguinte já não é necessariamente tão divertido.

– Como em qualquer outro negócio, a primeira coisa é estudar o mercado a fundo e montar um bom plano de negócios. É importante entender que não há mágica, e é necessário considerar, além da qualidade do produto, a construção do branding – afirma o mestre cervejeiro Pedro Ribeiro, que participou da construção de diversos rótulos. – Cerveja artesanal não é mais novidade e já encontramos neste mercado um bom número de players. É importante também entender a distribuição dentro deste setor, que é representado por fábricas, cervejarias ciganas, lojas, pubs e agora, cada vez mais comum, os brewpubs, e suas relações com os diferentes públicos que poderão ser alcançados.

Se o negócio ficar realmente sério, os números passam a ganhar relevância também.

– Se for uma cervejaria que vai produzir só chope, por exemplo, com algo entre R$ 300 mil e R$ 500 mil você consegue montar uma fábrica com produção de aproximadamente 7 mil litros ao mês, o que é um valor bastante baixo – diz Carlo Lapoli. – Se ela for vender para algum bar ou restaurante, é praticamente inviável. Uma cervejaria maior, que já envolva envase (seja de lata ou garrafa), necessita de um investimento de, pelo menos, R$ 1 milhão.

 

 

Por ora, a Abracerva aponta que a grande concentração se dá no eixo Sul-Sudeste, mas as demais regiões também avançam, e tem se observado a interiorização das fábricas. Para Carlo Lapoli, uma forma de estar mais perto do consumidor final. Outra boa notícia é que, num país em que 48% das empresas fecham as portas até 3 anos após a abertura, no ramo cervejeiro a taxa de prosperidade é maior.

– Ainda não temos esse número. Mas olhando de maneira informal para os dados, percebemos que é bem menor do que esse índice de mortalidade. Mas cervejaria é um negócio como outro qualquer, não é algo infalível. Nós temos um setor extremamente concorrido, as maiores fabricantes de cervejas do mundo estão no Brasil (Ambev, Heineken e Petrópolis detêm quase 95% do mercado). Então é um segmento bastante competitivo e duro – ressalta Lapoli.

Para Pedro Ribeiro, a profissionalização do segmento tem permitido sonhar com uma fatia maior desse bolo:

– Aprendemos não apenas como produzir produtos de qualidade, mas também a posicionar e comunicar os produtos, e isso amplia o mercado.

No Brasil, as ofertas para capacitação do empreendedor cervejeiro são as mais fartas da América Latina. Em Blumenau (SC), há até mesmo a Escola Superior de Cerveja e Malte, com cursos de graduação e pós. Outras entidades por todo o país também disponibilizam especializações no setor.

– Quanto mais o mercado cresce, maior a necessidade de se especializar. O perfil do cervejeiro no Brasil é bastante escolarizado e isso diz muito sobre a qualidade da nossa cerveja – afirma Lapoli, que lembra a necessidade de se estudar as legislações municipais e estaduais antes de se decidir abrir uma cervejaria.

– O Rio de Janeiro fez agora uma lei facilitando a instalação de cervejarias na cidade. E o estado também tem uma lei que diminui um pouco a carga tributária estadual para as cervejarias artesanais – festeja. Salve, São Patrício!