Ser

Da tragédia à superação

Ricardo Allgayer conta como o acidente que lhe custou uma perna mudou sua vida - para melhor

Por 2min
26 de fevereiro de 2020

Imagine você dedicar a vida ao esporte, sonhar com um futuro em sua atividade e, tragicamente, perder uma das pernas num acidente. Aconteceu com Ricardo Allgayer quando tinha 22 anos e era jogador profissional de handebol. Caiu de sua moto e precisou ser amputado abaixo do joelho direito. Hoje, aos 37, ele não titubeia ao declarar:

— Se eu pudesse voltar atrás, gostaria que tivesse acontecido tudo exatamente como aconteceu. Mudou a minha vida pra melhor – diz. Pode parecer chocante, né? Mas está dentro da normalidade que Ricardo prega: “Desde o meu acidente, aceitei muito bem. Claro que tive o meu luto, mas procurei tratar da melhor maneira e ser o mais positivo possível”.

Filho de um professor de Educação Física, aos 17 anos ele deixou Porto Alegre para jogar handebol em São Paulo, pela Metodista. Na época, era da faculdade o melhor time profissional do país. Foi lá que ele cursou também Educação Física, antes de voltar ao Rio Grande, desta vez para defender a Uni La Salle, de Canoas. Quando o acidente aconteceu, naturalmente tudo se transformou.

— A partir de então mudaram meus horizontes, mas sempre mantive o esporte na veia. Pratiquei basquete em cadeira de rodas, handebol em cadeira de rodas, tive uma passagem muito breve pelo remo. Mas não me motivou pelo fato de ser um esporte individual, e eu gosto de contato, da briga. Aí descobri o crossfit – lembra.

Se eu pudesse voltar atrás, gostaria que tivesse acontecido tudo exatamente como aconteceu. Mudou a minha vida pra melhor

Para quem não conhece, crossfit é uma mistura de exercícios funcionais que unem força, resistência cardiovascular, agilidade e flexibilidade. Tudo isso em treinos de altíssima intensidade. A ideia de se jogar neste esporte extenuante teve relação com a gravidez da mulher.

— Pensei que precisava de algo que me desse força e condições físicas pra aguentar a energia de uma criança. As gerações de hoje estão vindo com uma energia interminável! – justifica. – Aí me apaixonei pelo crossfit. Não existia crossfit adaptado no Brasil quando comecei, só um ou outro atleta, mas muito pouco.

Para poder competir, Ricardo teve que buscar competições entre os “normais”, como diz, dando ênfase às aspas.

— Até que descobri uma competição nos Estados Unidos voltada ao pessoal que voltou mutilado das guerras, sobretudo as do Iraque e do Afeganistão. Foi em Washington, em 2016. E o crossfit é americano, então já tem uma cultura lá. Participei, competi, aprendi. Voltei pro Brasil e comecei, com outros colegas, a desenvolver a categoria adaptada no Brasil – conta. Hoje há entre 50 e 60 atletas nas três categorias (deficiências nos membros superiores, nos membros inferiores e cadeirantes). Ricardo foi campeão de uma prova recentemente, realizada pelo Bope de Minas Gerais.

— O crossfit adaptado já é uma realidade no Brasil – vibra.

Para Ricardo, tratar tudo com normalidade é a fórmula para superar as adversidades. Isso vale até mesmo para a escolha das roupas.

— Chegar numa loja pra escolher roupa é normal. Procuro as coisas que mais me atraem, que eu mais gosto, e o que veste melhor em mim. Por conta da falta da perna, às vezes uma calça fica melhor que a outra, dependendo do caimento, do corte – diz. Ele lembra, porém, que nem sempre os vendedores das lojas têm a sagacidade de perceber que a normalidade precisa ser a tônica também nessa hora. – As necessidades de pessoas com deficiência são as mesmas. Existe um mais gordinho, um mais magrinho, com estatura maior ou menor, então a roupa vai vestir todo mundo, não tem jeito, ninguém anda pelado na rua. Tem que sentir a pessoa, saber chegar, e a coisa flui. Existem pessoas que ainda estão vivendo seu luto. Mas não tem que tratar como se fosse um extraterrestre. Eu ouço muito cadeirante dizer que vai numa loja com a esposa e o vendedor pergunta as coisas pra esposa. Não, pergunta pra ele! Ele ficou numa cadeira de rodas, não ficou com algum tipo de problema mental que não consegue mais responder a uma pergunta, ou não tem mais gosto – ensina.