Masculinidades

Qinho: sem regalias, cheio de vínculos

Pai de Vicente, de 8 anos, e Benício, de 1, músico se vira com as crianças em função da rotina de trabalho da mulher

Por 2min
2 de março de 2020 Atualizado em 03/03/2020 às 14:14

O cantor e compositor Qinho é carioca, mas no início do ano estabeleceu-se em São Paulo, em busca de um público que valoriza mais a música independente.

– No Rio, fora do mainstream você não existe. São Paulo tem uma cultura independente estabelecida, uma rede forte – o Sesc, algumas casas privadas –, uma relevância dentro da opinião pública desta cena de novos artistas – explica.

No sentido contrário, sua mulher, a atriz Clara Maria, encara a ponte aérea para se preparar para a próxima novela da Record, “Gênesis”. A rotina de gravações ainda nem começou, mas ela já precisa se ausentar de quarta a sexta – às vezes, até sábado. Qinho tem se tornado “pãe”, como ele mesmo diz. Os dois filhos – Vicente tem 8 anos, e Benício, 1 – ficam por sua conta. Cansaço, sim; incômodo, nunca.

– Quando a Clara chega, recupero meu banco de horas de sono – diz. – Sou muito agarrado a eles. Gosto muito de participar, de fazer tudo: trocar falda, dar banho. É o que teoricamente é a parte chata, desgastante, de ser pai ou mãe. Mas que eu acredito que é onde você vai criando os vínculos mais sensíveis e profundos – avalia o cantor.

– É impressionante, ele dá conta geral. Quando eu fico sozinha é mais desesperador do que ele sozinho. Eu, pra colocar o bebê pra dormir, demora um século. Ele coloca uma música e já acalma – confirma Clara. – Mas quando a mamãe não tá rola muita pizza, hambúrguer e macarrão –  conta, rindo.

Para Qinho, é assim que se estabelece a dinâmica com os filhos. Mais que isso: limites e afetos.

– Essa intensidade da relação vai gerando uma parceria, uma intimidade, uma conexão muito forte. E às vezes eu sinto que pais que acabam tendo mais “regalias” – que têm uma tendência de terceirização dos filhos –, o vínculo fica um pouco mais enfraquecido. Fico cansado, fico exausto, mas pra mim é um pouco da graça da história: ficar cansado mesmo, usar minha energia pra estar ali – explica.

Há três anos Qinho tem colocado muita energia também num trabalho dedicado à obra da cantora Marina. Começou com um show, e o processo foi ganhando força: vieram um EP e, ano passado, um disco completo, lançado pela Biscoito Fino.

Fico exausto, mas pra mim é um pouco da graça da história: ficar cansado mesmo, usar minha energia pra estar ali

– Marina acompanhou tudo. Ela vibrou muito, gostou das versões e escreveu um texto muito bonito pro encarte – diz Qinho. A cantora também participou do lançamento em São Paulo. Recentemente, foram lançadas duas versões de músicas que não entraram em formato de voz e violão – no disco, estão presentes bateria eletrônica e teclado.

– Foi um trabalho bacana que levou meu trabalho a muita gente nova. Muita gente que acompanhava a Marina passou a me acompanhar também, e ao mesmo tempo soube que muita gente nova passou a conhecer o repertório da Marina – diz Qinho. – Agora estou voltado para um single inédito, retomando pro meu trabalho autoral, que ficou pausado – conta o cantor, que tem uma relação antiga com a Reserva.

Entre 2012 e 2013, a marca tinha um  espaço no Arpoador (a Reserva +) voltado para os jovens artistas, palco ocupado por Qinho na ocasião.

– Era uma alternativa, e rodou muita gente lá. Era um lugar que as pessoas já iam ver show, e os artistas tinham vontade de passar por ali. Tinha virado um palco da cidade. E isso é incrível, faz toda a diferença. Hoje estamos com uma crise de palcos enorme no Rio de Janeiro – avalia. O espaço, ao lado da galeria River, dava para a rua, e as pessoas simplesmente se juntavam. – Naquela época, desenvolvemos o Morro Acima juntos, com o pessoal do Cantagalo. Eu era o DJ residente do projeto e recebia convidados a tocarem, tanto como DJ como em formato de pocket shows, numa laje onde funcionava o Museu da Favela. Era um dos primeiros museus territoriais do Brasil – lembra.

De lá para cá, Qinho colocou muita música pras crianças dormirem. Gil, Caetano e Tim Maia muito mais do que Galinha Pintadinha e afins.

– Já sei identificar as vozes deles – garante Vicente – visivelmente satisfeito com os bons embalos recebidos.