Futuro do varejo

O futuro já começou

Festival 'O que o futuro (do varejo) nos Reserva?' traz o tema Propósito no primeiro dia, em 5 painéis

Por 2min
26 de outubro de 2020

Alexandre Birman e Rony Meisler abriram o primeiro dia

Começou nesta segunda (26) o festival O que o futuro (do varejo) nos Reserva?, com o tema “Propósito – Como compreender e entregar um propósito verdadeiro”. Ao longo de todo o dia, uma série de debates e palestras em torno do assunto foram assistidas por milhares de pessoas, online e gratuitamente. Perdeu o que rolou? Preparamos aqui um resumo, pra te colocar na mesma página de quem pôde ver, e te convidamos para juntar-se a nós nesta terça-feira (27), quando o tema será Marketing Phygital – Inovação e integração entre os mundos on e offline” (a agenda completa com todos os participantes do dia está no fim deste e-mail).

Logo na abertura do dia, Rony Meisler, CEO da Reserva, recebeu Alexandre Birman, da Arezzo. A marca de moda masculina acaba de ser incorporada pela Arezzo & Co., depois de meses de conversas, iniciadas logo após o Dia das Mães, quando Reseva e Schutz – uma das marcas da Arezzo – realizaram um cross sell masculino/feminino, compartilhando suas bases de dados. E funcionou muito bem. Nasce agora a AR&Co.

Rony aproveitou para lançar o spoiler do primeiro produto fruto da parceria: vem aí, ainda no Natal, um tênis feminino, o primeiro da Reserva.

‘Um negócio é bom quando cria valor’

A primeira palestra do dia foi de Hugo Bethlem, presidente do Capitalismo Consciente Brasil.

O movimento Capitalismo Consciente nasceu em 2007. No Brasil, atualmente conta com 120 associados, para para ajudar a transformar o jeito de se fazer investimentos e negócios.

– Acreditamos que um negócio é bom quando cria valor. Os negócios conscientes devem ter um propósito maior, tratar a todos de forma equânime. Propósito é um norte, que ajuda a responder qual a dor da sociedade propomos curar. Quando misturamos isso a visão estratégica, e empresa vira imbatível no impacto social – avaliou Hugo Bethlem. – Não queremos ser a melhor organização do mundo, mas a melhor organização para o mundo. Negócios não são jogos de azar, onde se aposta, não são uma equação matemática, não são uma guerra em que se conquista o cliente e se derrota o concorrente. Negócios são uma das coisas mais humanas que podemos fazer – completou.

Hugo citou como exemplo grandes empresas como Nike, Whole Foods, O Boticário, Reserva, Magazine Luiza e Rei Coop como bons exemplos de empresas movidas por propósitos. Vestido com uma camiseta em que se lia “Não trago seu propósito em três lives”), Rony Meisler comentou: “Propósito não nasce, emerge”.

Segundo Hugo, o Covid-19, ao paralisar o mundo, trouxe também aprendizados. Em primeiro lugar, o que a crise reafirma nossas fraquezas, mas também nossas forças; em segundo, que no Brasil as mazelas ficaram escancaradas; em terceiro, a necessidade de ressignificar a relação iniciativa privada/governo; por fim, um agradecimento à sociedade, que com seus impostos permitiu ajudar a salvar as empresas e os mais pobres.

Natura lançou visão para 2030

Na sequência, um painel com João Paulo Ferreira, CEO da Natura, contou com a mediação da jornalista Beth Matias, do UOL.

João Paulo contou que o propósito do grupo serve para nortear as escolhas do modelo de negócios. E que, além do propósito – muito amplo, que pode ser executado por muitos anos –, há também as causas às quais se alinhar.

– A Natura lançou sua visão 2030, assumindo três causas: proteção à Amazônia e defesa climática; Human Kind and Human Rights, desenvolver as relações humanas de forma carinhosa e respeitando os direitos humanos (renda, educação e diversidade). Operamos uma rede com mais de 6 milhões de representantes ao redor do mundo, então podemos fazer a diferença; e a promoção da economia circular, usando o fato de que temos presença global e entramos em tantos lares. Em 2007, a Natura tornou-se carbono neutro, da extração ao pós-consumo.

 

Hoje a Natura já fala de não só compensar, mas produzir tecnologia para que nossos produtos sequestrem da atmosfera o carbono.

João Paulo lembrou de outras ações em que a Natura fez diferença, e que isso serve como informação e educação ao consumidor, que cada vez mais demandará este tipo de atitude.

– Estou muito otimista em relação ao que vai acontecer no mundo. Estamos vivendo um momento que desfraldou uma desigualdade gigantesca no mundo. A dificuldade de acesso ao bem estar, riqueza, informação, não poderia estar mais escancarada neste momento. É o que gera crises migratórias, desemprego, violência. É sistêmico. Todos os entes da sociedade vão ter que trabalhar nisso, não caberá só aos governos. Pela primeira vez a gente vê, em muito tempo, o fluxo econômico cobrando este tipo de ação. As empresas estão sendo medidos pelo impacto social, ambiental e de governança. Isso fará com que esses agentes mudem – previu.

 

A loja do Fashion Mall, de onde está sendo transmitido o festival, virou estúdio

O ‘Steve Jobs’ do varejo brasileiro e a regra do encantamento

O terceiro talk do dia reuniu Francine Lemos, do Sistema B Brasil, e José Galló, CEO da Renner – “o Steve Jobs do varejo brasileiro”, segundo Rony Meisler, por ter transformado a Renner: “entrou como consultor, com cinco lojas, e fez esse colosso que conhecemos hoje, como referência nas boas práticas de gestão e cuidados com as pessoas”.

Galló lembrou que já havia vivido outras crises – desde o sequestro das poupanças, pelo governo Collor às épocas de hiperinflação. Esta, de agora, agravada pela questão sanitária.

Para Rennó, “a parte boa da crise” mostrou que precisávamos de soluções diferentes.

– Solidariedade significa olhar pra fora da empresa, pros seus stakeholders, pra própria comunidade, seus clientes. Quantos clientes não estenderam prazos de pagamento e crédito? Sem dúvida nenhuma todos nós ficamos mais solidários. A sustentabilidade tem algo a ver com isso. Para entregar um mundo melhor a nossos filhos e netos, precisamos fazer algo concreto e ser mais humanos. Quando entramos nas lojas hoje, as pessoas te olham mais nos olhos. Significa que se deu um caráter de humanidade, solidariedade, que leva muito em direção a isso, de fazermos algo mais em termos de sustentabilidade.

O autor de “O Poder do Encantamento” –, Galló contou que o termo surgiu quando começou a trabalhar na Renner.

– A Renner estava numa situação complicada, mas conseguimos a virada em dois anos. Definimos as regras do jogo, nossos princípios e valores. Pensei que deveríamos dar mais do que o cliente quer, e surgiu o termo encantamento. Isso foi uma crença, não foi só uma palavra bonita, “encantamento”. Para isso, você precisa preparar todas as suas pessoas. Hoje a Renner tem 24 mil encantadores de clientes, porque nunca se sabe qual será o ponto de contato do consumidor com a empresa – disse. – Nosso propósito é encantar a todos, e isso será nossa realização. Não a nossa obrigação.

Desde então, ele passou a pedir que os funcionários escrevessem as histórias de encantamento realizadas nas lojas Renner. De 1996 para cá, foram 900 mil histórias escritas.

– Começamos a perceber que várias dessas histórias acabavam com o cliente voltando para deixar uma flor, uma caixa de bombom, uma fotografia. E aí a gente começou a se dar conta de que era o cliente que voltava para encantar. Um processo de retroalimentação que é a fórmula da felicidade profissional.

 

 

O alimento do futuro

O quarto painel com o tema “Propósito” reuniu empreendedores do setor alimentício – Marcos Leta, da Fazenda Futuro, e Mazé Lima, da Mazé Doces -, contando com a mediação de Erik Galardi, da Touch Branding.

Mazé, que era faxineira e começou a empreender por necessidade, hoje vende para todo o Brasil. Contando sua história, concluiu que, apesar dos desafios, tudo valeu a pena.

– A primeira vez que nosso doce saiu do estado [de Minas Gerais], a gente entendeu que era possível, sim, mesmo sem conservantes. É um desafio a logística no país, mas com o tempo você vai experimentando e encontrando. Desafios tem todos os dias, e não é simples, mas não é impossível – disse.

Marcos Leta, que também foi cofundador da DoBem – mais tarde comprada pela Ambev – lembrou que a Fazenda Futuro já nasceu com o aprendizado do empreendimento anterior.

– Então com a Fazenda Futuro a gente foi bem mais pragmático, sabendo qual o tamanho do mercado, como íamos atuar nos municípios. Mas um pensamento que a gente tenta implementar é ir percebendo um pouco das tensões que a sociedade está vivendo. A gente sabia que estavam falando sobre desmatamento, redução do consumo de carnes, aumento do número de pets em casa, então fomos mais pragmáticos ao apresentar para os supermercados – disse. – O propósito está tanto no DNA que é difícil de dar exemplos. A gente tenta desdobrar o propósito em todas as áreas da companhia. Como é que a gente vai mudar a maneira como o mundo come carne? Que tecnologias vamos desenvolver? Certos ingredientes não podem ser vendidos ou utilizados em vários lugares do mundo. Aí a gente vai tentando literalmente desdobrar o propósito em marketing, inovação, toda a cultura da empresa.

Para Mazé, a chegada da pandemia colidiu com os projetos de ampliação da fábrica, e as dificuldades iniciais geraram insegurança.

– Tive que tomar várias decisões rápidas, sem deixar que nublasse o nosso propósito. Com tudo fechado, vieram outras propostas pra gente. Isso significaria mudar a maneira de produzir, teria que ser de forma mais industrial. Mas não estava de acordo com o que eu sonho. Parece que isso vem pra te testar, o quanto você está firme na sua proposta. Não é o dinheiro que me faz acordar todas as manhãs. O que me move é fazer meus doces com amor e saber que os filhos das clientes podem comer o que os meus comem. Voltei pra cozinha, pro chão de fábrica, pra fazer novas receitas, melhorar. E pude perceber que aquele propósito do início estava dentro de mim.

A quarentena forçada também acelerou os planos de venda pela internet – um sonho que ela alimentava desde 2012, e que vinha sendo adiado.

– De alguma forma, levamos acalanto e doçura para as pessoas ou para quem elas queriam presentear. Doce alegra. Foi o que nos salvou nesse momento. A gente viu que é possível e esse canal está aberto, podemos atender o Brasil todo e até fora daqui.

‘Toda crise traz oportunidades, são presentes que cabe a você abrir ou não’

Encerrando as atividades do primeiro dia, a reunião foi com Guilheme Benchimol, da XP Inc, e Edu Lyra, da ONG Gerando Falcões.

Guilherme se disse confiante de que os atuais juros baixos serão de longo prazo, o que gera uma série de vantagens para o futuro.

–  Estamos na maior oportunidade de construir o Brasil do presente. São os empreendedores que vão assumir risco, ter acesso a capital, gerar emprego, inovação na sociedade. Óbvio que o governo é importante, mas quando você empodera o capital, os responsáveis somos nós mesmos – disse Benchimol. – Acho que a economia vai voltar muito rápido. As pessoas perceberam que a vida é muito frágil, a tendência é que as pessoas queiram aproveitar melhor a vida. Do ponto de vida de estrutura, todo mundo ficou mais conectado. O varejo aprendeu que depender só da loja física é frágil, isso obrigou todo mundo a se transformar rapidamente. É provável que tenhamos antecipado 5 anos a trajetória do antigo normal. O crédito será mais acessível, com clientes mais conectados e acima de tudo com empreendedores que fazem as coisas acontecer. É comum que em momentos assim a gente fique sem chão, mas o empreendedor se ajuda.

Para exemplificar essa ajuda, Benchimol fez uma comparação:

– Experimenta enguiçar o carro e pedir ajuda. Se você sentar no carro e abanar o braço, ninguém vai te ajudar. Mas se você começar a empurrar o carro, vai parar um monte de gente pra te ajudar.

Edu Lyra contou que, estando presente em quase 300 favelas de todo o país, acabou se transformando num radar de escuta.

– Fui fazer uma visita a uma favela e vi muita gente passando fome. Voltei pra casa e tomamos uma decisão de viver na totalidade nossos pontos de cultura. Colocamos uma campanha no ar, “Corona no paredão”, em que mobilizamos mais de R$ 25 milhões, e tivemos que evoluir nossa capacidade. Mobilizamos 30 mil doadores de muitos países e alimentamos meio milhão de pessoas. Muitas empresas nos ajudaram – disse.

Em seguida, uma nova etapa foi combater a exclusão digital, com mais de 10 mil jovens sendo educados à distância.

– Neste último período, o trabalho foi de microcrédito para nanoempreendedores saírem do pior momento.  Quando a sociedade está conectada com o terceiro setor, fazemos coisas em escala, de forma poderosa. Chegamos até antes do governo, na ponta.

 

Os problemas estão conectados. As soluções também. Se a gente resolve um problema de uma favela, resolvemos muitas coisas.

Edu Lyra anunciou um novo negócio a partir da ONG, para o próprio sustento da organização. Uma loja que contou com o investimento do próprio Guilherme e da XP. Nasce a partir de doações de roupas que não são mais usadas.

– A gente retira nas casas das pessoas em São Paulo, leva pro CD e vende na loja, e esse dinheiro é reinvestido. Em dois anos não vamos mais depender só de doações – previu Edu. – Isso é um pouco de como o empreendedor pode influenciar o terceiro setor. Você pode criar impacto através de negócios sociais.

Guilherme também falou sobre o futuro em home office. Para ele, a experiência pandêmica foi bem-sucedida e inspiradora.

– Numa empresa, é normal que 30% ganhem bem. E a pandemia obrigou a gente a aprender um pouco mais sobre isso. Vimos que as pessoas que ganham apenas OK tinham uma dura muito dura, moram longe, perdem duas ou três horas por dia no trânsito, viam pouco os filhos. Quando a gente começou a se perguntar como a gente ia voltar, pensamos: “mas por que voltar?”. Podemos construir uma empresa descentralizada, um meio do caminho entre o que era e o que está. A gente acredita que dá pra trabalhar mais em casa, morar melhor, longe do centro urbano, mais confortáveis e baratas, e ter mais qualidade de vida. Isso gera mais entrega, mais resultado, seu cliente vai ficar mais satisfeito. A presença física obviamente é importante, no onboarding, na cultura, na troca de melhores práticas, lançamento de projetos. Mas bater ponto não precisa ser naquele lugar. Minha experiência é de que a XP melhorou na crise, com 5 a 10% das pessoas indo ao escritório. Fui meia dúzia de vezes e estou mais produtivo do que antes. Toda crise traz oportunidades, são presentes que cabe a você abrir ou não. Isso te permite contratar as melhores pessoas do mundo, a partir de agora.

O próprio Edu falou de outro presente, o que recebeu de sua mãe:

– Nasci num barraco numa favela em Guarulhos. Meus pais não tinham grana pro berço, eu dormia numa banheirinha azul. Meu pai embarcou no mundo do crime, foi preso e eu cresci visitando meu pai no presídio, mas ouvindo minha mãe dizer: “não importa de onde você vem, mas pra onde você vai”. Ela me fez sonhar e isso fez toda a diferença na minha vida. Foi duro, sei que é uma história de exceção. Consegui entrar numa outra realidade, com a Gerando Falcões presente em todo o Brasil. Fica como uma prova, uma inspiração pro varejo. Correr atrás, sem sem importar com estatísticas.

Confira aqui o report do segundo dia de festival.