Ser

Desafiando o silêncio dos homens

O jornalista e fotógrafo Ismael dos Anjos pesquisa masculinidades em busca de novas maneiras de ser

Por 2min
24 de março de 2020

“Meu nome é Ismael dos Anjos. Sou jornalista, fotógrafo e pesquisador sobre masculinidades.

Como jornalista, trabalhei bastante tempo em revistas, falando sobre masculinidade também. Eu tive interesse na área porque acho que todo mundo que trabalha com masculinidade tem no mínimo alguma questão com pai ou questão de não se entender muito no mundo. Meu pai tem uma origem muito humilde, de quem se virou, passou fome, depois conseguiu estudar, trabalhar, com ajuda da família, mas é um cara que não falava muito sobre sentimentos. Um cara mais duro. E eu sempre fui muito sentimental, chorão, manteiga derretida. Eu tentava ser o homem que eu via em casa mas não conseguia, então era muito frustrante pra mim. Ele conseguiu me oferecer uma vida que ele não teve, e eu tive a chance de olhar pra mim.

Naquela época as revistas masculinas me atraíam porque eu pensava “ah, é isso que um homem tem que ser”. Pra mim era impossível, mas eu tentava. Quando eu entrei na Abril, fiz um projeto experimental com a Playboy, depois escrevi e publiquei na VIP, fiquei um tempo fixo na Alfa, por uns 3 ou 4 anos, mas aquilo ali não funcionava pra mim. Fiquei até o momento em que eu tentei emplacar uma capa com o Lázaro Ramos. E o cara falou que “negro não vendia”, e aí eu fui entender por que eu tava ali há um tempão sem ser contratado, um monte de gente sendo contratado na minha frente. Entendi que certas coisas vão antes de mim.

Até então eu sempre deixava meu cabelo raspada. Eu brinco que quem é negro de pele clara tem às vezes a sensação de conseguir passar sem que isso seja uma questão, mas não.  Então foi quando eu deixei meu cabelo crescer, deixei de raspar. As pessoas fazem uma leitura: “Ah esse menino é assim, esse menino é assado” antes de eu falar qualquer coisa, então vou me assumir, vou me sentir mais à vontade com isso.

 

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Então eu fui trabalhar com masculinidade, trabalhei um tempo no Papo de Homem, depois voltei e fiz o filme “O Silêncio dos Homens” com eles, e aí fui entender que aquele modelo de masculino que eu tinha não servia pra mim. A primeira característica que a gente vê nas revistas é um homem branco, bem sucedido, coisas que não eram possíveis pra mim. Assim, se eu fosse trilhar um caminho, teria que ser um outro.

Fui mudando meus referenciais. Em paralelo a isso apareceu a fotografia, que talvez seja o que eu mais amo fazer. Tenho mestrado em fotografia documental, e é o que eu gosto mais, então eu fotografo muito as questões relacionadas à desigualdade, questões sociais, crimes ambientais. Eu produzo um trabalho fotográfico em torno de contar histórias que não são contadas. Já publiquei na BBC, já fiz algumas exposições, já publiquei em revista também, na Galileu.

Fiz com amigos uma série documental chamada “60 anos do Grande sertão, Veredas”, que teve uma exposição durante um mês em SP. Nós rodamos todos os caminhos, imaginários e reais, que inspiraram a obra. Já tinha feito um sobre o crime de Mariana em 2015, que também virou uma exposição na rua e no Ibirapuera. Eu fui a Mariana um mês depois do ocorrido, que foi quando os bombeiros deixaram as pessoas de Bento Rodrigues entrarem oficialmente nas casas. Se chama “Depois da lama” e foi um trabalho focado nos rastros que a lama deixou. É um trabalho que tem foto das marcas da lama, tudo que ficou pra trás. Tenho trabalhado mais com essa parte documental, trabalhos de mais longo prazo.

Eu não uso a palavra masculinidade, só “masculinidades”, no plural, porque eu acho que não tem nenhuma novidade em ser homem. Por muito tempo martelamos a masculinidade no singular, e que não servia pra todo mundo. Os homens gays não se enquadravam, LGBT em geral não se enquadravam, os trans, os homens negros não eram considerados, até pouco tempo atrás éramos tratados como animais. Agora nós estamos num lugar de deixar que masculinidades, no plural, existam, que existam outros referenciais possíveis pra esse homem, questionando o que é ser bem sucedido, reimaginando que é isso e também o que é o lugar de pai na sociedade. Não é só ser provedor, o pai tem outras responsabilidades.

Eu gosto de olhar pra isso de uma maneira bem orgânica, eu acho que os homens sentem dores e causam dores de uma maneira muito profunda. A maioria dos problemas sociais que nós temos no Brasil é ligado com alguma noção de masculinidade que ou é errônea ou em grande quantidade pode virar um problema, tanto na questão do poder quanto exercer assédio ou violência contra a mulher.

Os homens sentem e causam dores de maneira muito profunda. A maioria dos problemas sociais é ligada a alguma noção de masculinidade

Nós somos o 5º país no índice do feminicídio. quanto também no olhar pra si: os caras que reprimem todas as emoções não conseguem nem identificar o que estão sentindo e deixam extravasar por outras pessoas. Então eu acho que minha luta é nesse sentido, tanto o silêncio dos homens quanto outros ativismos em relação à masculinidade, tem um caminho de tornar outras referências possíveis. Espero que meu filho cresça sabendo que homens podem ser muitas coisas e sem esquecer as responsabilidades que isso traz consigo.

Minha relação com meu pai tem sido cada vez melhor, me sinto mais à vontade na minha própria pele. Eu perdi minha mãe recentemente e eles fez questão de estar na estreia do filme, viu do meu lado, ficou alegre ao ver a realização. Acho que agora nós temos uma base comum de conversa, nem que seja porque ele assistiu ao filme e sabe o que eu penso e no que acredito, ele sabe pra onde eu tô indo, no que tô pensando, acompanha a maneira que eu crio meu filho.

Eu, como filho, fico feliz em entender mais de onde ele vem, de que maneira se construiu como homem, quais são as coisas que ele passou. Está caminhando cada dia melhor, com mais paciência, mais calma e entendimento.

Eu sempre falo que quando a gente é pai, a cada bronca que a gente vai dar tem um espelho na nossa frente, temos a escolha de fazer exatamente como fizeram com a gente ou fazer diferente, nem que seja pra errar, nós temos a chance de errar diferente. É um chance de revisitar o homem que eu sou, que eu quero ser e tentar outras maneiras de ser.”