Masculinidades

O vírus da violência doméstica

Fechamento emocional dos homens é responsável pelo disparo dos índices durante a quarentena

Por 2min
28 de abril de 2020

pais

 

Só em São Paulo, o índice de violência doméstica cresceu 30% durante a quarentena. No Rio, o número subiu 50%. E esta lamentavelmente não é uma tendência apenas brasileira: chegou a 65% de aumento no Reino Unido, entre outros países que viram a situação piorar com o confinamento. Guilherme Valadares é fundador do Papo de Homem, há 13 anos um espaço de formações e transformações positivas da Masculinidade, falou sobre este e outros temas na quarentena de lives da Reserva.

– Isso é reflexo de um machismo que recorre à violência quando não consegue lidar com questões difíceis em um relacionamento. Porque como você precisa conviver com uma pessoa dentro de casa sem poder sair, isso gera algumas dificuldades, que a maioria dos homens não teve educação emocional na infância, de preparo para lidar com esse tipo de situação – avaliou.

Recentemente, o Papo de Homem relançou o livro “As 25 maiores crises dos homens e como superá-las”. A ideia do livro é oferecer um ponto de ajuda e diálogo para os homens.

– Um dos principais problemas que vemos nos homens e tem sido muito intensificado na quarentena é o processo de fechamento, de isolamento interno, que pode disparar uma série de atitudes destrutivas externamente e autodestrutivas internamente, como é o caso da violência contra as mulheres – disse.

Guilherme lembra que, ano passado, ao realizar o documentário “O Silêncio dos Homens” (que contou com o patrocínio da Reserva), foi feito um estudo que apontou que 6 em cada 10 homens não teve bons exemplos de como lidar com as próprias emoções, medos e sentimentos profundos.

– Quando não estamos preparados para isso, surge um momento de crise que pode se tornar um gatilho de situações problemáticas, como a violência doméstica ou, pra quem está absolutamente sozinho, a intensificação do vício em pornografia – lembrou Guilherme.

No estudo produzido com o filme, o Papo de Homem verificou que 24% dos homens brasileiros se autodeclaram viciados em pornografia – um dado “alarmante”, segundo Guilherme, “porque conta como está sendo essa vivência no quarto, com suas parceiras ou parceiros”.

– A tendência de uma pessoa que está viciada em pornografia é que tenha uma relação superobjetificada, gerando um dano pra si mesmo e para o parceiro(a). Fora isso, crise de ansiedade, depressão, crise de pânico, todo tipo de situação que se torna mais complicado quando estamos solitários – avaliou.

De acordo com Guilherme Valadares, num país machista como o Brasil, a masculinidade gira em torno de alguns pilares como “ser provedor”, “ser reprodutor”, “ser protetor” e “ser auto-suficiente”.

– A maioria de nós foi ensinado nesses moldes, e caminhamos na vida tendo uma relação obsessiva com esses pilares que nos colocam em uma caixa, a caixa dos homens. Dentro dessa caixa, todo os comportamentos que nós começamos a seguir para supostamente sermos aceitos por outros homens, como ser dominante e agressivo, nunca fazer algo que seja de mulher, buscar sexo a todo momento, não demonstrar fraqueza, evitar demonstrar emoções – enumerou.

Voltando à questão do coronavírus, Guilherme lembrou que a postura de muitos governantes tem trazido maus resultados no combate à pandemia. (E países governados por mulheres têm tido melhores resultados).

– Um homem menos maduro emocionalmente, nos momentos de crise, tende a reclamar, brigar fugir, acusar, arranjar justificativas, desculpas e negar que aquilo está acontecendo – avaliou Guilherme. – O que é completamente diferente de uma masculinidade mais madura, que tende a ter mais responsabilidade consigo próprio, com o ambiente a sua volta, seja qual for o contexto que se apresenta. Os países que estão tendo melhor desempenho em luta com a crise, vemos um senso de responsabilidade maior dos governantes – disse.

Como antídoto para o vírus da violência doméstica – entre outras doenças da masculinidade -, Guilherme sugere a formação de grupos de homens (as instruções de como formar um estão aqui):

– Temos que desenvolver a habilidade de andar juntos, não andar sozinhos. Procure um grupo de homens ou crie um, com escuta, paciência e afeto.