Limonada

‘Temos que reinventar’

José Felipe Carneiro, co-fundador da cervejaria Wälz, fala sobre inovação para os dias atuais

Por Rony Meisler
15 de abril de 2020

José Felipe Carneiro é neto de dois avôs empreendedores: um fazia pães e outro tinha um açougue. Com essas expertises, os pais dele criaram uma rede de fast food, a Bang Bang Burger, que já foi a maior de Minas Gerais. Com a chegada da concorrência gringa, eles tiveram que se reinventar, e José Felipe entrou em cena criando a cervejaria Wälz, que chegou a ganhar prêmio de melhor do mundo. Mas a história vai muito além. Ele foi meu convidado na quarentena de lives da Reserva na terça-feira (14 de abril).

Sobre o período atual, ele já vê um grande aprendizado nos últimos 30 dias:

– Minha dica é que nós, empresários, saibamos hibernar neste momento, que é um período de escassez. Vamos queimar gordura agora, diminuir os batimentos cardíacos e vamos pra cima – diz, reforçando que tem seguido adiante com todos os projetos sociais.

A história da Wälz remonta a 1999 – mas foi em 2006 que Pedro, irmão de José Felipe, surgiu com o design e o branding em torno do produto, inspirado nas cervejas belgas e tchecas. Antes disso, eles vendiam chopp em festas e eventos. Ao abrirem as portas da cervejaria, descortinaram o processo de produção ao público, que ficou naturalmente encantado. O negócio passou a ser, além da produção, venda de insumos e equipamentos para a produção caseira.

– Mas sempre falávamos que a melhor cerveja era a nossa. Nosso negócio começou a ganhar um destaque nacional e internacional. Começamos a mandar cerveja para concursos. Em 2012, a Wälz foi considerada a melhor da América do Sul – lembra José Felipe. Mais tarde, a Wälz Brut levou o reconhecimento de “melhor do mundo”.

 

 

Parece fácil, né? Mas foi tudo suado. José Felipe conta que tiveram que se reinventar algumas vezes ao longo do processo – a ponto de ele comparar ao atual momento em que vivemos, com vários negócios tendo que se adaptar à situação de isolamento social.

– Fomos crescendo, arrebentando, fazendo muito barulho. E sem dinheiro. A gente não tinha dinheiro pra pagar os equipamentos que estavam financiados, não tínhamos pra pagar os ingredientes importados, era uma luta. Meu irmão sempre fazendo muita conta. E acredito que esse é o mote do momento: temos que reinventar, tirar de onde estamos acostumados, e alocar em outro lugar – compara.

No auge dos problemas financeiros, conseguiram vender uma cerveja que ficaria na adega por 9 meses para fermentar quando ainda estava no sexto mês do processo. O dinheiro serviu para pagar o décimo-terceiro dos funcionários. Foi o fôlego que precisavam.

Em 2014, apareceu a Ambev – que eles temiam que os engolisse – propondo negócio.

– Foi o casamento perfeito porque eles tinham a distribuição que nós não tínhamos, tinham os laboratórios que precisávamos para fazer os testes, e de fato atestar que estávamos fazendo um produto foda – diz.

José Felipe auxiliou na criação de um braço de inovação na ABInbev, de quem tornaram-se sócios por um tempo. A Zx Ventures (atualmente só da Ambev) atua em quase 30 países e em dezenas de marcas, entre elas algumas de bebidas.

– Hoje é uma empresa independente dentro da estrutura, tem CEO independente, uma área de inovação precisa de muita independência. A Ambev tinha uma estrutura gigante mas não tinha esse nicho de inovação, por exemplo de conseguir fazer cervejas personalizadas para restaurantes. Nós atendemos o TT Burger, que foi a primeira hamburgueria a ter cerveja própria, e isso foi se globalizando – lembra. 

Em 2016, depois de uma viagem ao Havaí, propuseram o investimento em kombuchas – mas essa já é outra história. Hoje ele está à frente da KHappy Kombuchas.