Masculinidades

Pais sem distanciamento

Leonardo Piamonte e Ismael dos Anjos debatem o 'ajuste cultural' no papel de pai e homem

Por 2min
15 de abril de 2020 Atualizado em 16/04/2020 às 17:52

pais

 

A paternidade também é tema para a nossa quarentena de lives. Esta semana recebemos Ismael dos Anjos, fotógrafo, jornalista, pai sócio-afetivo do Francisco e membro do coletivo Balaio de Pais, que conversou com Leonardo Piamonte, psicólogo responsável pelo Paternidade sem frescura e pai de Pipe, Pedro e Guto.

O momento de quarentena, a propósito, tem servido, segundo Leonardo, para que os filhos – em isolamento, como defende a OMS – passem a entender melhor a importância de “estarmos fazendo nossa parte para cuidar dos outros, mesmo de uma pessoa que não conhecemos”.

–  De alguma maneira eles têm visto como lidamos com as incertezas, com as angústias. E uma das certezas que tenho visto neles é que eles têm conseguido construir a visão do outro. Como essa situação começou a trazer tanta relevância em relação ao outro.

Leo entende que vivemos um momento de “ajuste cultural”, de entendimento da posição de pai e homem. Para Ismael, já não basta o homem fazer o papel dos 3 Ps (procriar, proteger e prover), que se resume a colocar dinheiro e comida em casa – mesmo numa sociedade com 6 milhões de crianças sem o pai no registro civil.

– É até estranho falar que isso é pouco, mas o que quero dizer é que deixamos de perceber o quanto o cuidar é valioso. A gratificação que se dá quando você se coloca não somente como um protetor do seu filho, mas como um cuidador dele – diz o psicólogo, lembrando que uma ou duas gerações atrás, a relação entre pais e filhos era hierárquica, e hoje deveria se aproximar de uma “parceria”. – Antes, quem eram os caras que víamos como pai? O Fred Flintstone? O Homer SImpson? Nós consideramos eles pais razoáveis até. Hoje em dia não têm mais espaço, são pais questionáveis.

Para Ismael, não apenas o papel do pai, mas o do homem como um todo passa por um momento de mudança.

–  A demanda por exemplo de companheiros e companheiras, e com quem escolhemos para viver. A relação de trabalho com chefes também muda. Vou a muitas empresas e tenho ouvido muito falar no “líder que cuida”. E se não conseguimos cuidar nem dos filhos em casa, como vamos cuidar de uma equipe? – questiona.  Leonardo Piamonte vai além, e defende que a visão que se tem do homem precisa mudar – “aquela visão de homem de filme, sempre atrapalhado, e somente mulheres com o jeito para cuidar em toda essência”.

A propósito de papéis do homem e da mulher, Piamonte citou um levantamento feito sobre as ações referentes a “roupas” numa casa. Das 44 ações listadas – desde procurar o amaciante mais em conta até guardar a roupa depois de passada –, e chegou-se à conclusão de que ao homem costumam caber apenas três ou quatro delas.

– Notamos que as tarefas ligadas a planejamento, pesquisa e tudo o que envolve o por trás da bandeira “pendurar a roupa” fica por conta da mulher. Então, quando falamos em “ajudar” temos sempre a ideia de que o processo é do outro, mas estamos sendo legais “ajudando” – diz.

O exemplo de Piamonte remeteu Ismael à época da produção de “O Silêncio dos homens”, documentário sobre masculinidade que saiu ano passado, coordenado por ele e patrocinado por Natura e Reserva.

– Quando entrevistei a Raquel Franzini, do Instituto Alana, ela falou que “o cuidado se divide em três pilares: cuidar de si, cuidar do outro e cuidar do ambiente ao redor”.

Vamos às sugestões de leitura e escuta dos dois:

Léo 

Pequeno manual antirracista”, de Djamila Ribeiro

A criação do patriarcado”, de Gerda Lerner

Ismael 

Diálogos contemporâneos sobre homens negros e masculinidade”, de Henrique Restier.

Indicações de Perfis 

podcast Balaio de Pais 

Homem paterno 

Família Quilombo 

Papo de Homem 

A Psicologia contra o racismo