Limonada

Propósito é a chave

Rony Meisler, CEO da Reserva, e Caito Maia, da Chilli Beans, falam sobre como o varejo reagiu à pandemia

Por Rony Meisler
30 de junho de 2020

Na última semana estive com o Caito Maia – fundador da Chilli Beans – numa live promovida pela TV Reserva. Em foco, “Como os maiores players do mercado varejista agiram com as lojas fechadas”. Confira um resumo de como foi nosso papo.

Nós estamos no modo sobrevivência, mas também estamos no modo reinvenção. O que muda na jornada do consumidor que pode ser uma solução? Quem tiver com esse pensamento agora, não tenho a menor dúvida de que vai estar muito bem daqui a uns meses.

Eu tenho falado pras pessoas, agora é o momento perfeito pra lançar uma marca sem mostrar produto, sem vender nada. Venha com propósito. O propósito tem se comunicado com esse consumidor que tá mais sensível agora, se você pegar na veia desse consumidor agora, ele não e esquece nunca mais. Lá na frente você pode oferecer o que quiser que ele vai comprar.

Na história da Chilli Beans, a gente queimou o filme várias vezes, e eu tenho orgulho disso.

Uma vez, na Marginal Pinheiros, nós botamos diversos olhos de bichos gigantes que tínhamos fotografado, e uma frase linda embaixo.

Botamos 8 olhos de bichos acesos, só não tinha produto. Meus amigos falavam que voltavam loucos da balada e ficavam vendo aquele olhos olhando pra eles.

As pessoas não sabiam o que era Chilli Beans, quando ela ia no shopping reconhecia o olho.

Agora você tem a oportunidade de lançar uma marca tão forte se você tiver propósito.

Nossa maior limonada foi o programa de notáveis: nós temos 18 sócios, e todo ano sobe mais sócio. São pessoas que são formadas dentro da Reserva, isso na pandemia é emocionante, porque tem gente que tem capital da empresa mas não é dono, eu tenho um grupo de sócios que é muito comovente 

É isso, tá aí, por mais que tenhamos marcas fortes, o que faz a diferença é a paixão das pessoas que trabalham com a gente. Eles torcem pela empresa que eles fazem. Eu só estou onde eu tô pelo time que eu tenho. A molecada contribui, se posiciona, briga, eles olham no meu olho e falam: “Você tá falando bosta pra caralho”.

Quem sou eu pra cagar regra, mas as pessoas têm que ficar mais atentas às pessoas, as empresas que estão performando são empresas que têm uma relação de ser humano diferenciadas.

Crachá já era há muito tempo, dá voz pra esse cara falar e você vai ver o quanto de coisa boa ele tem pra falar. Ainda mais essa geração nova, que é o seguinte: não é grana, se você não respeitar e não der a palavra, vira as costas e vai pra outra empresa, e valeu, obrigado.

Gente, uma vez esse cara me levou pra conhecer a sede, em Alphaville, me mostrou a sede inteira. Mas teve um lugar que ele me levou que eu até hoje falo pra todo mundo.

Esse cara é tão adorado que toda loja que ele vai ele ganha um presente, só que ele ganha esse presente há anos e esse cara guarda tudo dentro de uma sala, é uma quantidade de amor, ele abriu a porta eu falei: “mano, que isso”, a energia sai.

É um amor que não tem como agradecer, é maravilhoso.

Olha, nós temos 26 trans trabalhando na rede, né? E eu não estou aqui defendendo a bandeira gay, eu tô defendendo o respeito ao ser humano, eu sou meio daltônico desde criança, e pra mim não faz diferença se o cara é negro ou japonês.

A gente já tá nessa há 23 anos, e você imagina, 23 anos atrás não era contratado nem tatuado.

Não precisa nem de 23 anos, não. Há 13, quando começamos, eu escutei muito “você vai contratar essa pessoa?”. Já escutei muito mesmo.

Quando você dá oportunidade pra essa galera, você ouve cada história de pessoas que foram expulsas de casa e conquistaram tudo por causa da oportunidade que você deu, e hoje os pais admiram a pessoa por tudo que ela conquistou com a oportunidade que você deu.

 

 

O propósito é justamente isso, quando você consegue compreender naquele negócio, muito mais do que um negócio, como uma ferramenta de elevação de autoestima, pertencimento, família, fraternidade, a entrega por consequência vai ser muito maior, propósito no final do dia é isso.

O que eu queria falar pras pessoas que estão aqui é que isso tudo só é possível se tivermos verdade no coração, não adianta fazer a homenagem mais linda ao seu funcionário se você não tá com o coração e dá um abraço no cara, tem um monte de gente que faz isso e não dá nem um abraço no cara. Eu lembro de situações que arrepiaram o fio do cabelo, e é isso que faz a diferença, porque se a gente não sente verdade no abraço, toda aquela homenagem do caralho vai por água abaixo.

Que desafios você enfrentou para manter o negócio durante a pandemia? 

Bom, eu vou fazer um resumo do que aconteceu: em uma semana eu tive três coisas. Cancelei o navio, são R$ 8 milhões em investimento, pra mim foi um dos dias mais tristes da minha vida. Não em recuperei até hoje, porque isso faz minha energia pra fazer o ano; depois o dólar explodiu, eu sou dolarizado total, agora consegui me recuperar, mas inviabilizou a lucratividade da empresa; e, terceiro: todas as lojas fechadas, e não vou mentir, eu pensei que ia perder tudo que eu construí, fiquei mal, eu tenho Sindrome do Pânico, isso voltou pra caralho, foi foda. Mas durante as minhas meditações, que faço duas vezes por dia, me veio uma luz muito especial, que é: se as autoridades não estão te dando datas pra você se planejar, crie suas datas. E foi o que eu fiz, em cima da minha data de volta, eu levei meu time inteiro, meus franqueados inteiros, meus 6 mil vendedores, e eu pus uma data e comecei a movimentar essas pessoas que estavam num marasmo desesperado, e então eu comecei a fazer planos, e o que que eu fiz? Primeiro eu salvei a Chilli Beans financeiramente, e depois eu fiz todo o benefício dos meus franqueados e dei folego a esses caras. Depois cuidei do meu time e botei a criatividade pra funcionar.

Coisas que funcionaram bem e coisas que não funcionaram: meu site, o que eu ia fazer em quatro meses eu fiz em 15 dias. Eu fiz um puta foco absurdo no meu site, então hoje você experimenta o óculos virtual, digital, daqui a 15 dias já vou mandar a lente de grau pra você, na sua casa. Vamos lançar um site novo, e todo o produto que você escolher tem um filminho do produto, contando a história. Site bombou.

Então comecei a exercitar meus canais, começamos a fazer live toda quinta-feira em lojas do Brasil inteiro. Isso não funcionou, não deu resultado.

Os drives thru: Essa relação com o consumidor não aconteceu.

Coisas que funcionaram: eu fiz um sominha básica, e se temos 6 mil vendedores e eles têm 200, 250, clientes no seu whatsapp, então temos 1.200.000, mais meu CRM, dá 5 milhões de pessoas. Eu comecei a dar pras lojas, fechadas ou abertas, 75 clientes que o vendedor tem que ligar, e são clientes Chilli Beans que fazem sentido com a marca, eu não tô incomodando, porque são clientes da marca. Não tô ligando pra uma pessoa aleatória com um produto nada a ver, esse é um segredo pra dar certo.

Há uns 10 anos, eu fui crucificado pela minha agência, que eu liberei pra cada loja, franquia, ter sua própria rede social, Instagram, Facebook.  mas o fato é que hoje temos 900 redes sociais e, somadas, 2 milhões de pessoas. O que faz diferença é que é mineiro falando com mineiro, isso faz uma puta diferença, e começamos a colocar força nisso, dinheiro nisso, empurramos a mídia social, pelo franqueado.

A última coisa que está funcionando bem são os aplicativos. Nós criamos 900 aplicativos para cada franqueado, ele colocaram os estoques deles, então cada vendedor franqueado tá ganhando dinheiro agora, porque ele está vendendo o estoque dele. Mesmo o cara com a loja baixa eu já estou com estoque lá embaixo.

E agora a maior surpresa que foi a ideia old school que tivemos.

Eu peguei 12 funcionários da Chilli Beans que se voluntariaram. Se chama Telechilli, a venda é lá em cima.

Eu vou te falar uma coisa pré pandemia.

O Gustavo Caetano, que é nosso amigo, falou: “Rony, como você conseguiu em 10 anos colocar uma marca de moda masculina no mercado que ganhou reconhecimento de marca nacional?” Eu respondi pra ele o que eu sempre respondia: Branding, Design e tal, mas saí daquela resposta com a pulga atrás da orelha. A gente fez alguma outra coisa, nós criamos um produto que se chama Now, é um CRM que foi montado pra ligação. Então quando um vendedor associava um CPF a uma venda, o sistema faz uma conta 7 dias pra frente, e lembra de ligar pro cliente e perguntar: “e aí, tudo bem? Deu certo o presente, gostou?” 

Pré-covid nós fazíamos em média, por mês na rede de lojas, 40 mil ligações. 

Não tem jeito, o comércio vai se recuperando gradualmente, o time de vendas vai estar muito ocioso, não vai ser o mesmo fluxo de antes. 

A gente tem que saber que isso vai acontecer e estar preparado pra isso.