Limonada

Por mais ‘camelos’

Em oposição ao conceito de unicórnios, Israel Salmen, do Méliuz, defende startups mais resilientes

Por 2min
22 de abril de 2020

De uma insatisfação com um programa de fidelidade nasceu o Méliuz. Passava-se a vida juntando pontos e nunca eram suficientes pra qualquer troca. Essa dor, claro, não era apenas de Israel Salmen, fundador da plataforma. “Meliuz” vem do latim e significa “melhor”. E, melhor que trocar pontos por nada é ganhar cashback a cada compra.

– A Méliuz recebe uma comissão e o usuário está recebendo um benefício claro, que é o dinheiro de volta. E esse dinheiro não é usado de volta para compra em lojas, o único destino do dinheiro é a conta bancária dele, é só fazer o resgate, sem custo algum – explicou Israel na quarentena de lives da Reserva, numa conversa comigo na terça-feira (21/4). Aqui vai um resumo da nossa conversa:

Quanto vocês já transacionaram até hoje?

Eu vou falar em volume de cashback, pra ficar mais fácil. Hoje eu atualizei esse valor, e nós estamos com R$ 154 milhões já devolvidos. Só em 2019 foram R$ 50 milhões. Hoje nós trabalhamos pegando nosso próprio dinheiro e reinvestindo, temos investidores mas vivemos com nosso próprio recurso, gera caixa e conseguimos ter lucros.

Unicórnios são empresas que atingem o valor de mercado de cerca de US$ 1 bilhão, e não lucro. Queimam muito dinheiro mensalmente pra atingir esse valor, continuam crescendo mas sem uma perspectiva de gerar lucro. É o caso da Uber. Especialistas ainda duvidam da capacidade da Uber de se tornar uma empresa lucrativa, até hoje ela queima muito caixa.

Temos também o WeWork. Eu acho unicórnio um desperdício intelectual, empreender no Brasil é muito difícil em diversos aspectos. O empreendedor brasileiro é um sobrevivente, quando você vê uma molecada genial, começando a empreender sem testar modelo, sem lucrar 1 centavo, isso vai gerando uma fartura de caixa, e tem muito faturamento, mas é deficitário.

É que nem um time de futebol que ganha todos os títulos mas tá falido, vai cair, não vai durar, e você cria uma cultura naquele time porque ele não sabe gerar venda com resultado.

Por outro lado você já tá muito alavancado, vai chegar um momento em que o capitalista de risco convida o fundador a sair do negócio, e esse cara não tá mais acostumado a trabalhar com pouco dinheiro, num ambiente mais hostil, e isso é uma cultura, pra você voltar atrás é fogo.

Eu vejo essa geração que vive pra ter um faturamento gigante sem um resultado concomitante, um desperdício intelectual, porque vamos deixar de formar brilhantes empreendedores pra formar uma criança mimada que vai pedir arrego pro pai pra pegar mesada todo mês pra pagar as contas. 

Eu caí no canto da sereia, de 2011 a 2015 a gente não tinha levantado dinheiro de fundo de investimento. O Méliuz tava gerando caixa, e nós começamos a achar que tínhamos que começar a levantar dinheiro. “Se a gente não levantar dinheiro a nossa empresa não vai se perpetuar”, nós realmente caímos nesse canto da sereia.

Um dos livros mais importantes que já li na vida: “O ego é seu inimigo”. O livro do momento é o “Antifrágil”, é a Bíblia dessa crise, eu não paro de falar isso. Tô lendo pela segunda vez nessa crise. A empresa antifrágil sai da crise mais forte, e ai chegamos no camelo. Me conta aí o que é a empresa camelo, Israel.

O camelo, diferentemente do unicórnio, é real e sobrevive em situações muito adversas. Consegue passar sede pra caramba, meses sem beber água, sem comer, resistência para correr por um longo período de tempo e não cansar. O camelo é resiliente. Ele apanha mas levanta. A startup camelo se preocupa mais que as outras com gerenciamento de custo, controle de custo.

Indicações:

Rony:

Hard things about hard things”, de Ben Horowitz.

Israel:

Organizações exponenciais”, de vários autores.

Na raça”, de Maria Luiza Filgueiras.

Fora da curva”, 1 e 2, de vários autores.

 

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