Masculinidades

Por que ouvir ‘Praia dos Ossos’

Podcast que relata assassinato de Ângela Diniz expõe o machismo de forma inapelável

Por 2min
19 de novembro de 2020

Neste dia 19 de novembro se festeja o Dia Internacional do Homem. Ocasião perfeita para falarmos sobre… machismo. Desta vez, escolhemos um podcast que é um retrato perfeito do Brasil das últimas cinco décadas. “Praia dos Ossos”, apresentado e idealizado por Branca Vianna, foi construído a partir de mais de 80 entrevistas que resultaram em 50 horas de gravações.

Em oito episódios, a série (tão viciante quanto uma do Netflix) apresenta a história do assassinato de Ângela Diniz, personagem célebre dos anos 70. Nascida em Belo Horizonte em 1944, era desquitada, mãe de três filhos e vista com frequência nas colunas sociais (uma “influencer” antes da invenção do termo). Foi morta em 1976, aos 32 anos, por seu namorado, Doca Street, numa casa na Praia dos Ossos, em Búzios.

Mas, afinal, por que “Praia dos Ossos” é imperdível, com um caso acontecido há mais de 40 anos? [Atenção, contém spoilers]

1 – Porque fala sobre a maneira como a imprensa e a sociedade retratam uma mulher

Ângela frequentou as colunas sociais desde a adolescência, na capital mineira. Os jornais celebraram sua festa de debutante, noivado e casamento. Sua morte foi um acontecimento para as revistas de fofocas. Doca Street, foragido, deu entrevistas antes do depoimento à polícia. Passavam pano para o assassino, figurão paulistano.

Tempos depois do crime, Jece Valadão lançou um filme chamado “Os amores da Pantera”, supostamente ficcional, mas que trazia os mesmos elementos do crime da Praia dos Ossos. Na suposta ficção ou no suposto jornalismo, a forma de se retratar Ângela era com um certo desprezo – ou uma admiração reticente – a uma mulher perigosa, por ser considerada “avançada”, até mesmo pelo simples fato de viajar para a Europa com frequência. Escreveram que fazia topless (como se fosse crime ou definidor de caráter); que era bissexual (idem); que amava livremente.

No primeiro julgamento de Doca, a espetaculizarização foi tamanha que a TV Globo credenciou 68 profissionais e 13 carros de transmissão para a cobertura. Outros cem veículos de imprensa estavam no tribunal do júri, em Cabo Frio (Búzios era um distrito, na época).

E, pouco a pouco, Doca começou a ser tratado não como um assassino, mas como um herói. Poucos meses depois do assassinato, era ele a vítima – naturalmente, Ângela era a culpada.

2 – Porque fala sobre como o sistema judiciário brasileiro trata uma mulher

Segundo o podcast, “Ângela foi morta duas vezes”: a primeira, quando Doca lhe desferiu quatro tiros; a segunda, quando seu assassino foi condenado a 1 ano e 6 meses por homicídio culposo. O júri (incluindo duas mulheres) concordou com a tese do veterano Evandro Lins e Silva, que argumentou que Doca Street fizera legítima defesa de sua honra. Segundo Doca, Ângela disse antes de morrer: “Se você quiser me dividir com homens e mulheres, pode ficar [em casa], seu corno”. Isso teria bastado. Doca saiu do tribunal praticamente nos braços do povo.

Em 1979, com a Lei da Anistia, diversos exilados voltaram ao país – entre eles, feministas. Embora Ângela nunca tenha sido feminista – nem antirracista –, seu caso virou um símbolo, porque não era Doca, mas o próprio machismo que havia sido absolvido. Um novo júri foi formado, e desta vez Doca pegou 15 anos de cadeia por homicídio qualificado.

Porém, é importante ressaltar que, passados mais de 40 anos do crime, ainda hoje há quem evoque a tese de legítima defesa da honra para assassinar mulheres – embora (apenas) em 1991 o STJ tenha derrotado a tese.

Em 2018, houve um caso em que o réu foi condenado, mas o advogado conseguiu uma desclassificação de “homicídio triplamente qualificado” para “homicídio privilegiado”, por privilégio logo após “injusta provocação da vítima”. Num caso assim, a pena vai até 5 anos em regime aberto.

Ou seja, mesmo o fato de o Código Penal criar a figura do “feminicídio” em 2015 foi incapaz de acabar de vez com o problema. Em 2019, o Brasil registrou 3.739 casos de feminicídio – mais de 10 por dia.

Ouvir “Praia dos Ossos” é fundamental para evitar que o passado continue se repetindo, ainda que de forma esporádica. Não é demais lembrar que, em setembro de 2020, o Brasil assistiu ao caso Mariana Ferrer. A influenciadora digital – como Ângela Diniz talvez fosse se tivesse nascido nos anos 1990 – foi insultada e humilhada pelo advogado do homem acusado de estuprá-la, contando com a conivência do juiz do caso. No Brasil, 66 mil mulheres são estupradas por ano, ou uma a cada 8 minutos. André de Camargo Aranha foi absolvido.

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