Futuro do varejo

Como ser diferente no mercado

No quarto dia de festival, grandes nomes do mercado contam o que de fato faz as marcas se destacarem

Por 2min
29 de outubro de 2020

O publicitário Nizan Guanaes criou o termo “varejON”

O quarto dia do festival O que o futuro (do varejo) nos Reserva? trouxe o tema Diferenciação – O que é e como ser realmente diferente no mercado. E começou com uma masterclass do publicitário Nizan Guanaes, da Nidéias. Ninguém melhor para introduzir o tema. Mais uma vez, qualquer resumo ficaria prejudicado em razão da quantidade de frases geniais. Por isso preferimos fazer uma seleção delas, evitando assim edições:

Disney e Jobs

“Você tem que buscar na sua empresa a sua verdade, o que te diferencia do outro. Disney dizia que pegava o caminho do impossível porque o caminho do possível estava superengarrafado”.

Diferenciação é o tema do nosso mestre absoluto, Steve Jobs, cujo lema era “Think Different”. Não é à toa que só a marca dele vale hoje US$ 300 bilhões.”

Estratégia > Publicidade

“Vim da indústria da publicidade, e as pessoas buscavam se diferenciar com uma bala só, que é a publicidade. Hoje trabalho com estratégia, porque tem tantos meios de diferenciação, e você precisa saber qual caminho tomar. Funciona como o Waze. Importante é definir onde se quer chegar, para definir a estratégia. Os fundadores têm isso. Normalmente casos de sucesso têm por trás bons estrategistas. Quando falo de estratégia, falo de estratégia executada.”

Diferenciação precisa de coerência

“Diferenciação é uma cadeia de decisões. Com absoluta coerência. Você não pode dizer que seu preço é X e sua embalagem não combina com seu preço. Você não pode dizer que tem propósito e seu consumidor ver que isso é algo mal dublado. Estamos na era da coerência. Tudo tem que dizer e caminhar na mesma coisa.”

VarejON

“O varejo ganhou um novo N, somos empresas de varejON. Muitas vezes você vai ter que se matar com as próprias mãos para renascer, como budista. Eu já estou na minha quarta ou quinta vida. Não basta só aprender, é necessário desaprender. Você não vai perder a lógica, mas tem que estar ligado nas transformações, pra virar esse varejON. O novo normal é igual, só que diferente.

Eu era vendedor de loja, vendia roupa. Duas coisas que me ajudaram: ser locutor de rádio, que me trouxe conexão com o público, e a outra coisa é que eu vivia no balcão, no armarinho dos meus tios libaneses em Belmonte, no interior da Bahia. Eu ficava vendo eles venderem e aprendi a entender o consumidor. O grande vendedor não faz uma venda, faz um cliente.

E mesmo com o varejon, se você é vendedor, será em qualquer plataforma. Se você trancar um empreendedor no armário, ele vai fazer IPO com o cabide.”

Loja física é lúdica

“Uma coisa é você comprar papel higiênico e sabonete. E outra coisa é você comprar vinho, peixe e pão. Porque são coisas que têm uma experiência lúdica. Ver se o peixe tá fresco, escolher o vinho, ver se o pão está fresco. São dimensões diferentes. Claro que muitas compras serão feitas por mulheres online, mas tem a venda lúdica, de bater perna. Não podemos esquecer da natureza humana. Não brigue com a natureza humana. E é por isso que temos sido continuamente, ao longo dos séculos, incapazes de prever o futuro. Quando víamos os Jetsons, achávamos que as pessoas iam se alimentar com pílulas, mas se alimentam com orgânicos. Eu não gosto de comprar, mas adoro entrar em shopping. É um momento pra mim.  As duas coisas são importantes. A loja física cada vez mais terá o contexto de experiência. A marca mostrando seus valores, encantando. A loja vai virar um centro de propaganda e experiência. E de venda também. Mas a loja tem que ser instagramável, tem que ser online. Nós vamos vender online e ter lojas de conteúdo, isso está muito claro pra mim. Se existe uma indústria que inova e sempre sai na frente é a moda. Não vamos menosprezar as lojas físicas, elas só vão ganhar nova forma.”

Crise do Covid-19

“Quando abri minha agência em 1989, a DM9, fui na família Almeida Braga e eles investiram US$ 1 milhão. Abri a empresa em 19 de setembro. Quando chegou janeiro, o Collor levou toda minha grana. No primeiro dia, passei deitado num hotel em que morava. Depois de um dia inteiro, pensei que não deveria ficar chorando. Que tinha que liderar na crise. Quando o problema está instalado, é natural que você fique arrasado um dia, dois, três. Mas depois é melhor você enfrentar ele, ou ele vai te destruir.

Tenho lido muito sobre budismo, e lá se diz que você não pode evitar o problema, mas sim como reage a ele. Não pode ser com pânico nem com negação.

Tive Covid em 14 de março. Fui um dos primeiros. A primeira coisa que fiz foi parar de ver televisão. É aí que aparece a estratégia.

Na época do Collor, não tinha dinheiro. Então fiz uma coletiva no McDonald’s e dei lanche pros jornalistas.

Nessa crise, comecei a fazer live, três lives por dia. Numa crise você tem que liderar, com seus parceiros, com sua comunidade.”

Grandes fundadores

“Você tem que ser o fundador mas não pode ser o afundador. Não pode torcer contra o sucessor. Por outro lado, o sucessor não pode negar a essência, os valores. Este equilíbrio é fundamental.

Já trabalhei com 300 empresas, e posso dizer que existe um padrão: sei quando vai haver problemas por coisas bobas, por exemplo, excesso de reunião, excesso de diagnóstico. Ou quando só vejo cabelos brancos. Ou quando vejo ausência de cabelos brancos. Tem que ter esse equilíbrio dos tempos. Tem que ter o Jedi e o mestre Yoda. Não dá pra afrontar o futuro, nem a sabedoria, o passado, a essência. Você vê muito isso entre a Luiza e o Fred Trajano. Eles corporificam essa dinâmica. Muitas vezes as empresas familiares, mesmo as que estão em Bolsa, conseguem performar melhor porque têm alma.

Marca é que nem jornal, tem que ter editor-chefe. Tem que ter princípio.”

Ser verdadeiro

“A verdade não precisa ser ensaiada, só a mentira, porque a verdade se impõe. A mentira tem nexo demais, dá pra perceber.

Patagonia, Natura, Nike, Apple. Todas as marcas que amamos são intolerantes com aquilo que não é a cara delas. São verdadeiras.”

Praticar a escuta

“Tem muita cosia que eu falo hoje que não fiz no passado, foram erros. Às vezes faço palestras só sobre meus erros.

Estou aqui diante de vocês pra dar o que tenho de melhor, que são os meus erros: como eu não via as pessoas; como delegava o RH para o RH (isso não existe, o líder da tropa é que tem que tomar conta); Churchill foi o maior gesto de trincheiras na primeira guerra, ele fumava charutos com os soldados e cuidava até das botas. Foi quem teve menos baixas.

Geralmente o cara vira o gostosão e para de ouvir as pontas.

Uma vez peguei a conta do Itaú Seguros, quando a DM9 tava começando. No início, sempre gasto um tempo ouvindo a ponta. E uma corretora de seguros, que vendia seguros em empresas, me disse uma coisa impressionante: “Nizan, quando eu entro num escritório, sei exatamente quais são as mesas que eu tenho que me dedicar. Olho pra mesa e quando vejo que tem muito porta-retrato da família, vou lá. Vai ser ótimo pra vender seguro de vida”. Este é o mapa da mina.

 

Comunicar é ouvir. E eu sempre tive, sem modéstia, as melhores orelhas da propaganda brasileira.

Boa parte das minhas melhores ideias não eram minhas. Ouvi do SAC, do cara da rua, na mesa de bar. Se você usar essa mente, vai ouvir muitas soluções que as pessoas sopram no seu ouvido.

Quando comecei a ter cabelos brancos, resolvi pintar meus cabelos. De acaju. Perdi a mão completamente. E ninguém na minha empresa falou pra mim que meu cabelo não tava legal. Eu era o todo-poderoso. Foi meu filho pequeno, que na época tinha a língua presa, me disse: “Mas esse seu cabelo tá uma porcaria”. Você precisa ter alguém ou um mecanismo pra dizer que o cabelo não tá legal. As coisas podem ser óbvias, mas precisa de coragem pra se dizer. Como eu era um cretino num determinado momento, ouvia muito do consumidor, mas não dos colaboradores. E isso te deixa indefeso. São essas pessoas que vão te dizer o que você vai fazer. Todo mundo lembra do V da Vitória do Churcill, mas foi uma secretária que deu essa ideia pra ele.”

Capitalismo consciente

“A marca tem que ser estadista. Pode ser praquela esquina, pro bairro. Não importa o tamanho do estado.

A melhor maneira de pensar em si é pensar nos outros. Quer ser egoísta? Pense nos outros.”

 

Dambros: livraria física precisa de reinvenção

Diferencie-se no ‘como’, e não apenas no ‘quê’

O segundo talk do dia, que contou com a ajuda de Pedro Superti (Para o Alto e Avante) na mediação, reuniu Arthur Dambros, da Tag Livros e Rogerio Salume, da Wine. Dois ramos totalmente distintos, mas que se conectam em torno de clubes de assinaturas. Uma prova de que é possível se diferenciar também no “como fazer”, e não apenas no “o que fazer”, como resumiu Rony Meisler.

Atualmente, a Wine conta com 200 mil sócios, e é considerada o maior clube de assinaturas de vinhos do mundo, embora tenha nascido como e-commerce, em 2010.

– Como entregar uma experiência diferente? Resumindo em 3 palavras: Credibilidade, Confiança e Relevância. Nessa jornada de dez anos, aprendemos muita coisa. Quando você tem relacionamento, você deixa de ter clientes e passa a ter torcedores – disse Rogério.

Arthur Dambros lembrou de outras experiências semelhantes à da Tag em períodos pré-digitais, e procurou uma resposta para por que eles não existem mais:

– O Clube do Livro da década de 60 ou o Círculo do Livro dos anos 80 acabaram porque o problema que eles queriam resolver na ocasião era acesso a livro, e esse problema acabou. Começamos a construir os elementos dessa experiência, que é algo que o varejo não entrega. O livro surpresa vem daí. Foi difícil no início, mas os leitores viram que saem da zona de conforto literária e isso virou benefício. Se não gostar de um ou outro, faz parte. A gente se perguntou lá atrás, em 2014, quem iria recomendar os livros. Por que iriam querer livros recomendados por nós? Então a gente convidava grandes nomes da literatura, Mario Vargas Llosa, Luis Fernando Verissimo. Então isso dava uma curiosidade enorme nos leitores – avaliou.

De certa forma, por serem empresas focadas sobretudo no digital, tanto Wine como Tag sofreram menos durante a pandemia, e chegaram a crescer seus negócios no período. Porém, tanto Salume como Dambros ainda acreditam na experiência da loja física (a Wine inclusive passou a ter pontos físicos):

– Em 2004, minha cabeça era só e-commerce. E o varejo é um ser vivo em constantes mudanças por segundo. O que está acontecendo na China ou nos EUA vai chegar aqui, e vice-versa. Entendemos como poderíamos gerar uma experiência ainda melhor pro nosso cliente. Somos omnichannel agora. Não que eu estivesse errado antes, é que mudou. Quem decide comprar é o cliente, na hora que ele quer e no canal que ele quiser. Quero estar disponível no site, na loja, no aplicativo, na loja do parceiro, estar multidisponível pro cliente – disse o criador da Wine.

– A gente não trabalha com lojas físicas, mas este é um tema caro para o mercado editorial e livreiro. Tivemos recentemente as recuperações judiciais de Saraiva e Cultura, depois disso veio a pandemia. Me parece que o modelo de megastores não se sustenta mais pelo elevado custo físico, e a loja como canal de vendas tem perdido espaço. Corremos o risco de perdê-las, e elas devem voltar menores, com foco em relacionamento e curadoria, como aconteceu nos Estados Unidos. Tem que ver se a conta vai fechar. Eu não gostaria de perder as livrarias, que eu adoro, então torço para que se reinventem – disse Dambros.

 

Comunique diferente e colha resultados

A terceira roda de conversas do dia reuniu Dominique Oliver, da Amaro, e André Diamand, criador do modelo Sexy Canvas, e mais uma vez contou com a participação de Pedro Superti (Para o Alto e Avante).

O criador da Amaro contou que estava na Europa até a chegada da pandemia ao Brasil, o que freou a expansão da empresa de forma abrupta – como aconteceu com o varejo em geral. Apesar de ser uma empresa nativa digital (as 17 guide shops em 7 cidades vieram depois), a readaptação ao modelo totalmente online não foi imediata.

– Começamos a fazer cenários de planejamento, e a cada dia estávamos mais pessimistas. Mas começou a voltar muito rápido, com engajamento alto no conteúdo que produzíamos, menos comercial, voltado pra nossa comunidade – disse.

Uma das inovações trazidas pela marca, implantada em duas semanas da ideia à execução, foi o ponto alto em termos de comunicação:

– Enquanto todo mundo estava em casa, remoto, ainda com a demanda de produzir fotos, lookbook, toda a parte de mídia social era difícil, porque não dava para ir pro estúdio, fazer casting de modelos, tudo isso. Nossa equipe veio com a ideia de criar a Amara, uma modelo virtual que construímos. Pegamos várias mulheres e modelos antigas da nossa base pra construir uma modelo que funcionaria para nossas clientes. Sem ter que provar roupa, ir a estúdio, ter shooting. Funcionou por dois motivos: nossa equipe facilitou muito e mostrou que a crise traz esse DNA de achar uma solução, e nossas clientes acharam o máximo, acharam simpático e com atitude. O recado é: muitas vezes, as melhores comunicações, com mais relevância cultural, não são aquelas que você planeja com 9 meses, duas agências, focus group. E sim quando a equipe entende o zeitgeist. Isso nasceu em 2 semanas. Tem que aproveitar os momentos pra inovar – disse.

André Diamand citou Steve Jobs e Henry Ford, criadores que não esperaram o cliente dizer o que queriam; caso contrário, não teriam feito produtos tão disruptivos quanto o iPod (e mais tarde o iPhone) e o próprio carro. Em qualquer dos exemplos, diferenciação.

– Somos esquizofrênicos operacionais, temos um sujeito para a sociedade e aquela vozinha interna, que não falamos pra ninguém, da nossa criança interior. A gente tem que ser diferente do personagem do dia, sendo mais conectado a essa voz interna. A única coisa que importa numa loja, numa marca, na Amaro ou na Netflix, é uma emoção que acontece em menos de 1 segundo: você pensa na marca e vem uma imagem na cabeça. Essa energia eu chamo de Branding. Sendo o Sexy Canvas uma fábrica de Branding, eu analisaria da seguinte forma: construíram uma personagem fora da caixa, que vai criar pertencimento – como a Lu, da Magalu – porque as marcas têm que olhar pra essa energiazinha que elas geram. A Tesla gasta zero com marketing. Poderia falar como a Toyota: “Compre meu carro”. Mas eles falam: “Vamos salvar o planeta” – avaliou Diamand.

 

Físico ou digital? Emocional.

O quarto talk do dia foi praticamente uma reunião entre amigos. Além de Rony Meisler e Pedro Superti, mais uma vez no papel de mediador, estiveram Ricardo Dias, CEO da Ambev, Bruno Dias, criador da Churrascada, entre outras experiências, e José Felipe Carneiro, criador da cervejaria Wälls, hoje à frente da KHappy.

Para Ricardo, a lição que fica é de que a digitalização é inadiável para qualquer varejista.

– Tem que ser digitalização goela abaixo. Quanta loja não queria vender pelo WhatsApp antes da pandemia, e durante a pandemia aprendeu, criou canal novo, o consumidor gostou. Se alguém ainda não entendeu que tem que digitalizar, agora é a hora – disse.

No caso de Bruno – que trabalha com eventos – as lives patrocinadas pela Original (ele fez 60 nos primeiros meses) foram uma fórmula de sobrevivência. Três meses antes da reabertura do comércio, conseguiu condições favoráveis para alugar um espaço de 8 mil metros quadrados no Morumbi. Fez as adaptações necessárias e abriu no timing perfeito o restaurante da Churrascada em São Paulo.

– Nosso sonho era fazer o restaurante da Churrascada, que é um evento que já existe há cinco anos. A gente estava a fim de fazer um complexo de entretenimento, não só a carne. Sorveteria, açougue, área de pet, lojinha, enfim. E nesse momento onde muita gente tava sofrendo, fechando os negócios, como pagar aluguel, e nós vimos como oportunidade. Vários pontos estavam sendo passados. Quando abriu tava voltando a acontecer. E qualquer dono de restaurante quer que o início seja devagar, pra treinar a equipe. E tínhamos que abrir com 30% da capacidade no início, foi perfeito o timing – disse.

Para José Felipe, a discussão não deve ser apenas se as experiências são “físicas” ou “digitais”.

 

Temos que ser especialistas é no emocional, seja físico ou digital. Que seja de verdade.

– As pessoas não querem mais as coisas pasteurizadas. Isso vai ser o suporte da nossa vivência nos próximos anos – avaliou.

Ricardo disse que a velocidade também precisa ser outra, no lançamento dos produtos. Seguindo a lógica dos telefones celulares, que a cada temporada têm novas atualizações.

– Hoje em dia você não pode esperar seu produto está perfeito para ir ao mercado. Não quer dizer lançar produto com baixa qualidade. Sempre falo que você tem que falhar na velocidade da Ferrari pelo preço do Fusca – disse, acrescentando ainda que o futuro está na informação a partir dos dados colhidos do cliente, seja física ou digitalmente. – Esse futuro está baseado na intimidade, que você conquista com dados. Qualquer varejista tem que estar obcecado pelos dados dos seus consumidores. É isso que vai gerar o poder da marca.

Outra percepção compartilhada pro todos é de que o mundo pós-pandêmico vai valorizar empresas conectadas a propósitos claros.

– Com certeza o nível de consciência aumenta. As marcas têm que ter propósito, posicionamento, mostrar em que acreditam. Quem não se posiciona tá tomando pau. O cliente vai querer, sim, marcas que tenham afinidades com seus propósitos. E quem não tiver vai ficar pra trás – disse Bruno.

– Uma empresa grande, com um orçamento de bilhões em publicidade, muitas vezes paga esse dinheiro pra interromper as pessoas. Imagina se pagasse pra fazer do mundo um lugar melhor. Não tenho dúvidas de que cuidar do planeta, da sua rua, da sua casa, da sua comunidade – e de forma que não interrompa as pessoas, e sim agregue – teria mais retorno. Talvez não no curto prazo, mas são as marcas que vão ficar – avaliou Ricardo.

 

Lojas como ‘parques de diversões’ unem Zee Dog e Polishop

O quinto bate-papo do dia reuniu João Appolinário, fundador da Polishop e Thadeu Diz, criador da Zee Dog. A conversa contou ainda com a ajuda de José Vicente Bernardo, jornalista da Forbes, além de Rony Meisler, que definiu inovar como “ser curioso, questionador, rebelde”. Por sinal, características dos dois empreendedores do painel.

João Appolinário criou a Polishop em 1999, uma empresa que já nasceu digital. Apenas quatro anos depois ele abriu as primeiras lojas físicas – hoje são 300 em todos os estados do país, além do Distrito Federal. Mesmo com o background digital, a pandemia trouxe dificuldades num primeiro momento. A questão só foi superada em 40 dias de reinvenção.

– Tudo isso nos trouxe um aprendizado pro futuro: você precisa estar com sua estrutura preparada para qualquer momento. Mesmo sendo omnichannel, não estávamos adaptados a isso – disse.

A Polishop apoiou-se nos mesmos pilares anteriores à crise sanitária: produtos inovadores, exclusivos e de qualidade.

– De outro lado, atender a necessidades, benefícios. Produto todo mundo vendia. E o que eram os benefícios que as pessoas mais valorizam? Os outros 3 pilares que seguram nosso negócio: saúde, beleza e tempo. As pessoas estão cada vez mais preocupadas com qualidade de vida, mais vaidosas, no bom sentido, e com menos tempo. A tecnologia nos ajuda com muitas coisas mas também rouba muito nosso tempo. Então se você conseguir atender a essas dores, também são benefícios muito reconhecidos e valorizados pelo consumidor. Produto tem preço, benefício tem valor. E o consumidor cada vez menos quer comprar por comprar, mas que se atendam suas necessidades. É importante que as pessoas estejam felizes ao consumir – disse.

A Zee Dog, claro, também levou um susto com o fechamento repentino dos pontos físicos. Mas as pet shops – onde ele também vende seus produtos – foram tratados como essenciais, assim como farmácias e mercados, e não interromperam seu funcionamento.

– Também tivemos uma surpresa muito boa dos canais digitais. O animal é um pilar muito emocional pra quem tá em casa deprimido. As pessoas passaram a consumir mais, inclusive guias de passear, mesmo sem passear. Além de camas, brinquedos, entre outros produtos – disse. Simultaneamente, a marca lançou o ZeeNow, um aplicativo que já vinha sendo produzido há dois anos. Por coincidência, ficou pronto quando a pandemia estourou.

– Tem um desafio de se adaptar ao crescimento de demanda sem cair a qualidade de entrega e de atendimento. Esse sempre foi um pilar da Zee Dog.

Para Thadeu, diferenciação é “um layer muito além de vender produto”. Para ele, é necessário “pertencer a uma tribo”.

– Hoje todo mundo tem acesso às mesmas tecnologias, tem acesso a capital. Por que a Zee Dog é a Zee Dog? Porque não estou vendendo coleira e guia, mas pertencimento – avaliou.

João Appolinário observou que as lojas físicas também geram diferenciação se houver experiência.

– Questiono muito o futuro das lojas de varejo de autoatendimento. Se você não tiver ninguém pra te explicar, fico em casa e compro por outro canal.  Nós, o tempo todo, treinamos as pessoas não a vender, mas a demonstrar. Quero que as lojas da Polishop sejam um grande parque de diversões. Tem café, bolo, cadeira de massagem, cadeira de ginástica, a mulher faz o cabelo, é um lugar pra pessoa se sentir bem.

 

A jornada do consumidor Polishop, 80%, começou no digital. Vão às lojas para ter contato, apalpar o produto, e ver se o produto entrega aquele benefício.

– Principalmente pelo fato de trabalharmos com inovação, e isso às vezes gera dúvida – disse.

Thadeu também acredita na loja física como local de experiência, e anunciou para março de 2021 uma loja de 600m quadrados nos Jardins, em SP, em que 80% do espaço é destinado a experiências, e apenas 20% para vendas.

– É um templo, um parque de diversões para cachorros. Vai ter palestras, eventos, get togheter, e até nas áreas de venda foram projetadas para ser uma galeria de arte, que estará sempre mudando. Serão instalações do storytelling da marca. O varejo não está morrendo. O que vai morrer é o varejo velho, que só quer vender produto. Tem coisas que você nunca vai conseguir reproduzir online. Você não leva o cachorro pra passear no parque online.

 

Sem propósito não existe verdade, e ela é quem diferencia

Luis Justo, Rock in Rio

A camiseta que o Rony vestia hoje dizia: “Ser diferente é ser de verdade”. A frase tangenciou praticamente todas as conversas do dia, e talvez ainda mais especialmente no último talk da quinta-feira, com Luis Justo, CEO do Rock in Rio.

– Cada negócio tem seu propósito. Se não tiver, tá errado. E o seu processo de curadoria tem que ser fiel ao seu propósito. Ninguém vai comprar se nem você acredita no que faz. Qual o propósito do palco Mundo? Posso gostar pra caramba de Rush, mas a proposta de valor é Drake, que é número 1 do Spotify no mundo. Claro que intuição faz parte de qualquer negócio, mas sem confundir com gosto pessoal. Em moda, às vezes tem a roupa que você gosta e a roupa que vende. O nosso negócio, cada vez mais, é proporcionar experiências inesquecíveis a partir da música e do entretenimento. Não tem a palavra festival no nosso propósito. Os patrocinadores são praticamente sempre os mesmos porque estamos construindo juntos em torno desse propósito. O futuro nos reserva experiências cada vez mais inesquecíveis. Com música, games, na Lua. Vamos entregar coisas através de experiências inesquecíveis – disse.

Claro que, mesmo com todo propósito, a pandemia também causou impacto. Apesar de 2020 não ser ano de Rock in Rio, Lisboa receberia o festival (em Portugal ele acontece nos anos pares). O evento foi transferido para junho do ano que vem, três meses antes da edição carioca.

– A gente sempre falava do case da Lady Gaga como um grande problema. Ela cancelou o show três dias antes, mas isso é fichinha perto do que passou – brincou Luis Justo.

Olhando o copo (de Heineken) meio cheio, o CEO do festival conseguiu enxergar um “marketing a favor” o fato de, em setembro de 21, provavelmente já ser tempo de abraços, encontros e aglomeração. O próprio fato de o festival ser a cada dois anos, o que poderia prejudicar, num certo sentido, a memória da marca, é algo positivo:

– No nosso negócio, existe a história do FOMO – Fear of Missing Out –, e como a Copa do Mundo, que é a cada quatro anos, gera expectativa. Ser a cada dois anos faz parte da estratégia de marketing – disse.

Mais um aspecto positivo, na avalição de Justo, foi a desmistificação do trabalho à distância. Embora não acredite 100% em home office, por conta da entrega de cultura da empresa, agora os melhores cérebros do mundo podem trabalhar a seu serviço, onde quer que estejam. E por falar em “à distância”, e as lives?

– As lives da quarentena foram uma alternativa para movimentar o mercado. Como em qualquer indústria, coisa boa funciona bem em qualquer lugar e em qualquer plataforma. O sucesso não depende disso. Se todo mundo seguir fazendo live, vai ter uma hora que vai precisar diferenciar – disse.

Amanhã tem muito mais futuro.

Confira o que rolou no primeiro dia de festival, com o tema Propósito. 

E veja também os highlights do dia 2, com o tema Marketing Phygital.

No terceiro dia, o tema foi Omnicanalidade – a nova jornada do consumidor.