Limonada

Preparar pra decolar

Amure Pinho, da Associação Brasileira de Startups, prevê 'segundo semestre mais forte que a gente já teve'

Por Rony Meisler
8 de abril de 2020

Amure Pinho é um investidor anjo, que investe em startups no começo da jornada delas (em 10 anos, investiu em 27), e é presidente da Associação Brasileira de Startups. Ele cursou publicidade, mas empreendeu desde os 16 anos, quando se emancipou para criar sua primeira empresa. Teve restaurantes, agência, empresa de mídia indoor, entre outras – inclusive uma empresa de app mobile numa época em que ninguém fazia isso. Na terça-feira (7/4), foi a vez dele participar da nossa quarentena de lives. Aqui segue um resumo do que foi a nossa conversa:

Pelo ponto de vista do investidor, como você acha que vamos navegar nisso tudo? E sob o ponto de vista da startup?

O empreendedor que decide começar agora ele tem maior probabilidade de dar certo só pelo fato de tentar começar agora, no meio da bagunça. Ele tem que estar tão apaixonado, tão a fim de fazer, esse cara deve estar com o negócio muito à flor da pele então. Eu, como investidor anjo, estou investindo sim, principalmente em negócios que conseguiram achar uma diagonal diferente agora, negócios que pivotaram agora e também os que cresceram com a crise. Tem negócios que estão acima da média.

O empreendedor e as startups agora têm que, no caso do investidor, acolher a startup, olhar o portfólio e ver o que tá acontecendo. Essas primeiras quatro semanas foram de cuidados com as investidas, e a recomendação para startups e empreendedores é: “senta no caixa e segura, que você não vai se arrepender de tomar uma decisão assertiva e segura”. As startups precisam de tempo pra validar seus negócios, então se perder três, quatro meses de vida, isso pode ser muito prejudicial.

A segunda coisa é: “o que você pode fazer para reter esses clientes, para interagir, com eles, entender o que tão passando?” É hora da conversa, de dialogar com cliente, com o fornecedor. As startups já tinham uma característica de adaptabilidade muito forte, elas crescem em sanfona. Por serem muito digitais, em sua maioria, não sofreram tanto. Mas tem algumas que sofreram golpes na veia: setor de turismo, aviação, estão passando por situações complicadas, mas também elas vão sair na frente quando isso tudo passar.

O momento agora é de planejar semana a semana, não tem como planejar lá pra frente. Na minha visão de investidor, as coisas estão voltando ao normal, esta semana mesmo eu tenho uma reunião para analisarmos novos negócios de quatro startups e provavelmente vamos ser os primeiros a investir na crise.

O que você considera como possível horizonte de retomada? Como vai ser essa retomada pelo ponto de vista de empreendedorismo? 

Pelo ponto de vista de retomada, eu acho que existe um prazo econômico financeiro e de saúde que a gente vai ter que passar, que eu acho que vai mais umas quatro semanas. Num ponto de vista de infraestrutura, nós temos quatro semanas ainda de muita bagunça, e então vai começar a ter uma retomada, abertura comercial de relações interpessoais.

Mas eu acredito que mesmo após isso as pessoas vão estar com uma sensação lenta da segurança que vai progredindo, e isso que vai ser o nosso principal desafio: nós vamos ter uma readaptação ao nosso contexto social, eu não acho que vá ser um carnaval quando acabar, vamos ter uma retomada à medida que a confiança e a questão sanitária vá sendo resolvida. Porque muitas dessas pessoas ainda vão ter avós em casa, ainda vão dividir apartamento, vamos ter uma certa curva no início, mas não acho que perdemos o ano, não.

Acho que vamos ter o segundo semestre mais forte que a gente já teve no Brasil, sendo bem sincero. Porque existe uma demanda muito reprimida de serviços que vão ser reaquecidos nesse retorno. Alguns vão sofrer porradas e fechamento, esse é o final de toda crise, muitas empresas fecham. Porém os que sobrevivem estilingaram, novos negócios que aproveitaram a mudança cultural, se adaptaram às mudanças, performaram ridiculamente bem e a humanidade pegou um legado daquilo.

 

 

 

Depois da gripe espanhola existiu uma nova preocupação sanitária de esgoto, máscaras. Na crise financeira de 2008 surgiram vários mecanismos anti-quebra de bolsa, anti-quebra de banco. Nós também vamos ter esse legado, acredito que grande parte sanitário, e parte de empresas indo pro digital e tentando ser anti-frágeis. Tem muita gente pensando em poupar mais, investir mais, os negócios vão se digitalizar mais. Mas talvez o principal seja entender que estávamos usando o mundo de uma forma egoísta demais e agora voltamos com a sensação de: “eu fui egoísta e fui afetado, será que não deveríamos voltar com uma construção ganha-ganha pra todo mundo?”

No mundo depois do coronavírus, quais você acha que vão ser os mercados mais hot, o que você tá de olho em investimento?

Logística. Pra mim ficou evidente que criamos um layer de logística paralelo com esses sistemas que pedimos tudo em casa, tudo que é relacionado com pedir em casa, que não seja eu mesmo entregar ou os correios tradicionais, eu estou olhando.

Tô acompanhando muito de perto uma startup que faz automatização completa de venda por whatsapp, você entra no whatsapp do negócio, faz o pedido 100% automatizado e, no final, ele pergunta a forma de pagamento. O restaurante com seu próprio canal, é o que eu acredito como solução pros donos de restaurantes etc, principalmente agora com a taxa de 27% do iFood.

A área de ensino à distância, tudo à distância na verdade, eu tô acompanhando uma startup de congressos online, 300 pessoas online, multiplanos, ferramenta de perguntas, certificado… Já estava crescendo, mas agora está crescendo mais ainda. Eu não tenho nenhuma startup na área de saúde, estou procurando, mas acredito muito na área de planos de saúde. As pessoas vão procurar alternativas para não depender do sistema público de saúde.

Acredito também em tudo que for bem-estar, saúde, porque as pessoas aumentaram seu senso de saúde, elas querem estar bem.

Tudo que estamos vendo de remoto – logística, casa, saúde, bem-estar, emocional –, vai ficar mais quente agora. Continuo olhando para todos os outros porque acredito muito na recuperação do mercado, mas se pensarmos o que o mundo precisa daqui a 10, 15 anos, o que tem que ser mais ágil, mais independente, se uma startup olha para um problema que vai estar no mundo daqui a 10, 15 anos, é ela que eu tô olhando agora.

Perfis indicados

@raydalio

@brunonardon

@garyvee

@billgates 

Livros indicados

Antifrágil, de Nassim Nicholas Taleb

The hard things about hard things, de Ben Horowitz

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