Limonada

‘Não existe o impossível’

Guilherme Benchimol, da XP, estima que retomada começará de forma gradual a partir da segunda quinzena de maio

Por Rony Meisler
20 de abril de 2020

Guilherme Benchimol é um empreendedor brasileiro que, além de ter democratizado a Bolsa de Valores, será lembrado como o cara que mudou o mercado de capitais no Brasil – e a cena do empreendedorismo. É o cara mais simples e genial que conheço. Na minha opinião, a XP Investimentos, que ele criou, não é só um produto e um serviço financeiro. A XP é a maior fonte de informação e comunicação que nós temos no Brasil hoje. Guilherme esteve comigo na quarentena de lives da Reserva no domingo (19/4), e aqui vai um resumo do que foi a nossa conversa.

Em 2001, você vendeu seu carro para montar a XP. Em 2020, você faz um IPO de bilhões de reais abraçado à bandeira do Brasil, ao som do “Tema da vitória”. Se você pudesse resumir essa história, como você contaria isso?

Se deixar fico horas contando essa história. Resumindo, assim: chegar até lá era tido como quase impossível. E o que eu sempre digo internamente: não existe o impossível. Depende só de você e do quão obstinado você é.

Eu comecei a XP porque, aos 24 anos de idade, fui demitido. Eu trabalhava em uma corretora que não existe mais. Naquela época eu tinha conseguido convencer uma corretora gaúcha a comprar um sistema dessa corretora que eu trabalhava – eu fui mandadoembora na quinta-feira, essa corretora me convidou na sexta, e na segunda-feira eu estava morando em Porto Alegre, porque queria fugir do Rio.

Fiquei alguns meses nessa corretora. O mercado nessa época estava muito instável.

Foi um momento que achei que poderia ser mandado embora novamente, e decidi que gostaria de empreender, porque eu queria ter controle sobre minha vida.

Eu tinha R$ 10 mil no bolso e não tinha nada o que perder. E foi assim que comecei.

Aluguei uma salinha ainda em Porto Alegre. Tinha um sócio que era estagiário dessa corretora onde eu trabalhava. Fizemos uma operação 60%/40%.

Obviamente que você monta um plano de negócios imaginando que sua receita só vai crescer, e o que aconteceu é que depois de um ano eu estava duro de grana, tive que vender o carro e pensado: “fracassei mais uma vez”.

Nesse dia, consegui um empréstimo de R$ 5 mil com um amigo, e na semana seguinte comecei a fazer alguns encontros, em que ensinava as pessoas a como investir em ações na época. Vendia de porta em porta. A tacada final era ministrar um curso para ensinar sobre investimento de ações. Colocamos anúncio no jornal na quinta-feira, e no sábado apareceram 30 alunos pagando R$ 300 cada, que depois abriram conta.

Foi aí que entendemos a fórmula: Se você quisesse montar algo que pudesse mudar a forma como se investe no Brasil, a forma não é convencer a pessoa a investir com você. A fórmula é fazer alguém aprender com você. Então começamos a crescer.

E eu comecei a perceber que estava empreendendo. O empreendedor percebe que está acontecendo quando está entrando dinheiro no bolso, que aí ele percebe que o ciclo está fechando.

Quando você tá começando, você não pode ser bambu, você tem que ser capim. Você tem que se moldar a cada situação, conviver bem com erro, mudar de direção.

Eu só fui ter sócio 10 anos depois, um banco inglês que aportou R$ 100 milhões por 20% da empresa. Depois, um fundo americano, em 2012, e há 3 anos entrou o itaú como acionista minoritário.

 

 

A enorme parte das nossas conversas gira em torno de uma palavra que é a que nos une: nós temos negócios movidos por propósito. O propósito da XP é transformar o mercado de capitais pra melhorar a vida das pessoas. Conta um pouco do que a empresa faz.

No Brasil as pessoas investem nos grandes bancos brasileiros. Existem R$ 8,6 trilhões de liquidez investida no Brasil, e 90% desse dinheiro tá na mão de cinco bancos, temos um concentração em banco muito grande. Lá fora é o contrário daqui.

Nós, por sermos uma empresa independente, até temos fundos nossos, mas distribuímos tudo que o mercado financeiro oferece, e não cobramos nenhuma tarifa fixa, cobramos apenas o que é consumido.

Enquanto o gerente do banco é focado na meta do banco, nós somos focados na meta do cliente. A probabilidade de conseguirmos fazer com que o cliente consiga comprar o que ele almeja aumenta exponencialmente, a longo prazo isso gera mais retorno.

No Brasil tem mais um agravante: o juro médio é de mais ou menos 13,5% ao ano, então o brasileiro nunca teve que investir, ele era rentista. Ou comprava um título público do governo ou um CDB de um grande branco, no máximo uma ICI. Então era fácil investir, porque com 13% ao ano sobra muito retorno.

Os juros caem até o final do ano, acredito que chegue a 2% ao ano, então as pessoas precisam de verdade aprender a investir, as pessoas precisam ser educadas.

Vocês acabaram de lançar um curso, “A crise que ninguém esperava”. Sobre o que é o curso e por que as pessoas deveriam fazer?

Quando lançamos, a intenção era fazer as pessoas entenderem como elas vão navegar nesse novo ambiente, explicar o que o coronavírus impacta, o que os juros menores vão impactar e como você tem que se programar nesse novo ambiente.

Entrando um pouco mais na questão de propósito dá XP, a fome é um problema visceral no Brasil que vai aumentar exponencialmente nessa crise e eu fiquei superemocionado com o projeto “Juntos Transformamos”, que vocês lançaram. Eu queria que você falasse um pouco mais como as pessoas podem ajudar. 

Nós sabíamos que teria uma onda inicial que iria impactar a saúde, mas nós escolhemos abraçar a onda da fome porque ia deixar muita gente no meio do caminho. Doamos uma grana e montamos essa ação. Separamos três ONGs e mandávamos cestas básicas. Mas mandar cestas básicas é um desafio porque era muito dinheiro, então você tem que fazer uma logística brutal, quase de guerra.

Acabou não funcionando muito bem, então começamos a fazer uma curadoria nas comunidades, das pessoas que eram mais carentes. E então nós mandamos um voucher, e a pessoa tinha mais liberdade de comprar no seu microecossistema, com isso estamos impactando 100 mil famílias. São quase 500 mil pessoas ao todo.

Quem quiser se unir a nós é megabem-vindo, acessem o site juntostransformamos.com.br,  tem lá todas as ONGs, diariamente botamos o que está sendo feito.

Doamos R$ 30 milhões, acaba sendo um gota no oceano porque o buraco é bem mais embaixo. O que eu queria era que a solidariedade fosse descentralizada, o Brasil tem 26 estados, mais de 5 mil municípios. Quem não quiser se juntar à XP não tem problema, mas abraça uma causa na sociedade. Nós não conseguimos ver tudo, o governo não consegue, então se cada empresário, dona de casa, estudante, artista, junta um grupo de pessoas, faz uma vaquinha e escolhe uma causa importante na sociedade, se todo mundo entender isso, pouca gente vai ficar no caminho.

Mais do que nós doarmos é lembrar que o Brasil é um país afetuoso, mas não é um país solidário. Somos muito carinhosos mas as pessoas não doam, as pessoas não mexem no bolso.

Como você tá vendo a retomada? Em que prazo você enxerga um retomada viável, como você percebe que será essa evolução? 

Toda última crise é a pior, precisamos esperar essa crise passar pra entender a dimensão do que estamos passando, porque enquanto estamos nela nós não temos essa noção.

A freada na economia era necessária inicialmente, porque o sistema de saúde não tava pronto. Se você deixa a epidemia se espalhar, você vai ter escassez nos hospitais, mas ao mesmo tempo o Brasil é um país muito pobre. Uma medida que funciona na Alemanha, na Coreia, não funciona aqui porque temos 70 milhões de trabalhadores informais. Imagina essas pessoas sem ter o que comer em lockdown. Em algum momento, e rápido, nós vamos começar a encontrar medidas pelo meio do caminho entre a escolha economia x pessoas.

Aqui no Brasil eu acredito que na segunda quinzena de maio a gente já esteja voltando de forma conservadora. Acho que as formas de consumo vão mudar a curto prazo, mas acho que vai mudar muito menos coisa que as pessoas imaginam.

Estou otimista com alguns novos tratamentos, alguns remédios, eu acho bem possível que nas próximas semanas tenhamos remédio bem eficientes. A economia vai voltando, os shoppings talvez funcionem em dois turnos, mas o ser humano se adapta, se tem um novo desafio as pessoas se adaptam.

Recomendação de livros:

Endurance”, de Caroline Alexander;

Organizações exponenciais”, de Salim Ismail, Yuri Van Geest e Michael S. Malone.