Limonada

Sejamos Netflix

É necessário acionar o modo reinvenção para não morrer, como aconteceu com a Blockbuster

Por Rony Meisler
28 de abril de 2020

Já escrevi aqui minhas opiniões pessoais e até filosóficas sobre o coronavírus, e recebi centenas de mensagens das pessoas pedindo pra eu falar sobre como é que estou vendo os negócios nesse ambiente de mundo.

Em primeiro lugar, é importante dizer que uma coisa tem tudo a ver com a outra. Por conta do vírus vai haver um mundo antes e um mundo depois. Porque quando acontece uma coisa assim, isso influencia totalmente no comportamento humano, e os negócios têm tudo a ver com o comportamento de consumo das pessoas.

A respeito de negócios, a primeira coisa que eles têm que fazer é entrar no modo sobrevivência. Organizar o caixa, proteger as suas pessoas, não demitir ninguém e prover a manutenção da renda, de emprego. Negociar com todos, com os fornecedores, diminuir os custos, cancelar algumas despesas etc.

Mas não adianta nada a empresa entrar no modo sobrevivência se não entrar no modo reinvenção.

A história mostra que, quando os tempos mudam, se as empresas não mudam junto, elas infelizmente não sobrevivem.

Na história dos negócios infelizmente não é a primeira vez que acontece uma coisa nova que acaba repercutindo no fim de milhões de negócios.

Eu posso citar alguns exemplos: as duas grandes guerras, o 11 de setembro, a invenção do carro, da penicilina, o iPod, o streaming, a câmera digital etc.

Se a gente perguntar para dez pessoas por que a Blockbuster morreu, talvez nove, ou até dez, vão responder que ela morreu por causa da Netflix. Mas isso não é uma resposta razoável, ela é uma resposta rasa e até um pouco vitimista.

A Blockbuster morreu porque ela se encontrava em uma zona de conforto e se negou a compreender que o mundo havia mudado. A internet estava provendo maior velocidade, as pessoas estavam dispostas a consumirem conteúdo de uma maneira diferente. Inclusive, a Blockbuster se negou a comprar a Netflix por várias vezes, porque dizia não acreditar naquele modelo de negócios. Ela morreu porque ela se negou a se adaptar aos novos tempos.

No meu mundo, o varejo de vestuário, com certeza vai haver um mundo antes e um mundo depois do coronavírus. Eu vou citar aqui dois exemplos de transformação desse mundo: o primeiro exemplo é que já estava havendo uma transformação digital grande no meu mercado.

O covid acelerou enormemente essa evolução. A jornada de consumo, um tempo atrás, era da seguinte forma: eu via esse produto no jornal, na televisão, e ia na loja comprar. Eram somente dois touchpoints.

Isso estava mudando para: “eu vi um monte de amigo meu falando no Instagram, ou qualquer outra mídia social, fui buscar aquela marca ou produto no Google, e eu achei a página, entrei, comentei, li os comentários etc. Eu decidi experimentar, fui na loja experimentar e decidi comprar o produto”.

Ou seja, de dois touchpoints, passou a ter milhões de touchpoints. Inúmeros celulares, pontos de venda, próprios, franquias, multimarcas, e a visão de estoque tendo que ser uma só.

Isso está acelerando muito a jornada de consumo para outra jornada de consumo. E as marcas dos novos tempos, as marcas pós-covid, têm que se preocupar em se fazer presente em cada uma dessas etapas da nova jornada de consumo.

Nesse sentido, aqui no grupo Reserva, falamos que subimos na árvore antes do tsunami. A nossa missão sempre foi usar a moda e a tecnologia para melhorar a vida das pessoas, então todo o desenvolvimento de sistema, um legado de marca, que nesse momento foi muito bem usado para acompanhar essa jornada.

 

 

Por exemplo, temos um software de relacionamento remoto com os consumidores, que permite hoje que 500 vendedores trabalhem remotamente de casa entregando uma experiência de venda altíssimo aos consumidores de maneira 100% remota. Digitalidade é diferente de virtualidade.

Criamos também um programa que se chama Somos Todos Vendedores, que distribui cupons para os nossos mais de 1.200 funcionários. Ou seja, estão todos eles vendendo hoje na internet.

Além disso, fizemos uma parceria estratégica, com uma empresa de tecnologia chamada Loja Integrada, que digitalizou, criou uma loja na internet gratuitamente, para cada franqueado nosso. Além disso, criamos uma escola de Marketing Digital. Para que não só tivessem a ferramenta, mas também que aprendessem a usá-la.

Segundo exemplo de como o corona muda o meu negócio: após esse periodo de quarentena, certamente a maior parte de nós vai sair muito mais sensível, muito mais humano, até o mais racional e frio está sensibilizado com essa situação.

Estamos percebendo questões do mundo que antes não percebíamos: questões ambientais, de desigualdade social etc.

Com certeza as decisões de consumo vão ser muito mais conscientes após o corona. As pessoas vão pensar se aquela marca ou negócio, as quais elas estão consumindo, estão fazendo bem ou fazendo mal para o planeta que vivemos.

Nesse sentido também acho que subimos na árvore antes do tsunami. O grupo de marcas da Reserva sempre foi um grupo que se preocupou com a questão da sustentabilidade sócio-ambiental.  Somos inclusive uma Empresa B. Somos o único grupo de moda na América Latina a ter a certificação B – que garante os mais altos níveis de padrão no que diz respeito à sustentabilidade sócio-ambiental de uma marca.  Isso dá tranquilidade aos consumidores consumirem de nós.

Além do nosso projeto de combate à fome e desnutrição, o 1P5P, que complementa cinco pratos de comida a quem tem fome no país, a cada peça vendida. Já foram quase 40 milhões de refeições complementadas através desse projeto – que já tem quatro anos de existência.

Em meio a toda a dificuldade operacional desse momento que vivemos, juntamos quatro parceiros industriais brasileiros junto com a nossa indústria e produzimos quase 30 mil máscaras com o apoio da Fiocruz para serem entregues em comunidades pobres aqui do Rio de Janeiro.

Isso prova que tentar fazer o que é certo sempre dá certo.

Acho que são dois bons exemplos de como o mundo muda e como nós todos deveríamos nos preparar. Observar o mundo, estudar o mundo para que possamos passar a tomar as decisões não só de sobrevivência, mas também de reinvenção, no sentido de estar preparado para o mundo que virá.

Que possamos todos vencer a Blockbuster que mora dentro de cada um.