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Daniel Barra: empreender por qualidade de vida

Formado em Engenharia, ele trabalhou no mercado financeiro e hoje comanda a própria startup

Por 2min
24 de fevereiro de 2020 Atualizado em 25/02/2020 às 17:50

Quando se formou em Engenharia pela Unicamp, Daniel Barra tinha um objetivo bem claro: entrar para o mercado financeiro para ganhar muito dinheiro.

— Ganhei muito trabalho e muitos quilos. Cheguei a 110 aos 32 anos – conta.

Baiano, tinha ido para Campinas na companhia dos irmãos – todos moravam nos alojamentos da universidade –, e não tinham dinheiro para nada.

— Era uma vida legal, mas cheia de privações. Eu tinha dinheiro pra cerveja ou pro amendoim. Na hora que eu me formei, tinha dinheiro pra cerveja, amendoim, batata frita e calabresa todos os dias. Aí me esbaldei. E eu adoro gastronomia. Pelo menos eu tenho muita curiosidade pra conhecer coisas diferentes em gastronomia. Então a gente conheceu muitos restaurantes. Cada semana a gente comia em um ou dois. Não sei se dava pra comprar um apartamento, mas alguma coisa poderia ter comprado com o dinheiro desses restaurantes que a gente frequentou – lembra, explicando por que a parte de ganhar peso foi a mais fácil e bem-sucedida. – Fui ganhando peso, ganhando peso, meu lazer era comer. E aí, com 32 anos, olhei no espelho e comecei a me incomodar. “Não dá mais”. Procurei nutricionista, fui fazer academia, reeducação alimentar, reequilibrei a vida com exercício e comida adequada, teve um impacto muito grande na minha vida.

Empreender foi o caminho que eu achei pra conseguir tomar café da manhã todos os dias com minha família

A essa altura, Daniel já havia conhecido Juliana, a mulher por quem é “doido até hoje”. Há três anos, tiveram uma filha, Ana.

— É o melhor trabalho do mundo. A gente não ganha nada de dinheiro, faz hora extra todo dia e não reclama – resume.

A paternidade tem sido para Daniel a oportunidade de “reaprender o papel do homem, desconstruindo machismo, homofobia, tudo, pra tentar ser uma pessoa melhor, porque acho que o filho também vem pra dar um sacolejo pra gente pensar qual é o mundo que a gente quer ajudar a construir pra eles”.

Trocou o mercado financeiro pelo de seguros. Foi quando começou a empreender. Montou uma corretora. E, há nove meses, uma startup, à qual tem se dedicado inteiramente. A Suridata trabalha com data analytics para planos de saúde e tem empresas como clientes finais.

Toda essa volta – a questão do peso, do trabalho, da família – era para dizer que, depois de focar em ganhar dinheiro, mudou o foco para ganhar mais qualidade de vida. E um item improvável foi fundamental nessa equação: a barba. Sim, a barba.

— Comecei a me sentir menos feio, ou mais bonito. E deixei a barba crescer. E aí nesse momento eu criei um Instagram pra falar sobre visitas a barbearias. Fui um dos primeiros, ou talvez o primeiro a fazer isso, lá em 2015 – lembra. Hoje com 40 anos, 1,79m e 85kg, Daniel descobriu por conta própria que “barba é diferente de cabelo”, requer atenções especiais.

A mulher sugeriu que Daniel criasse um blog sobre o tema. “Quem lê blog é mulher”, primeiro ele pensou. Mas uma amiga fotógrafa que estava junto na hora da ideia se empolgou e botou pilha, interessada em retratar o ambiente vintage das barbearias que voltavam a surgir. E assim nasceu o Blog da Barba.

— Comecei escrevendo sobre as barbearias que a gente visitava. Como era a experiência, o serviço, o café, a cerveja artesanal daquele lugar. Isso ganhou um corpo e, um ano depois, mais ou menos, alguém resolveu fazer um programa de TV chamado The Best Barber Brazil. Aí esses caras começaram a buscar um apresentador, e várias barbearias em SP me indicaram. Fui fazer um teste, passei. Era um reality show, eu era o Justus do programa. Do meu lado ficavam três técnicos que eram barbeiros famosos. Eu era o cara que falava assim: “Você acredita que você tá honrando sua profissão com esse trabalho? Você tá feliz com isso?“ – conta, entre risadas. – Fui orientado pra fazer isso, foi divertido criar esse personagem. E acabei criando um canal do Youtube pra ser um laboratório daquilo, pra eu passar menos vergonha. E hoje meu maior hobby é gravar pro Youtube.

Há um ano e meio o canal e o blog passaram a se chamar apenas Daniel Barra. Ele acha que passou a ter mais liberdade para explorar outros temas, como moda masculina, gastronomia, viagens, paternidade, empreendedorismo. O hobby consome de 5 a 10 horas semanais, e é assim que ele alimenta os 48 mil inscritos no canal e os 45 mil seguidores no Instagram.

— Empreender pra mim foi o caminho que eu achei mais adequado, ou menos pior, pra conseguir tomar café da manhã todos os dias com minha família. Então eu volto mais cedo pra casa, estou trabalhando mais em casa. Aconteceu inconscientemente, mas hoje olho pra trás e me parece óbvio que foi isso – diz. – Hoje é mais fácil escolher uma roupa porque entendo de paleta de cores, de ajustes, tenho menos preconceitos. Essas coisas também foram sendo desconstruídas a partir do momento em que passei a ter mais curiosidade sobre moda, a entender o que é roupa de homem. De vez em quando eu uso roupa da minha mulher e está tudo bem. Roupa de homem é aquela roupa que o homem se sente bem ao vestir. Acabou. Se ele se sentir bem usando algo colorido, é de homem. Se a calça estiver mais pra cima e a camisa mais ajustada, se tornou roupa de homem. Então é o que o cara quer usar.

E fim de papo.