Ser

Crescer e viver

Júnior Perim nasceu numa palafita, catou caranguejo e criou um projeto social que exportou sua metodologia para 34 países

Por 2min
13 de Maio de 2020

Júnior Perim é de São Gonçalo. E, na cidade mais pobre do estado do Rio, ele nasceu há 48 anos entre os mais pobres, literalmente sobre uma palafita nos fundos da Baía de Guanabara.

Cresceu e viveu da cata de caranguejo dos 7 anos (logo depois de se alfabetizar) aos 11 anos, numa época em que não existia Estatuto da Criança e do Adolescente. Naturalmente, nesta época não frequentou a escola.

– Então um dono de abatedouro me convidou para trabalhar, e lá fiquei por três anos. Foi uma sorte porque me permitiu voltar à atividade escolar – diz Júnior, que só terminou o ensino médio com quase 30 anos. Nada disso o impediria, anos depois, de ser secretário municipal de Cultura – e com muita justiça, diga-se.

Logo depois da experiência no abatedouro, passou a levar ajuda para casa atuando como office boy de uma empresa de navegação que ficava na Lapa. Isso o permitiu conhecer a cidade (agora o Rio) como poucos. Nos tempos livres, frequentava a biblioteca do IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro), ali nas redondezas.

– Era muito perto do Circo Voador, e eu tinha desenvolvido uma estratégia de pertencer às coisas. Entrei numa de pertencer aos grupos punk e de rock’n’roll, porque não exigia roupa boa – lembra Júnior, rindo.

De tanto frequentar biblioteca, acabou estudando muito; isso o levou ao ativismo comunitário. Daí foi para o serviço público, embora não tivesse uma graduação. Dono de uma boa fluência verbal, nesse processo adquiriu habilidade para lidar com diferentes extratos sociais.

Tempos depois, foi parar na Unidos do Porto da Pedra, escola de samba de sua cidade natal. Chegou lá para desenvolver um projeto social dentro da escola.

 

Trabalhar como office boy me permitiu conhecer a cidade. Nos tempos livres, frequentava uma biblioteca próxima

– Explodiu logo de cara, com 5 mil beneficiários, de crianças a idosos fazendo diversos tipos de cursos, de dança, jiu-jítsu, cavaquinho… Deu tão certo que as empresas começaram a procurar a escola para apoiar, e acabou nascendo daí o Circo Crescer e Viver, em 2001 – lembra.

A escola de circo ficou grande demais para a escola de samba, e ganhou vida própria, na Praça Onze. Em 5 anos, ganhou prêmio da Unesco por sua metodologia, atualmente exportada para 34 países.

Começou a trabalhar com crianças em situação de rua e a ganhar novas perspectivas, com profissionalização através da arte.

– Incluímos também a oferta para outras camadas sociais, até para ampliar o repertório e, eventualmente, permitir a mobilidade social através de relacionamentos, como cheguei a observar – explica Junior.

Em 2014, num momento em que o projeto das UPPs parecia dar certo, através da escola foi realizado um festival de circo em todas as comunidades com UPPs, ao longo de dez dias, reunindo 250 mil pessoas de público.

Depois da passagem pela secretaria de Cultura (no período olímpico) e pelo Sebrae, na sequência, Júnior retornou à escola de circo, que começava a passar por dificuldades. Recolocou as coisas nos eixos. Hoje funciona como escola, produtora de festival e companhia artística. Diretamente, 300 crianças, jovens e idosos são diretamente beneficiados. Quase 200 mil pessoas por ano são atingidas.

Durante a pandemia, Júnior sai de casa para distribuir cartões de alimentação a 2.085 famílias em situação de extrema pobreza.

Sua história virou livro e filme.

E nos inspira neste lançamento de Sustentáveis.