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Carlos Tufvesson: em busca da ousadia masculina

Estilista diz que a última grande década de inovação na moda para homens completou um século

Por 2min
24 de fevereiro de 2020 Atualizado em 25/02/2020 às 17:51

Carlos Tufvesson é estilista e – como a mãe, a também estilista Glorinha Pires Rebelo –, notabilizou-se pelos vestidos de festa. Mas ele mesmo é adepto do discreto uniforme bermuda + camiseta com decote V.

— Sou muito básico. E nem toda moda é pra todo mundo. Eu, por exemplo, tenho a perna grossa, então não rola uma calça muito skinny – explica.

O sujeito básico, porém, tem um enorme repertório por trás. E acha que o homem deveria ousar mais.

— Se você notar, tá todo mundo aqui [olha em volta] vestido igual: calça 5-pocket e camiseta. O homem nunca se permitiu ousar. Aí tem duas questões: falta de informação de moda e insegurança. A gente é um país machista, cristão, que até pouco tempo achava que homem não podia usar rosa. E acha que isso está ligado à sua masculinidade ou não – afirma Tufvesson, que é casado com o arquiteto André Piva, milita no campo LGBT e comandou a Coordenadoria Especial de Diversidade Sexual do Rio na gestão do prefeito Eduardo Paes. – Tudo que era vaidade era considerado uma coisa feminina, como a emoção também. Então terminou que a moda masculina nunca se desenvolveu muito. Não só aqui, isso é um fenômeno bem mundial – diz.

O estilista masculino sofre bastante. A moda mais criativa foi de 1910, com o movimento modernista

 

Ele aponta que a última grande década de inovação na moda masculina completou um século.

— Acho que a vestimenta masculina, historicamente, desde o fim do século XIX, permite pouca variação. O estilista masculino sofre bastante. A moda mais criativa foi de 1910, com o movimento modernista. Os caras usavam um sapato de cada cor, um bico para um lado e outro bico pro outro – diverte-se.

Por outro lado, não sente nenhuma saudade dos cômicos anos 80.

— Foi a década do exagero. Você tinha ombreira, tinha camisa plissada. Foi a década mais feia da moda. As mulheres deixaram de queimar sutiã, mas precisavam demonstrar força pra entrar no mercado de trabalho. As roupas viraram uma couraça, uma armadura pra mostrar: “sou forte”. Foi um excesso de tudo.

Nos anos 90, Carlos Tufvesson foi para a Itália estudar Moda. Depois de formar-se na Domus Academy, em Milão, foi para Roma aperfeiçoar-se em Modelagem, que ele julga fundamental para quem, como ele, não desenha.

 

— A roupa deve servir pra valorizar o que tem que ser valorizado no corpo humano, e para suavizar o que deve ser suavizado. No caso da mulher brasileira, ela tem um quadril um pouco mais largo, a cintura muito fina. Se você suaviza isso na modelagem, você alonga o tronco, você diminui o quadril, são pequenos truques para suavizar a roupa. Como se fosse uma dieta de dois meses. A modelagem correta é fundamental – diz.

Foi na Itália também que se deparou com uma realidade totalmente diferente da brasileira, àquela altura: a produção nacional era totalmente inspirada nas de fora. Em uma palavra, cópia.

— Não dá nem pra dizer que havia uma identidade carioca. Quem não ia pra Europa copiava da revista Colezione, lembra. – Atualmente o Rio é um polo inspirador de moda. Antigamente, a gente ia pra Paris ver as mulheres andando na rua e fazia as coleções. Hoje as pessoas vêm ao Rio, porque a mulher carioca gera tendências de comportamento, a maneira que você usa uma roupa. O biquíni de lacinho nasceu assim, a canga nasceu assim. Alguém observou e fez – observa.

Ao voltar para o Rio, Tufvesson trabalhou como assistente da mãe. Mas logo enxergou uma nova cena surgindo.

— Tinha um negócio chamado Mercado Mundo Mix, que eu chamo de “o Cinema Novo da moda brasileira”. Era uma geração de estilistas que hoje frequenta o line-up do São Paulo Fashion Week e do Fashion Rio, quando existia. Mas eram pessoas que tinham ideias. De lá vieram grandes nomes.

Tufvesson faz parte dessa turma. Foi nessa onda que abriu sua marca, desfilou e vendeu bastante. Até chegar a 90 funcionários no ateliê e perceber que tinha se transformado num empresário.

— Aquilo tava me sufocando demais. Sabe qual é o problema? A moda não é vista como uma atividade comercial no Brasil. A gente não é entendido, não existe uma linha de financiamentos para este setor, que é o segundo maior gerador de empregos do Estado do Rio. Então a gente é visto como uma coisa de rico. E a costureira não sabe fazer obra, não vira pedreiro. Vai ficar desempregada quando a empresa quebrar – discursa.

Por outro lado, defende que as marcas façam de suas roupas, bandeiras.

— É legal a gordinha falar: “sou gordinha e sou bonita”. Por que tem que ser todo mundo 36? Isso aconteceu muito também com a galera da raça negra. Você não tinha identidades negras posando. Há uns três anos, Ronaldo Fraga fez um desfile historicamente lindo só com transexuais. E ficou lindo. Quando começou HIV no Brasil, nunca me esqueço, no desfile do Luis de Freitas, todo mundo com cartaz na mão, “queremos coquetel” – enumera. – Desfile não pode ser apenas pra mostrar roupa, senão vira showroom. Ele tem que mostrar uma mensagem. E a Reserva faz isso muito bem, questiona.