Ser

Ícaro Silva em busca da liberdade

"Ser negro no Brasil te coloca numa condição de embate", diz o ator, cantor e escritor

Por 2min
25 de fevereiro de 2020

Ícaro Silva é ator, cantor, escritor, 32 anos. E já são 24 de carreira. Ele começou aos 8 anos de idade, quando lançou seu primeiro livro, a coletânea “Três histórias de Ícaro Silva”.

— Eram sobre bichos e lugares, dimensões mágicas que eu imaginava. Sou bastante criativo, tenho a cabeça bem independente da Terra. Me sinto até meio preso no planeta de vez em quando. Minha cabeça vive fora daqui – diz ele, fã de séries como “Stranger Things” e “Sabrina”. – Acho que tenho uma cabeça meio adolescente pra série. Gosto dessas mais fora da realidade. Sou muito sensível, o audiovisual me toca muito, então os seriados lúdicos me pescam mais.

Espiritualizado (“fui batizado católico, mas isso mais me aprisionou do que apresentou respostas”), mas também interessado em ciência, segue em busca de respostas para justificar a existência terrena. Em todo caso, não tem dúvidas de que seu papel no mundo é conectado à criatividade. Depois da estreia como autor, Ícaro passou a se dedicar às carreiras de ator e cantor – e a ser reconhecido por elas.

— Só sei fazer arte – afirma. – Gosto muito de pessoas, de encontrar e trocar. De ler, saber como as pessoas pensam, onde concordam e discordam. Sou interessado nas histórias das pessoas, então sou um leitor voraz. Leio tudo – diz ele, que no momento está entre “Sapiens – uma breve história da humanidade”, de Yuval Harari, “A sociedade dos sonhadores involuntários”, de José Eduardo Agualusa, e “O que é encarceramento em massa”, de Juliana Borges. – Tenho a péssima mania de ler várias coisas ao mesmo tempo.

A masculinidade é uma instituição muito fácil de ser destruída

Em termos musicais, Ícaro se considera “superalienado das tendências”. Conta que tem ouvido sem parar a coletânea Disco Club, de Tim Maia.

— Tô sempre conhecendo um artista novo que todo mundo já conhece porque nunca vou atrás do que tá rolando agora – conta. Sua última “descoberta” é a dupla Chloë Moretz e Halle Bailey. Em sua última novela, “Verão 90”, Ícaro interpretou um cantor de lambada, Ticiano.

— O figurino me ajudou muito. Ele era um cara supermasculino, heterossexual, mas que usava camisa cropped, e não tinha o menor problema com isso. Achava um barato ver que ele era assim, com a masculinidade muito desconstruída, porque é um lugar muito frágil pro homem, a masculinidade é uma instituição muito fácil de ser destruída, e no lugar dele, não, tava ali intacta. Rebolava, usava roupas apertadas, mostrava a barriga, e o figurino me ajudou a compor o personagem.

Na vida real, Ícaro prefere roupas mais confortáveis. Embora não se considere “militante”, pelo peso da palavra, o artista entende que, “por ser negro no Brasil, naturalmente você está numa condição de embate”. E isso se reflete no seu armário.

— Minha essência, no geral, é a busca pela liberdade. Talvez seja uma busca ancestral, eu não sei, mas minha vontade é de ser livre cada vez mais. Então, quando me visto, liberdade é um fundamento da minha escolha, de como enxergo a moda. Quero sempre conforto. Já fui muito de me ligar em tendências, marcas. Hoje eu gosto do que é confortável. Concordo com a Glória Kalil quando diz que chique é ser simples.

Existem exceções, claro. Muito bem-vindas, por sinal:

— Quando você vai a um prêmio, quer estar na beca. Alguns lugares pedem um dress code, e me submeto a ele porque entendo o papel disso: existe a beleza de estar bem vestido para uma ocasião especial, de se colocar como um embrulho. Mas isso não pode ser uma prisão.

Liberdade, sempre.