Masculinidades

Dividir tarefas é somar

'A mulher fica sobrecarregada não apenas pelas tarefas, mas mentalmente', alerta Pedro de Figueiredo, do Memoh

Por 2min
14 de Maio de 2020

Cozinhar. Faxinar. Lavar a louça. Lavar a roupa. Cuidar das crianças. Planejar as compras. E pode lançar aí mais algumas dezenas de microtarefas executadas diariamente dentro de uma casa.

Segundo o IBGE, em sua última pesquisa sobre o tema, em 2018 mulheres dedicaram em média 21,3 horas por semana a afazeres domésticos e cuidados com pessoas. O tempo gasto por elas é quase o dobro do tempo dedicado pelos homens às mesmas questões: 10,9 horas.

– Historicamente, homens nunca tiveram responsabilidades domésticas. A mulher fica sobrecarregada não apenas pelas tarefas, mas mentalmente – diz o publicitário Pedro de Figueiredo, fundador do Memoh, grupo que tem como propósito promover a equidade de gênero, fazendo o homem refletir sobre seu modo de agir.

Para Pedro, o modelo vigente concede aos homens o privilégio de serem espectadores dentro de suas próprias casas.

– A divisão de tarefas do jeito como ela é passa a ideia de que a mulher é a gestora do projeto, e o homem apenas o agente executor. O homem se coloca na posição de “é só me pedir que eu faço” sem se dar conta de como isso estressa mentalmente a parceira.

Em período de quarentena, a tendência é que a situação tenha se agravado, especialmente nas famílias que contavam com auxílio de empregados e, por conta da crise sanitária, os mandou para casa.

 

 

Na pesquisa do IBGE, constavam sete afazeres domésticos. O que gerou maior diferença foi a tarefa de cozinhar: 95,5% das mulheres executam o serviço, contra 60,8% dos homens. A presença masculina só foi maior no item “fazer pequenos reparos no domicílio”, com 59,2% de participação deles e 30,6% delas.

A única boa nota relativa à pesquisa é que, embora ainda imensa, esse fosso na divisão de tarefas domésticas vem diminuindo pouco a pouco. Mas a divisão de trabalho ainda é praticamente a mesma há quase duas décadas.

No caso particular de Pedro, que há dois anos divide um apartamento com a companheira, a quarentena foi de diálogo e aprendizado.

– Tínhamos uma diarista quinzenalmente, e agora as tarefas são todas nossas. Tentamos fazer um esquema de divisão de tarefas, mas a verdade é que os dois furaram – diz o publicitário.

Ele ficou devendo na cozinha. Faz alguma coisa básica, como acompanhamento, para diminuir o tempo de planejamento da companheira. Para compensar, ficou 100% focado na faxina.

– Minha primeira sugestão para casais é que conversem. Se formos deixando passar coisinhas, vai ser mais danoso pra relação – explica. – Em segundo lugar, peça ajuda. Se você não consegue desempenhar uma determinada tarefa, avise. O homem precisa se vulnerabilizar mais, não adianta assumir responsabilidades sem as ferramentas necessárias para executar. Mas claro que isso não pode ser um argumento para você deixar de se responsabilizar. Muito homens acabam usando isso como desculpa para deixar as coisas como estão – diz.

Afinal, o Youtube está aí, cheio de tutoriais de como lavar, passar, cozinhar… Aproveite esse período, que você está 100% do tempo com as pessoas mais importantes pra você, pra fazer novas atividades, assumir as tarefas domésticas, passar mais tempo com a sua família e abrir novos diálogos. Temos certeza que toda essa mudança está vindo por um bom motivo e que todos nós vamos crescer e aprender muito com ela.