Limonada

Um subversivo à prova de crise

Uma conversa de Rony Meisler com Facundo Guerra, que começou a empreender aos 15 anos em São Paulo

Por Rony Meisler
20 de agosto de 2020

Esta semana bati uma papo, via live no Instagram, com Facundo Guerra, meu amigo de muitos anos. Uma pessoa a quem admiro profundamente: é um dos meus ídolos dentro do empreendedorismo. Através de seus negócios, ele ressignifica a cidade de São Paulo, por quem é apaixonado. A gente precisa de Facundos no Rio de Janeiro.

A maior parte dos negócios dele é na área de bares e restaurantes, normalmente ocupando lugares abandonados. Ele faz esses lugares bombar. Tem um valor não apenas financeiro, mas de sustentabilidade e impacto social, quando você bota a cidade pra funcionar, gerando emprego, renda.

Argentino de nascimento, veio para o Brasil aos 15 anos, e já teve 20 negócios. Teve uma infância de classe média baixa, em Vila Buarque, e seu avô morreu aos 90 anos, como vendedor ambulante de bala de coco. Escreveu ‘Empreendedorismo para subversivos’, e atualmente ele está oferecendo um curso, “Empreendedorismo à prova de crise”, para empreendedores que têm sofrido nesta pandemia.

Separei algumas frases brilhantes do Facundo ditas durante a nossa conversa.

Empreendedorismo é maternidade:

“A gente vive, respira as empresas. O que tem de mais próximo da maternidade para um homem é ser empreendedor. E essa falência dos nossos negócios também é nossa, apesar de termos sido atravessados e atropelados pelas circunstâncias, então sofri muito nessa pandemia. Mas li pra caralho, como não lia há pelo menos 10 anos. A última vez que li nessa qualidade foi quando estava fazendo doutorado. Li sobre Marketing, vendas, empreendedorismo. Eu nunca tinha lido sobre isso, sempre fui intuitivo. Me preparei para escrever um outro livro.”

Discurso de empreendedor pentecostal

“Aqui a gente é educado a seguir carreira. A gente tá toda hora à mercê dos discursos de empreendedor pentecostal, que parece um pastor: “Acredite em você, tenha fé que você vai chegar lá”, que é supertóxico. Demorei muitos anos pra ter uma educação financeira, e olha que sou engenheiro. Então se eu fosse empreendedor nos Estados Unidos eu estaria comprando o Ellon Musk hoje.”

Argentino no Brasil

“Ser argentino no Brasil não é confortável, especialmente nos anos 80. Sempre foi zoado. Ou é arrogante, ou galanteador, escrotão, malandro. Meu nome só existe na Argentina. Se eu me chamasse José passava despercebido. Tinha uma época que eu dizia que era uruguaio pra não sofrer bullying. Se eu falasse que era argentino já tomava um pescotapa”

Ser empreendedor na pandemia

“Minha indústria foi completamente dizimada. Apesar de eu ter tentado digitalizar uma parte do negócio através do delivery, foi difícil porque os canais ficaram saturados, toda a concorrência entrou no delivery. Os primeiros meses foram bem depressivos. Estava trabalhando 12, 14 horas de forma que não era saudável. De repente, parei. Sofri psicologicamente porque nós empreendedores temos os negócios como nossas famílias também. O fato de ter sido empreendedor nos últimos 15 anos me mantém sereno agora. O único ser que vai caminhar sobre a Terra não é uma barata, é um maldito empreendedor.”

 

 

O mito americano x o caso brasileiro

“O mito do empreendedor nos EUA é formado em cima do mito do herói, do self-made man, estilo Zuckerberg, Steve Jobs, Musk. E o nosso é na sobrevivência. O que todo mundo quer é um emprego. Ninguém diz, quando pequeno: “eu quero ser empreendedor”. Você vai lidar com liberdade e os riscos associados a essa liberdade.”

Redimensionando o sucesso

“Às vezes a gente persegue um sucesso que é visto pelo olhar do outro: ganhar mais dinheiro, vender mais, abrir mais loja, escalar. E a gente não percebe o quanto isso cobra da nossa vida pessoa física. Porque mais uma vez a expansão do negócio representa também uma expansão de nós, empreendedores. E a gente cai nessa falácia do sucesso porque a gente acha que vamos ser mais felizes com mais dinheiro e com mais gente conhecendo o nosso produto. É o nosso ego inchado. Quando eu tomei esse tombo, e nada melhor do que um tombo pra te ensinar uma lição, eu pensei: “cara, quer saber de uma coisa? O pequeno é bonito”. Talvez eu não queira mais ter 12 negócios, faturar tantos milhões por mês, ter uma preocupação do cacete e não ver a minha filha crescer. Então estou redimensionando o que é sucesso pra mim.”

Antifrágil

“A lição do “Antifrágil” pra mim é muito simples: “subtraia”. Como empreendedor, eu entro pra diminuir meu risco.  Quais os passos que preciso dar para diminuir meus riscos? O livro fala isso: diminuir as variáveis pra deixar menos suscetível a fatores externos.”

O negócio do futuro

“A gente viveu um tempo em que as companhias irradiavam um produto e falavam: “compra, bebe”. Eram quase interativas. Depois elas meio que se humanizaram, ganharam voz. As redes sociais permitiram que elas fossem mais PF e menos PJ. E daqui a alguns anos vão comprar do Rony porque vão pensar: “eu confio no Rony e ele é um articulador da minha maneira de ver o mundo”. Teu suporte de expressão de ver o mundo pode ser a Reserva ou outro negócio. E eu acho que a gente vai ficar mais pessoa-física-pra-pessoa-física, e vai ter uma economia meio de afeto, de fazer com que sua audiência seja menos consumidora e mais participativa no processo de criação, sendo inclusive remunerada por isso.”

O amor a SP

“Como eu não tinha muita identidade, resolvi ser paulistano. Que também é visto como uma identidade escrota pro resto do Brasil. Fui procurar o que tinha sido importante para os paulistanos pré-década de 50. Riviera, Cine Jóia, Municipal. Por isso nunca consegui ir a shopping center. Meu propósito sempre foi uma curiosidade intelectual e estética sobre o que nos faz ser paulistanos. Porque São Paulo é a cidade que tem as pessoas mais interessantes do país. E os paulistanos mais interessantes não são de São Paulo, mas vieram de cidades pequenas. Seja por causa de sua sexualidade, ou porque suas ambições não cabiam em suas cidades natais, ou porque eram abusados dentro de suas famílias, e vieram porque São Paulo era a grande Serra Pelada do Brasil. E aqui conquistaram alguma coisa. Mas aqui é uma cidade onde os sonhos chegam e morrem. É um grande cemitério de sonhos também. E cada um dos negócios que abri respondia a essa pergunta: “o que é ser paulistano?””

Empreender dá tesão

“Um negócio é uma maneira legítima de você expressar uma maneira de ver o mundo. O tesão da criação, não sendo artista, isso é o que diferencia um empresário de um empreendedor. O empresário só quer extrair o dinheiro do seu negócio, e o empreendedor fica pensando o tempo inteiro no próximo passo, ele vive no futuro. Ele não vive no presente. Esse gozo que a gente tem na criação, na hora de montar um negócio, me fez transcender o dinheiro. Tem uma hora que o dinheiro não me traz o prazer que o negócio me traz. Acho um pouco triste o fim que os grandes empresários dão pro dinheiro, tipo comprar um helicóptero.”