Masculinidades

A medalha de Bernardinho

Para o pai de Bruno, Júlia e Vitória - personagem de Dia dos Pais da Reserva - a realização dos filhos é o que importa

Por 2min
16 de julho de 2020

Multicampeão do vôlei, como jogador e técnico, Bernardinho é o protagonista da campanha de Dia dos Pais da Reserva este ano. Pai de Bruno, Júlia e Vitória, filho de Condorcet, Bernardinho concedeu uma entrevista ao 2min, em que fala sobre os papéis desempenhados na vida, especialmente nesta pandemia.

Nas suas memórias de criança, qual o ensinamento mais marcante de seu pai? Pode contar uma história emblemática?

Nós somos 5 irmãos, e todo domingo meu pai fazia questão de a família estar junta, de fazer passeios. Ele era advogado, trabalhava muito, e ficava muito feliz de estarmos tão juntos naqueles momentos. Eu não tinha a visão do pai, o quanto aquilo pra ele era importante, pra depois poder enfrentar uma semana de trabalho.

Mas tem duas histórias dele que pra mim tocam meu coração de pai e de filho mesmo. Quando Bruno nasceu, 32 anos atrás, eu jogava na Seleção, e a Seleção viajou pra jogar. Eu fiquei porque tava na iminência de nascer, e eu viajei dois dias depois. No dia que a seleção viajou o Bruno nasceu. No dia seguinte, levei a Vera [Mossa, mãe do Bruno] e o neném pra casa e fui encontrar a Seleção na Bulgária. Na época não tinha foto digital, então tirei umas fotos, mandei revelar, levei um albunzinho daquele recém-nascido e passei um mês fora. Meu pai passou lá no meu prédio pra me levar pro aeroporto e disse: “Agora você vai entender muito das coisas que eu fiz, porque agora você é pai. Enquanto você não é, você não tem a verdadeira dimensão do que significa, do sentimento, e do que a gente faz por um filho”. Aquilo ficou também tão forte e como sempre tão verdadeiro vindo dele.

A segunda história foi na primeira vez em que a Seleção ficou fora do pódio, desta vez eu sendo técnico. Ficamos em 4º lugar. Lembro que quando a gente chegava, tinha sempre imprensa aqui e ali, o pessoal cobria as “façanhas” da Seleção. Meu pai nunca foi me buscar no aeroporto. Mas quando nós “perdemos”, ele tava lá. Quando eu olho aquela multidão, tinha sempre mais gente na derrota que na vitória, é bastante comum. Aí a imprensa toda ali e tal, e quando eu olho, o meu pai tava lá. Eu fiquei meio assim, e ele não disse nada, mas a simples presença dele num momento de crise, onde eu tava meio machucado – mas ele estava lá, e isso é realmente ser presente. Poucas vezes foi, mas quando foi, foi da forma mais importante.

Em relação aos ensinamentos, ele sempre dizia uma coisa pra gente: há 3 valores que são inegociáveis, 3 coisas na sua vida que são pilares. Primeiro, a integridade moral: valores éticos e morais não são negociados; segunda coisa é a capacidade profissional: se capacita, vai estudar, faz o seu melhor; e o terceiro, nesse momento que a gente vive aí, pandemia, crise econômica e tal, ele dizia: solidariedade social.

Você acha que de alguma maneira tentou reproduzir, como pai, a forma como seu pai o criou?

Eu tentei fazer muito daquilo que meu pai me ensinou. Por exemplo, eu fui pai do Bruno muito jovem, o esporte nos uniu ainda mais, e eu tenho muito orgulho do homem que ele se tornou. Ele é muito amigo, muito correto, ele se preocupa realmente com o outro. Quando eu paro e olho pra ele eu falo: “eu acho que eu consegui passar alguma coisa do que meu pai me ensinou”. Tem essa coisa da valorização da família… A nossa vida é um pouco errante, a vida de esportista, de atleta, mas ele tem sempre um cuidado, um olho pra família, ele [Bruno] tem sempre essa preocupação, que é uma coisa que meu pai sempre teve. É uma coisa que eu também sempre tento fazer: esses prazeres de estar juntos.

Com as duas mais novas, com a Julia que tem 18, e com a Vitoria, que tem 10, em alguns momentos a gente compete muito com a tal da tecnologia… Tem muita concorrência com essa coisa da relação mais direta, olho no olho, de tocar e abraçar… Eu tento colocar regras, mas eu gostaria de uma coisa muitas vezes que fosse mais espontânea.

 

pai filhos

 

Eu diria pra mim o seguinte, quando eu comecei lá atrás: “Poxa, fique mais próximo da sua família”.

 

Se perguntarem qual o grande preço que o atleta profissional paga, é o distanciamento da família. Hoje a gente tem muita tecnologia, a gente pode estar em contato virtualmente. Mas quando minha carreira começou, lá atrás, e o Bruno era pequeno, nós não tinhamos isso, a gente telefonava, mas era muito mais difícil. Eu passava meses, às vezes, fora, com seleções em viagens, campeonatos, era mais dfícil. Quando eu voltava eu queria estar num lugar que era tão importante que eu infelizmente tenho passado tão pouco tempo. Então se eu fosse falar comigo há muitos anos sobre como conduzir, talvez eu tivesse dito: “tente encontrar mais espaço, independentemente do pouco tempo”. Você dá a máxima qualidade possível, trazê-las mais pra sua atividade, ou de conseguir algumas brechas…Essa minha obsessão pelo trabalho talvez tenha me feito pagar um preço maior.

Com elas, depois que eu deixei a Seleção, a gente viajou… Ter esse tempo eu e elas pra gente poder entrar um pouco mais na intimidade, falar de coisas mais nossas, passar momentos juntos, tem sido importante. Digamos que eu tô tentando recuperar um pouquinho de coisas que talvez a minha carreira e a intensidade dela tenha me feito pagar um pouco o preço.

Como todos os pais, a gente gostaria de ter feito melhor, mas bacana poder ver que muitas reações são reações que a gente espera, torce, ora pra que nossos filhos tenham.

Autonomia é algo que se conquista, elas querem autonomia para se posicionar, fazer coisas, escolher… Eu acho muito legal e eu incentivo dentro do possível, sem deixar que elas voem muito rápido pra longe do nosso ninho, mas a vida é essa aí, e aonde elas estiverem a gente de alguma forma vai estar por perto.

Como foi estar separado do seu pai durante a pandemia? Neste contexto, estar longe passou a ser um ato de amor. Como vai ser o abraço, quando isso permitir?

Uau, você estar ali e não poder abraçar, não poder tocar… Eu só espero que isso passe. Eu fiquei um tempo sem ir visitar meu pai, no primeiro momento, quando a pandemia se instaura aqui, com todos os medos do desconhecido. Mas chegou uma hora que falei: “eu tenho que ir lá”. A primeira vez que eu fui, tomando todos os cuidados, ele se emocionou um pouco. Eu fico ali com ele, é aquela história, nesse momento, pra ele, estar presente é importante.

Você viveu a rara situação de ser técnico do próprio filho na Seleção Brasileira. Como foi essa experiência? 

Ele optou pelo vôlei, porque tava no DNA. A mãe era jogadora, o pai jogador, treinador. Ele vivia na quadra. Ele brinca dizendo que ele é o único jogador que tem títulos tanto no masculino quanto no feminino, porque a mãe dele, a Vera Mossa, foi campeã grávida, com ele na barriga. Nenhum homem tem esse título. Enfim, ele opta por isso e começa a carreira dele.

O Bruno era o jovem que tava ali no backup, era o terceiro na lista. Em 2007, tive que fazer uma troca, ele tava ali na linha de sucessão, ele entra. Algumas pessoas mais do vôlei diziam que ele já tinha que estar lá, não como titular, mas já tinha que estar, porque era um jovem que tinha condições de assumir a titularidade mais à frente. Outros, ao mesmo tempo, achavam que ele tava ali porque era meu filho.

Aí chegou o Pan-americano no Rio, e ele era o segundo levantador da reserva, ele entrou na quadra e as pessoas vaiando, porque as pessoas compraram a ideia de que aquilo ali era o pai privilegiando o filho. Enfim, eu confesso, imagina você entrar no Maracanãzinho…

 

pai filhos

 

Não é um jogador seu que tá sendo vaiado, é um jogador e seu filho, sendo vaiado no seu ginásio, na sua casa, na sua cidade natal, vestindo a camisa da Seleção Brasileira…

 

Confesso que não dá pra esquecer, foi doído, deu raiva, não era justo, e ele teve que passar por aquilo.

Quando acabou o Pan-americano, o pessoal todo lá aplaudindo, levou faixa de apoio… E minha vontade era não ir nem lá perto, ficar longe, porque tava muito machucado com aquilo. Aquela história: “faça comigo, mas não faça com um filho, que a dor é muito maior”. O senso de injustiça que tava dentro de mim era muito forte. Fiquei muito magoado.

Seguimos fazendo o que a gente tinha que fazer, trabalhando e seguindo, e ele foi crescendo, e eu nunca fui muito brando com ele não… Uma vez eu ouvi de uma pessoa isso: “De modo geral, a gente tende a cobrar um ônus muito maior dos nossos filhos do que dar um bônus para eles”.

Uma vez, tinha uma televisão numa sala de espera… Eu passei, tinha um programa esportivo, e o Bruno tava dando entrevista. Eu parei pra ouvir. Ele tava com uma cara cansada, e falou assim: “Eu não sei por que ele me trouxe”. E “ele” era eu. “Eu não pedi pra ser convocado”, ele continuou. Quando eu ouvi aquilo, eu percebi que ele falava com sentimento a história, e aí eu falei: “eu tô pegando pesado demais”.

Vários jogadores brigaram comigo em defesa dele. Sabe aquela coisa de você querer mostrar que é justo? Que ele tá ali porque ele merece? Ali certamente eu errei. Depois ele conquista o espaço dele, mas a coisa mais importante é que o grupo nunca duvidou da legitimidade de ele estar ali.

Em 2015, nós estávamos em Saquarema, preparando pra Olimpiada. Aí batem em minha porta, e era o Bruno, que veio falar comigo: “Cara, tenho pensado muito. A gente tem que mudar a forma de lidar com ESSE grupo, ele é diferente do grupo anterior. Mais jovens, e você tem que mudar”. Aquilo foi um pouco a gota d’água. Eu pensava nisso mas, “ah, a minha filosofia era a melhor, vou seguir, por que que eu vou mudar?”. Ok, e aí ele entrou, falou aquilo, e aquilo ficou na minha cabeça… Eu fui estudar, fui ler, e tentar realmente mudar. E eu digo a você que a contribuição dele, o posicionamento dele, firme em relação a essa mudança, foi muito importante pra mim. Então foi realmente um filho mentorando o pai.

Você já se viu desempenhando o papel de pai para outros jogadores também?

 Eu tive diversas situações em que eu me vi um pouco como pai, aquela coisa de cuidar realmente. Tem uma definição de liderança que eu gosto muito: “leaders are like demanding parents”, “líderes são como pais exigentes”. Porque você exige, você quer que ele desenvolva seu potencial, você cobra, mas você acolhe. Você, como pai, você cuida, acolhe, eu acho que essa é a relação. Aquela história: “eu vou brigar muito come eles, mas vou brigar muito mais por eles”. Se a gente para e pensa, tem muito a ver com a paternidade, essa relação de amor, de querer o bem do outro literalmente e abraçá-lo. Tinha essa coisa da relação, quase que um parentesco mesmo, a coisa da relação humana que transcendia e muito. Uma ex-jogadora um dia postou: “se eu tivesse ouvido tudo o que ele me disse, eu teria feito ainda melhor”. Sabe aquela história? “Se eu tivesse feito aquilo que me pai me disse”, tinha um pouco disso.

Você quer ver seu filho tendo êxito, sendo feliz em alguma situação. O treinador, o que ele faz? Você sabe que numa Olimpíada o treinador não ganha medalha? Os jogadores sobem no pódio, e qual é teu sentimento? De pai. Você olha pra eles e pensa: “meus filhos conseguiram! Eles conquistaram”. É exatamente isso. Na realidade, eu ainda tive essa bênção, esse privilégio de realmente o meu filho biológico estar também no pódio. Então tem emoção ainda maior.

 

Eu tenho filho de todas as raças, de todas as cores, de todas as religiões, de todas as origens, e meu sentimento por todos eles é exatamente o mesmo.

No dia 21 de agosto de 2016 os caras no pódio olímpico do Rio, lá em cima, o meu sentimento é o do pai orgulhoso vendo seus filhos num momento de grande realização. Então o sentimento é exatamente aquele: não tem nenhum problema não receber medalha, não tem nenhum problema o pai não receber um diploma porque o filho se formou. A sua medalha, o seu diploma é o seu filho se formar. É como a gente se sente realmente.

O que você aprendeu com seus filhos? 

Meu filho Bruno me ensinou muito sobre a questão de se aproximar dos outros, conhecer um pouco mais dos outros, pra poder ler melhor, e com isso ter mais empatia, e de repente ser um ponto de apoio ou um orientador melhor. Porque eu via o quanto ele faz isso com tanta naturalidade.

Com as meninas eu sigo aprendendo no dia a dia. Com a Júlia, a mais velha, tem uma coisa de um olhar pro mundo crítico-construtivo. Estar com ela me alimenta essa noção da importância do debate, da argumentação, da troca, porque, por mais que a gente tenha posições semelhantes, somos de gerações muito diferentes, 40 anos de distância. A gente pode olhar pro mesmo lado, mas com óticas de vivências muito diferentes. Então há sempre uma argumentação interessante que nem sempre é simples, mas sempre enriquecedora, pra mim então é aprendizado.

Com a pequena, com a Vitória, de 10, são as descobertas diárias. Eu vejo com a minha pequena agora a descoberta das outras aptidões. Ela começou a desenhar, e ela é uma artista, ela faz desenhos pra família. Quem sabe ela não me abre esse mundo?, me cria intimidade pro mundo das artes?

Depois de um filho homem, vieram duas meninas. O que mudou em você como pai? Que legado você se vê deixando na criação das meninas para um futuro melhor pra elas?

Sabe qual foi a primeira vez que eu vi minhas filhas chorando de emoção? Foi quando a gente ganhou o ouro olímpico em 2016. Quando eu olho a foto, as duas chorando de emoção. Aliás, foi a primeira vez que eu vi os três chorando de emoção juntos, uma das coisas mais lindas que eu já vi.

A diferença tá nas pessoas. Cada uma tem um jeito diferente. Tem as fases também, a que querem se aproximar, as que querem sair. Quando voltam, entendem a importância dessa proximidade. É importante eles estarem ali, pra gente poder ver, admirar, e o sentimento tá aqui sempre, não tem jeito.

 Meu pai sempre dizia: “eu quero deixar pra você educação, no sentido de vocês aprenderem a aprender”. Eu queria que eles aprendessem a aprender, que eles sejam curiosos, que eles nunca deixem de aprender. Então eu gostaria de deixar para eles que eles tenham uma mentalidade de crescimento, de evolução. Crescer em relação a si próprio. “Pô, pai, o que eu vou estudar, como é que vai ser o mundo?” Filha, eu não sei exatamente como vai ser o mundo, mas se você desenvolver uma série de aptidões, você vai se ajustar àquilo que será o mundo. Saber trabalhar em equipe, ser parte de algo, que eles se sintam parte de algo, entendam que eles são parte de um time, um time chamado Brasil.

E o Brasil não precisa de torcedores, e sim de jogadores. Eu espero que eles sejam jogadores. Torcedor é aquele que xinga, se lamenta, grita, vibra, se emociona, mas ele tá torcendo, ele não muda o placar. O jogador é aquele que desce e faz a sua parte. Eu espero que eles sejam jogadores nessa vida, e não fiquem na arquibancada assistindo.

Neste momento, estamos ressignificando a presença física e a qualidade do tempo presente. Presença física será cada vez menos sinônimo de estar presente. Nesse “novo normal”, mais importante do que estar presente é se fazer presente. Você passou muitos anos viajando, longe dos filhos. Como você dava um jeito de se fazer presente?

 Uma das coisas que eu até me culpo um pouco são as minhas ausências, a minha carreira me obrigou muitas vezes a distanciamentos físicos. O que as pessoas falam hoje de distanciamento físico é o que eu vivi durante muitos anos com meus filhos, porque lidava muito com seleções, com esporte, ficava meses e meses fora. Então é algo muito antes dessa crise que estamos vivendo, e a única coisa que eu sempre dizia, uma coisa que emocionalmente me cobrava um preço: que eu tentava e

 

pai filhos

 

sempre tentei, nos momentos que eu estava, estar verdadeiramente, dar qualidade e significado àquele momento da presença, e me fazer presente mesmo à distância,

 

mesmo no sentido físico, de alguma maneira. Com Bruno, lá atrás, era um telefonema, um cartão, era um pequeno símbolo da minha presença, da minha proximidade mesmo estando longe fisicamente. Com elas, a tecnologia hoje permite, então é um “TE AMO”, que seja à noite, antes de dormir, do outro lado do mundo, e elas aqui. Aquela pequena palavra, saber do dia delas, saber das escolhas delas. Quando eu deixei a Seleção, eu tentei resgatar um pouco desse tempo. Mas eu vivi numa pandemia esportiva durante muitos anos. Durante muito tempo eu perdi muitos, pra não dizer todos, daqueles eventos que fazem parte da juventude: as festas juninas da escola, as apresentações, eu perdi uns 90% deles… Pra não dizer que eu perdi o nascimento da mais nova, e ela fala até hoje! Ela brinca: “você não viu meu nascimento!”. Ela brinca mas eu penso nisso.

Quando eu tinha a chance de estar, eu me emocionava muito mais. Eu pude estar presente, é gratificante demais ver alguma coisa que pra pessoa tem significado. Não existe glória maior que compartilhar com as pessoas as suas conquistas ou as suas emoções. O esporte é paixão compartilhada. De que adianta ser campeão e não poder compartilhar com ninguém? Aquele título, aquela emoção? E assim são os nossos pequenos campeonatos na vida, seja uma apresentação de balé – e eu fui a várias. Por muitos anos eu perdi, eu tava realmente ausente, e elas sentem, não dá pra negar.