Limonada

Inovação ou morte

Gustavo Caetano, criador da Sambatech, lembra que novas ideias vão ter que surgir 'na marra' neste momento

Por Rony Meisler
7 de abril de 2020

A gente fala muito hoje da questão da tecnologia, do ecossistema de startups no Brasil, e a grande verdade é que o Gustavo Caetano literalmente fundou o  ecossistema de startups no Brasil. O Gus empreendeu um business que se chama SambaTech.
A Samba era a Netflix antes da Netflix surgir, era uma plataforma de streaming de vídeo que se especializou em empresas – em prestação de serviços para empresas – e ele foi o cara que fundou a Associação Brasileira de Startups, que hoje tem milhares de associadas. Ele participou comigo da quarentena de lives da Reserva na segunda-feira (6/4), e aqui está um resumo do que foi nossa conversa, recheada de lições de inovação.

 

A primeira pergunta então, Gus, não é uma pergunta…é um convite… Se apresenta! Conta sua história pra gente.

Eu nasci numa cidade chamada Araguari, e vim de uma família tradicional. Meu pai queria que eu fosse médico, mas acabei indo morar no Rio de Janeiro para fazer Marketing na ESPM. Trabalhei na empresa júnior da faculdade, depois virei presidente da empresa júnior. Meu pai falava pra eu procurar outro emprego, e acabei indo trabalhar numa empresa de plano de saúde.

Nessa época, em 2004, comprei um celular colorido e tentei baixar joguinho para celular. Mas não tinha joguinho pra eu baixar. E eu pensei: cara, se eu quero comprar alguma coisa e não tem ninguém vendendo, tá aí uma oportunidade de negócio. Vou ver quem faz isso fora do Brasil. Aí entrei no Google, achei uma empresa na Inglaterra, outra na França, comecei a mandar e mail pros caras falando que eu queria trazê-los aqui para América Latina.

A empresa da Inglaterra respondeu dizendo que se eu levasse um plano de negócio para eles, podia ser que eles entrassem no mercado comigo. Eu tinha 19 anos, peguei um avião e fui pra Londres, levei um plano de negócios para mostrar que o Brasil era um bom mercado, que tinha oportunidade. Consegui vender a ideia e eles assinaram um contrato dizendo que eu poderia representar o negócio deles aqui na América Latina.

Quando eu voltei pro Brasil, eu não tinha dinheiro pra começar, então meu pai me apresentou para um empresário de Florianópolis. Esse cara colocou US$ 100 mil na minha empresa. Em uma época que ninguém falava em investimento-anjo, não existia livro sobre isso, sobre captar dinheiro. Havia tido já um boom de startups, a primeira bolha, onde a maioria quebrou e eu consegui US$ 100 mil e montei a Samba Mobile aqui em Belo Horizonte e começamos a vender joguinho para as operadoras – com divisão de receita onde tudo o que elas vendiam, 50% era deles e 50% nosso.

E aí, num determinado momento, uma operadora virou pra gente dizendo que a partir daquele momento seria 70% pra eles e 30% pra nós. Foi aí que eu sentei com meu time pra reestruturamos nosso modelo de negócio, porque senão nosso negócio iria acabar. A gente vendia para 4 empresas grandes no Brasil, e as quatro esmagariam a gente.

Uma das coisas que vieram à nossa cabeça é que o consumo ia caminhar para vídeo: quanto mais banda de internet as pessoas tivessem, mas vídeo iriam consumir. Que é exatamente o que acontece hoje. Pensamos nisso em 2007, onde isso tudo não existia.

Chamamos um japonês de Barbacena pra programar pra gente. Nos inspiramos no Youtube. “Vamos criar um Youtube para vender pra quem não quer usar o Youtube?”

Esses eram as emissoras de televisão. Criamos esse “Youtube”, vendemos pra Globo, SBT, Band, Record. Os grandes canais de comunicação.

Conseguimos chegar na Band primeiro e criamos uma teoria lá na Samba que é a teoria dos pinos de boliche. Que é: ao invés de tentar atacar tudo de uma vez, ataca um pino – foca, resolve um único problema bem resolvido e depois esse pino te ajuda a resolver os demais pinos.

Desde o início desse problema todo, começamos a nos preocupar com o efeito dessa crise para as pequenas e médias empresas do brasil. O possível efeito dominó que uma crise, economicamente falando, gera nessas empresas. Ai eu e Gustavo resolvemos criar um movimento na internet – @volteporcima. Com o objetivo de dar exemplos rápidos e ágeis do que o pequeno e médio empreendedores podem fazer para sobreviver. Já nessa semana vamos lançar alguns produtos de tecnologia para dar suporte a essas empresas.

Diante de todos os desafios operacionais que estamos enfrentando nos últimos dias nos nossos negócios, a gente tem tentado entregar socialmente através do movimento. 

Falando em reinvenção, o que mudou na sua vida, não só no que você tem feito, mas no que você imagina que precisa fazer a partir de agora?

Interessante que tem produtos e serviços que vão bem quando o mundo vai bem e tem coisas que vão bem quando o mundo não vai bem. Por isso mesmo que tem que se criar portfólios etc, para momentos diferentes na economia.

Muitas revoluções se fazem em momentos de crise, então o que estamos vivendo nesse momento é bem essa frase do Mike Tyson: “Todo mundo tem um plano até tomar um soco na cara”. Ou seja, com essa pancada, muitas empresas tiveram que acelerar seu processo de transformação digital. Ninguém que está bem está pensando em revolucionar, são poucos que têm essa cabeça.

 

A inovação vai surgir agora na marra, não tem opcão. Ou a pizzaria do bairro começa a vender pelo Instagram e abrir um delivery, ou ela vai quebrar.

Para o lado da Samba estamos tendo que adiantar. Estamos vendo que a comunicação por vídeo está crescendo muito. A nossa plataforma também de treinamento à distância, de comunicação à distância, está com uma demanda agora gigantesca.

E nesse movimento de ceder informação à sociedade, no primeiro dia de quarentena cedemos 100% das nossas tecnologias para órgãos públicos.

Só fazendo uma propaganda e explicando melhor a Samba Tech: em um momento que precisamos, por exemplo, fazer treinamento de pessoas, mas por onde? Zoom. O Zoom não fica gravado, não fica ali para as pessoas acessarem depois.

Pra ficar fácil das pessoas entenderem, a Samba Tech funciona como uma Netflix da sua empresa. Imagina assim: todos os funcionários terão esse app e lá estavam todos os treinamentos, com testes, ao vivo, etc. 

Só pra complementar, nós temos uma plataforma voltada aos autônomos. Por exemplo, o cara que quer dar aula de yoga no online e offline. Você customiza a cara da plataforma, tem todo serviço de pagamento com cartão, identidade visual.

Uma plataforma de venda de infoprodutos. Você tem um infoproduto legal, você pode listar lá e vender. Mas voltando ao assunto, Gustavo, e a sua vida? Como você está tocando a sua vida que em um momento desse, de revolução no mundo, que para você, conforme falamos aqui, é oportunidade em tempestade perfeita. É o momento em que todo mundo precisa urgentemente de um produto como o seu.

Está uma loucura! E olha que interessante: a gente nunca trabalhou à distância, então depois que entramos nesse momento home office, começamos a trocar com a equipe e o retorno que temos é que a equipe está bem mais produtiva, mais focada.

Do nosso lado, hoje o problema é ter braço pra entregar tudo o que está surgindo de oportunidade. Estamos recebendo muitas demandas, por exemplo de hospitais querendo fazer treinamento de médico, o governo pedindo a plataforma para usar para a educação, etc.

O nosso grande desafio é conseguir entregar. Precisamos ser capazes de entregar em um tempo hábil para atender às necessidades, que agora não é mais em um mês, e sim uma semana, por exemplo. Esse tem sido nosso esforço.

Acredito que depois disso tudo nós vamos voltar somente em alguns momentos ao escritório. A mudança é que a grande parte do nosso trabalho vai acontecer mesmo fora dele.

 

inovação ou morte

 

Você se tornou uma referência no que diz respeito ao método de inovação. E não à toa lançou dois best sellers: “Pense Simples” e “Faca Simples”. 

Gustavo, o que é inovar? Qual a matéria-prima da evolução?  Quais são os três passos seguintes na tua opinião?

Acho que o primeiro passo da inovação é você ter um momento de inquietude. Alguma coisa tem que acontecer com você, que seja uma crise – conforme estamos falando aqui – onde você é obrigado a inovar.

Você pode se esforçar a ser inquieto, como nós somos né? O empreendedor está sempre procurando onde mudar.

 

O segundo passo é abrir a mente. O cara que é muito especialista em alguma coisa, fica meio bitolado. Você não consegue fazer diferente se só estiver inserido em um mundo e pensar igual.

Sempre buscar caminhos diferentes, aprender coisas diferentes, falar com pessoas diferentes, entender outras indústrias. Tem que criar repertório. Entender mundos diferentes.

Tento viajar de dois em dois anos para aprender sobre coisas fora do meu ramo.

Essas pessoas se diferenciam.

O terceiro passo é executar, testar.

Às vezes confundimos inovação com invenção. E não é. É a operação, o problema que a pessoa resolveu criando algum jeito de conduzir de melhor maneira. Exemplo: poupar tempo das pessoas, levar comodidade a elas.

Empresas que são inovadoras hoje em dia não são as que estão inventando coisas, e sim as que estão resolvendo atrito. É o caso da Nubank, facilitando a vida do usuário sem levar ele pro banco físico.

O iFood, por exemplo, faz o que todos restaurantes já faziam, de maneira mais fácil, onde você nao precisa falar com ninguém, por exemplo.

A Netflix segmenta tão bem o seu conteúdo que quando você entra na plataforma já tem indicações de conteúdo do estilo que você gostaria de explorar.

As empresas novas e menores ganham na agilidade. Identificam onde as grandes falham, para entrar e resolver esse problema. Não é para bater de frente, e sim resolver um problema em alguma carência.

Exemplo: Waze – serviço de GPS. Já existia enorme empresa de GPS mundial. A Waze chegou e dominou por quê?  Por sanar as informações de trânsito em tempo real. É aí que a inovação entra.

Fiz algumas anotações de resumo do meu mindset. O que você falou aqui foi o seguinte: a inovação na grande maioria dos casos é a percepção das coisas ao nosso redor do que uma questão cognitiva, vocacional. Em momentos como esse que estamos vivendo, as coisas ao nosso redor apresentam um monte de problemas que precisam de solução – fica aí o primeiro insight. O segundo é que os diferentes são aqueles que são de verdade, e não aqueles que imitam o que já está sendo feito. 

Um caso bem legal disso é de uma pizzaria em Camboriú que fui com minha família no início do ano, e que bomba pelo fato de os funcionários se vestirem de super-heróis.

A pizza é igual. O que faz o sucesso do lugar é a inovação. Nesse caso, a inovação é o ser diferente.

 Outro argumento de inovação do Gustavo: buscar conhecimento de dois em dois anos, fora da sua área de atuação. Sair do seu lugar pra ir buscar esse conhecimento. Não adianta você buscar conhecimento se você não tem capacidade de testar o que você quer implantar. Perde a vontade de tentar, de testar. Se não der certo, valeu o aprendizado. Outro mindset do Gustavo que acho fundamental é que no meio dessa maluquice que estamos, é ter um problema só pra resolver. Quando você tem um problema só pra resolver muito bem, comunicado para todo o seu time, isso é muito poderoso em termos de trabalho, entrega, produtividade, gestão. Elas sabem muito bem o que fazer.

Tenho dois pontos ainda que queria levantar. Vi uma pergunta aqui e queria dizer: sabe um jeito legal de pensar, de forçar a sua cabeça de um jeito inovador?

Pensa sempre em 10 vezes. O que é pensar em 10 vezes? É: eu consigo fazer o que eu faço hoje 10 vezes mais rápido? Dez vezes mais barato? Ou com 10 vezes mais valor pro meu cliente?

Por que 10 vezes é poderoso? Porque se eu falar assim: “Rony, você precisa realizar seu trabalho 1,5 vez mais rápido”. Você coloca equipe pra trabalhar um pouco mais, faz uma força-tarefa e consegue entregar. Agora, 10 vezes mais rápido, você não consegue.

A não ser que você coloque tecnologia nova ou processo novo. Com isso você consegue algo 10 vezes mais barato e mais rápido.

Assim você começa a entender que pra fazer isso 10 vezes mais rápido, vai precisar de artifícios, apps etc, e vai trazendo solução ao problema. Inovando na forma de como entregar aquilo.

Outro ponto que vejo onde as empresas grandes falham muito é que 5% da empresa está focada no que eu chamo de “Transform the core”. E o que é isso? É pensar: “como eu pego o core – o que eu faço todo dia e transformo isso em algo mais eficiente? Mais barato? Mais rápido? Corto custo?”

Qual o problema do Transform the Core? É que pode ser que você seja o cara mais eficiente do mundo em um mercado que não vai existir mais. Então você não pode ficar focado só em cortar custo. Então você tem que gastar 70% nisso e 20% no glow de core: “como eu pego o que eu faço hoje e amplio isso?”

Um professor meu falou para imaginar um macaquinho na floresta e imaginar que cada árvore é uma indústria. E dizia: não tente pular pra alguma árvore muito distante da que você já esteja. Então assim, você vai expandir o seu core, faz uma coisa perto do que você conhece. Reserva tem muito isso.

 

10% do tempo você deveria estar focado no novo. “O que é o novo? Como eu experimento? Como testo?” Pode ser que o novo seja o meu negócio daqui a 5 anos. Só que se eu não sair disso, pode ser que meu negócio acabe.

Coloquei mais dois argumentos aqui nos seus mindsets. São eles: lei das 10 vezes. De que maneira eu posso escalar o meu negócio 10 vezes mais rápido?

E o último é o Transform the core – você não se dar por satisfeito e ficar o tempo todo repensando seu negócio porque ele vai ficar caduco algum dia. Então 70% você foca nisso e 10% em coisas novas. 

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