Limonada

Uma aula de resiliência

Tallis Gomes, criador da Easy Taxi, que atingiu o sucesso a partir do nada, fala sobre adaptações à crise

Por Rony Meisler
30 de março de 2020 Atualizado em 06/04/2020 às 17:53

Na semana passada, a quarentena de lives da Reserva sextou com o Tallis Gomes. Ele é um empreendedor de sucesso, criador da Easy Taxi. Antes disso, morou em favela e foi vallet, entre outras atividades. Atualmente, é dono da Singu, que conecta profissionais de beleza a seus clientes, e promove um curso que formou 755 executivos ano passado. As empresas de seus alunos faturam R$ 600 bilhões e empregam 70 mil pessoas. Desde janeiro ele estuda os efeitos do coronavírus e, como cara inteligente que é, pensa em soluções criativas. Abaixo, alguns dos melhores trechos da nossa conversa.

 

A infância

“Eu sou um fruto da meritocracia, sou do time que defende a meritocracia com fundamento porque eu vivi. Eu sou filho de uma cabelereira e de um policial militar, uma família que foi desfeita muito cedo. Quando eu tinha 5 anos, fui morar com minha avó na casa do patrão dela. Ela quem me criou, junto com o patrão que acabou me adotando. Ele era muito culto e foi muito importante na minha formação moral, principalmente. Eu cresci numa família extremamente pobre no interior de Minas, mas com uma base de princípios e valores que me trouxeram até aqui.”

O primeiro negócio

“Meu primeiro negócio foi ser vocalista de uma banda de rock. Fui comprar uma bateria pra banda, e a gente não tinha dinheiro. Aí a gente juntou a partir de um negócio que hoje eu chamo de marketplace: eu tirei printscreens das ofertas de celular no Mercado Livre, botava uma margem de 25% nesse valor, fazia um guia impresso e ia vender na cidade. Essa foi a grande lição que eu tive sobre dinheiro, realização e trabalho.

No Brasil existe uma cultura que diz que se você trabalha muito jovem é porque você é miserável – e eu era mesmo. Mas isso me ajudou demais, porque eu queria vender celular, mas precisava pensar num canal de vendas. Ia procurar gente rica e pensei: “gente rica veste branco e veste terno”,  então eu fui pra porta de um Fórum, e marquei consulta nos consultórios de médico. E aí chegando lá eu falava: “na verdade não queria me consultar, não, eu queria vender um celular”. Era muito sem noção, cara de pau, aprendi muito sobre vendas, sobre meter a cara, e dois anos depois eu fiz dinheiro pra morar sozinho. Eu saí de Carangola, passei por algumas cidades menores e parei no Rio quando tinha uns 17 anos.”

Os estudos

“Quando cheguei ao Rio tinha o sonho de entrar numa faculdade muito famosa de marketing, e eu consegui desconto. Após um período e pouco, eu descobri que não era aquilo que queria.

Fiz uma viagem pra África do Sul, e na volta vi que a faculdade não estava ensinando o que eu queria saber, e tomei a decisão de montar minha grade: “eu quero saber Python, quero saber Economia, Gestão de pessoas, Matemática financeira”. Criei uma grade pra mim. Na época estavam começando os cursos online, tinham uns cursos de Harvard e Stanford. Eu fiz uma grade e, como sou disciplinado, todo dia eu estava estudando de 8 a 10 horas por dia, engolindo livro, estudando o que eu queria. Eu meio que me formei, mas fora da grade.”

Viagem para a África

“Ainda na faculdade surgiu a oportunidade de fazer um intercâmbio na África do Sul. Por uns três meses, eu vivi uma África do Sul pré-Copa, morei quatro anos antes da Copa. Ainda tinha racismo, vagão de negro, vagão de branco. No primeiro dia que peguei o trem pra ir à aula, me explicaram que tinha o vagão de negro e o de branco, e eu pensei: “porra, mermão, eu sou quase negro, sou brasileiro, quer saber? Vou no vagão de negro”. E falaram pra mim: “você sabe que tá no lugar errado né?”, e eu falei: “eu acho que tô no lugar certo, sou brasileiro”. Todo dia eu ia no vagão de negros, fiquei amigos dos caras e foi uma experiência do caralho, a primeira vez que peguei um avião na minha vida foi pra África do Sul. Não sabia uma palavra de inglês e fui pegar um avião pra África do Sul.”

 

 

A falência

“Criei meu segundo negócio de gamificação e rede social em 2007, ninguém nem falava de mídia social nessa época. Quebrei em menos de um ano. Quando eu quebrei, morava na favela de Santo Amaro, na Glória, e fiquei muito amigo das pessoas. Morei lá uns três, quatro anos.”

De vallet e panfleteiro a gerente de social media

“Naquele momento eu pensei: “acho que eu consigo fazer um negócio”. Tinha um restaurante ali embaixo, o Amarelinho da Glória, eu fui trabalhar ali. Estacionava os carros, fui vallet. Comecei a distribuir uns panfletos de uns amigos que faziam umas festas, eu ia pra porta das festas distribuir panfletos. A galera me olhava torto, mas era isso, barriga roncando e panfleto na mão. Eu chegava de madrugada em casa, cansado, mas tinha que estudar, tentar fazer alguma coisa, até que consegui um emprego numa empresa boa, uma multinacional, na área de Marketing, fazendo social media, quando o pessoal tava descobrindo o que era social media. E aí me chamaram pra uma outra multinacional, mas muito grande, e aí me chamaram pra ser gerente de E-commerce em social media.

Comecei a faturar meio milhão em três meses, o negócio era difícil de vender, mas a gente fez uma estratégia boa e pronto. Chegou um momento que eles pediram pra eu ir pra fábrica, olhar o processo e sugerir. Sugeri processo novo de venda, de fabricação, até que chegou um momento que eu virei e falei: “Cara, tudo que eu faço aqui pra você eu poderia fazer de casa, não precisava estar aqui”. E ele falou: “Aqui não tem esse negócio de trabalhar em casa, não, tem que bater o ponto e ir embora”. Então eu falei: “você então contrata minha agência, me paga bruto o que você paga aqui, vai sair mais barato pra você”. E ele topou.”

O dinheiro começa a entrar

“Começamos a fazer uns produtos interessantes, fizemos uns apps que foram usados pela Estácio, aí eu comecei a querer ganhar dinheiro. Consegui fazer R$ 20 mil por mês em 2010, que era uma puta grana, até que um belo dia eu participei numa competição da Startup Weekend. Fui na competição na intenção de fazer um aplicativo de ônibus. Por que não fazer um aplicativo que avisa quando o ônibus está a 1km de distância? Tive essa ideia levei pra Startup Weekend. Quando cheguei lá, tinha um cara muito famoso, que era o Dave McClure, e ele falou que a ideia era boa, mas o Google já estava fazendo. Então eu deveria pensar em outra ideia. Tinham umas 10 pessoas no meu grupo, era um final de semana pra você apresentar um protótipo da sua ideia, todo mundo faz junto. Depois do feedback sobraram 2. Falei pro meu time ir pra casa e voltar com a cabeça fresca e apresentar uma ideia que fosse menos pior.”

Assim nasceu a Easy Taxi

“Então eu fui pra rua, tava chovendo, não passava ônibus, e aí eu falei: “vamos rachar um táxi?” Liguei pra cooperativa, a mulher foi muito mal-educada comigo, falou que não tinha táxi, eu desliguei e fui pegar táxi na rua. E não passava um táxi, e aí me deu um estalo, de transformar a ideia do ônibus para táxi. Peguei uma van, fui pra casa, comecei a procurar aplicativos de táxi, não achava nada, e pensei: “ou isso é tão ruim que ninguém quis fazer ou estamos prestes a fazer história”. Passei a madrugada trabalhando nisso, desenhei, cheguei pro meu time com a ideia, que se chamada Easy Taxi. Expliquei o esquema, que dava pra fazer por MVP.

Em 2011 não tinha programador mobile no Brasil, então sugeri de subir um site. Peguei um formulário de e-mail, e o primeiro aplicativo de táxi da América Latina surgiu com um formulário de e-mail que perguntava nome, telefone e endereço, e o botão enviar e-mail eu troquei por “pedir táxi”.

Eu copiava o endereço, ia lá no Google Maps, buscava ponto de táxi ao redor, ligava pro ponto de táxi, pedia o táxi, ligava pra pessoa e falava: “seu táxi vai chegar em X minutos”. Depois ligava pra pessoa e perguntava se ela tava no táxi. Então ia no ponto de táxi ver se eu cobrava pro cara. Isso dá pra fazer com qualquer negócio, não existe nada tão complexo que n dê pra fazer um MVP. Eu só queria que a pessoa não tivesse que ligar pra atendente mal-educada, queria que fosse passivo. Eu fiquei em quarto lugar na banca. Um cara que é amigo meu hoje em dia falou que eu era muito sonhador, que gostava muito das minhas ideias, mas tava muito longe da realidade. Em 18 meses nós abrimos em 35 países com loja própria.

Mercado de beleza

Em 2016 eu percebi que o mercado de beleza era 3 vezes maior que o mercado de táxi. Era um mercado gigante, de R$ 120 bilhões. Eu estudei a fundo e percebi que o modelo de negócio era o mesmo há 50 anos. A realidade da mulher atualmente é uma, mulher que trabalha igual ou até mais do que homem, geralmente mais: cuida de casa, dos filhos, tem que treinar e estar linda. E que horas ela liga pra ela? Ninguém olhava pra essa mulher, e eu olhei. E achei que fazia sentido eu pegar o conceito do Easy Taxi e levar pra esse mercado. E foi incrível: pra Easy Taxi, a gente levantou R$ 85 milhões, que hoje em dia é muito pouco. A gente levantaria R$ 100 milhões na primeira rodada e R$ 300 milhões na segunda. Levantamos pouco dinheiro comparativamente, mas nós eramos muito bons em gestão de dinheiro. Eu saí da Easy Taxi com 4% de participação, mas o que a Easy me proporcionou, muito além de dinheiro, foi o aprendizado. Me ensinou a contratar as melhores mentes pra trabalhar, me ensinou gestão de uma multinacional.

Em vez de sair pedindo dinheiro pra todo mundo, eu vou fazer uma empresa com meu dinheiro e dinheiro dos meus amigos. Botei uma grana relevante da minha vida ali. Juntamos muito pouco dinheiro pra Singu, levantamos ao todo R$ 16 milhões. Hoje temos mais de 5 mil profissionais, atendemos dezenas de milhares, por ano são centenas de milhares.

Como eu sou muito ligado em melhorar a vida das pessoas através da tecnologia, quando eu defini esse propósito pra empresa, ficou muito fácil o caminho que iria seguir. Até que um dia, uma das manicures me pediu dinheiro emprestado, porque precisava sair de casa por violência doméstica, mas não conseguia por falta de dinheiro. Eu emprestei o dinheiro e pensei em fazer um banco dentro da empresa. “Eu não preciso fazer igual a alguns bancos, eu posso fazer um negócio com uma taxa mega razoável, dar oportunidade de elas pegarem dinheiro em empréstimo, porque o risco de não me pagarem é muito baixo, porque eu sou o gerador de renda, então se não me pagarem é só eu descontar daquilo que tenho que pagar pra ela”.

E posso falar com propriedade que as pessoas humildes muito dificilmente dão calote, quem dá calote é classe média pra cima. Vimos que dava pra ser feito, trouxemos essa complementaridade pra vida dessas mulheres, então triplicamos a renda média dessas mulheres, conseguimos fazer dar acesso a vários serviços, como conta corrente, cartão de crédito. O banco não tem interesse nessas mulheres porque são informais, e não tem como comprovar renda. Democratizamos esse acesso.”

O que vender na crise

“Então me chega esse tal de coronavírus, e São Paulo fecha dia 23 de março. Quando eu vi aquilo, eu não dormia. Essas mulheres vão morrer de fome se eu fechar isso, não tinha outra opção: tínhamos que seguir, com toda proteção que a gente já fazia muito antes disso. Como não tinha certeza de nada, vamos seguir as ordens dos órgãos competentes, e então resolvi seguir as recomendações de fechar a Singu.

Mas me vieram tantas mensagens de partir o coração, o Brasil real é esse, de pessoas com R$ 80 na conta e com 2 filhos, mãe e marido em casa. Eu fiquei muito preocupado com essas meninas, porque além de ser humano elas são minhas parceiras de negócio.

E aí me veio a ideia de vender um voucher de desconto, então eu dou um desconto pra um cliente, elas usam quando passar essa crise, eu dou o valor integral desse voucher pras funcionárias, e depois elas me pagam com trabalho. Essa é uma dica que eu dou pro microempreendedor que tá nos assistindo agora: tente vender crédito do seu produto. O foco agora é atravessar o rio, depois a gente vê o que a gente faz.”

Essa é uma dica pro microempreendedor: tente vender crédito do seu produto

Curso para empreendedores

“Em 2018 eu sofri um acidente muito grave de paraquedas, eu errei um pouso e quebrei tíbia e fíbula. Foi muito sério, tive que ficar em casa dois meses com o pé pro alto. Eu tava desesperado em casa, faltando coisa pra fazer, trocando com o Bruno Nardon e o Alfredo Sores, eu fiz um estudo da nossa gestão, que era parecida, e falei que, se eu morresse hoje, eu queria ter escrito um livro de como ser um gestor de uma empresa inovadora, ensinar o que eu sei. Montei em tópicos, os caras amaram, pensei em fazer um livro, mas livro não dá dinheiro. Percebi que as escolas tradicionais não tinham condições de explicar isso. Percebi que só tinha picareta ensinando na internet, chamei o Nardon e o Alfredo, falei com o Tony, que é nosso CEO, que foi quem organizou tudo, quem fez o negócio acontecer. “Vamos fazer isso”, peguei a câmera do Tony, gravei no quintal dele, subimos uma landing page. No dia seguinte tinha venda. Em 48h fechamos a primeira turma. Então fizemos um dia de aulas e um dia de mentoria. Fizemos uma turma menor, 50 pessoas, e então conseguimos dar atenção total: o negócio tomou uma proporção, eu aprendi mais nesses três meses de mentoria que em 18 anos trabalhando. Fiquei viciado nisso, nós formamos 755 executivos ano passado que faturam R$ 600 bilhões e empregam 70 mil pessoas. Começamos a ramificar o serviço. O nosso produto online pra quem quer entender sobre iniciar uma startup tem um ticket bem mais baixo para facilitar o acesso.”

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