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Ele não usa Whatsapp

Bruno Honda, designer da Mauricio de Sousa, lança lojinha na Reserva INK com seu trabalho autoral

Por 2min
6 de abril de 2020

Bruno Honda antecipou-se em quase seis anos à rotina de quase todo brasileiro em quarentena. Desde 2014 ele atua em home office, em São José dos Campos. Vai duas vezes por semana (ou melhor, ia, até a pandemia começar) até São Paulo, onde é designer-chefe da Mauricio de Sousa Produções. Por incrível que pareça, ele faz a gestão de sua equipe sem dispor de Whatsapp no telefone. Isso mesmo: Bruno não tem o aplicativo no celular.

– Percebi a quantidade de horas que seriam perdidas respondendo a cada mensagem no Whatsapp. Uso muito o Skype, mas no horário comercial. No Whatsapp a galera tem muito menos vergonha, manda mensagem 22h, 23:30h e te cobra resposta – explica. Por mais que tenha muita lógica, a resistência de Bruno ao aplicativo ainda causa espanto. – Parece até que eu matei minha mãe – compara, divertindo-se.

Não é birra com o zap. O próprio Instagram, rede preferida de artistas, fotógrafos e afins, não conta com a audiência de Bruno.

– Fiz essa dieta porque estava passando muito tempo em tela. Mesmo quando faço postagem [no LinkedIn e no Facebook, que ele ainda frequenta], é no tempo que estou disponível no desktop. Assim o celular não vira um posto avançado da sua vida digital, e então é muito mais fácil eu controlar o tempo que eu gasto – avalia.

– A gente tem essa percepção de que a vida passa muito rápido, e ela de fato passa rápido, mas a internet trouxe pra gente uma urgência que a gente acha que ta perdendo janela de oportunidade em tempo integral. E estamos perdendo, mas talvez não faça tanta diferença como a gente acha que vai fazer – conta o desenhista, hoje muito mais ocupado dos três filhos e da primeira neta, que chegou quando Bruno ainda não havia completado 40 anos.

E é nas horas vagas – que ele já não perde mais à toa, “em tela” – que ele põe pra fora o hobby de ilustrador de estampas, à venda em sua lojinha na Reserva INK.

– Antes de tudo o que me define é a relação com as pessoas que eu amo, é ser pai, marido, ser filho, ser amigo. Estou designer, ilustrador, artista plástico. Tem a parte de estamparia que é o que eu to tocando na Reserva INK, mas meu trabalho lá é 100% autoral. O trabalho que tá lá é o que eu gosto de fazer mesmo, é o que faço nas minhas horas vagas – diz.

A gente tem a percepção de que a vida passa muito rápido, e ela de fato passa rápido, mas a internet trouxe pra gente uma urgência  em tempo integral

A essa altura já deu para perceber que Bruno é um tremendo gente boa, né? Enquanto se diverte com sua arte, não é diferente no trabalho formal. Na Mauricio de Sousa, compreende o poder da contação de histórias e da múltipla representatividade na formação das crianças.

– O Mauricio sempre entendeu que a história mais universal que existe é quando você conta a história em respeito às diferenças. E dá para potencializar o nível de representação. Tem um trabalho muito legal com o personagem Jeremias, que depois de 50 anos foi aprofundado numa graphic novel feita pela Mauricio de Sousa Produções que se chama “Pele”, que fala de questões de racismo. O Jeremias de repente ganhou 100 outras camadas – orgulha-se. Da mesma forma, Bruno lembra que surgiram personagens como Milena, também negra, um deficiente visual, um mudo, um com Síndrome de Down, entre outros.

Como se não bastasse o trabalho de ilustrador de estampas e o de designer-chefe da Mauricio de Sousa (que “é como se fosse um start up, com núcleos de inovação”), ainda sobra tempo para se dedicar a outro projeto, a Retrorreciclagem.

– Faço uma reinvenção com objetos descartados pra levar a reflexão de que nem tudo que a gente descarta é descartável de verdade. Eu pego pote de shampoo e faço pequenas crônicas e ensino como a criançada pode pegar o pote de shampoo e transformar num personagem – conta Bruno, que leva sua mensagem adiante em escolas públicas e particulares.

E aí, não deu vontade de deletar o Whatsapp também?