Ser

‘Currículo é só um pedaço de papel’

André Corrêa, coordenador de RH da Reserva, diz que mais importante é a pessoa por trás daquelas informações

Por 2min
6 de Maio de 2020

“A gente aprendeu ao longo do tempo que o currículo é realmente apenas um pedaço de papel. Você precisa antes de tudo conhecer a pessoa que está por trás daqueles dados”. A frase é do coordenador de Recursos Humanos da Reserva, André Corrêa.

Funcionário da empresa há 12 anos, ele é a prova viva do que diz. Começou como vendedor na loja de Ipanema, sem muita manha no varejo. Observando colegas em quem via qualidades, dedicando mais tempo do que a média, escalou a empresa até se tornar um “notável” – nome dado, na Reserva, aos empregados que se destacam em suas funções, constroem um legado e são alçados à condição de sócio.

Entre outros projetos, André cuida do “Cara e coroa”, de contratações de pessoas com mais de 50 anos; o “Top Seller”, de premiação de vendedores; e o “RH Parceiro”, que identifica talentos que podem não servir à Reserva no momento, mas cairiam como uma luva em alguma outra empresa – e o empurrãozinho é dado. Ele também é responsável pela entrada de colaboradores de todas as outras empresas do grupo – Mini, Eva, Ahlma e Oficina.

– Eu era responsável por fazer as inaugurações, então viajei para todos os lugares do Brasil para inaugurar as lojas da Reserva. Numa dessas, recebi o currículo de uma pessoa que trabalhou quase 30 anos como digitador e estava em busca de uma vaga de estoquista. É comum você olhar para um currículo desse e descartar automaticamente, porque são duas coisas que não se falam – lembra.

Movido pela curiosidade, decidiu entrevistá-lo.

– Ele estava com uma dificuldade enorme de se recolocar. A função de digitador não existia mais, e ele estava fazendo faxina para conseguir sobreviver. Ainda por cima era homossexual, e a gente sabe que ainda existe, infelizmente, preconceito quanto a isso. Hoje esse cara está há cinco anos com a gente. Entrou como estoquista, fez um trabalho excepcional, foi promovido a caixa, e na ausência do gerente, hoje é o responsável da loja de Ribeirão Preto. Eu acho que esse é um exemplo de que o currículo significa muito pouco perto do que você pode encontrar na pessoa por trás dele – conta.

O próprio André se diz uma pessoa diferente, em relação ao menino de 25 anos que começou na então única loja da Reserva (a foto que ilustra este post foi feita lá em frente, bem antes da quarentena). Nascido no subúrbio, ainda criança foi para a Zona Sul, mas sofreu um baque quando a família passou por um período de instabilidade financeira. Mudaram-se todos para Barra do Piraí, no interior do Estado, e lá ficaram por três anos, até que a situação melhorasse.

Tinha uma cabeça totalmente diferente, com muita coisa pra consertar dentro de mim. A Reserva impulsionou esse movimento

De volta ao Rio, era o típico garoto que estava mais preocupado com a academia onde lutava do que com o que acontecia a seu redor.

– Tinha uma cabeça totalmente diferente, com muita coisa pra consertar dentro de mim. A Reserva impulsionou esse movimento dentro de mim, então passei a ter mais amigos homossexuais, passei a olhar para as diferenças de uma maneira mais atenta. E como eu tô há 12 anos aqui dentro, hoje me considero uma referência de transformação e faço questão de contar isso pra todo mundo. Porque a gente precisa falar o máximo que a gente conseguir pra pessoas como eu –  que há 12 anos atrás era completamente diferente –, falarem: “Opa! Tem alguma coisa errada ai!”.

O tal processo de transformação contou também com a ajuda de outra pessoa: Joaquim, o filho de 5 anos. Aliás, fruto de uma dessas viagens de inauguração, Brasil afora. Neste caso, em Brasília.

– Foi zero planejado, como dá pra imaginar, mas até nisso eu fui muito feliz. Porque eu não tinha pretensão nenhuma de ter filhos, mas me colocou num lugar que maturidade que eu ainda não tinha. E é uma das melhores coisas da vida – diz.

Neste período de quarentena, André tem trabalhado muito, isolado com a mulher, Bel.

– E em relação à Reserva, não estamos medindo esforços para garantir todos os protocolos de segurança em relação ao nosso CD e à eventual reabertura das lojas, quando for seguro, olhando no detalhe e indo além do que é exigido – diz.