Ser

Muito mais que apenas um tijolo

Raphael Brick não se enquadrava na escola militar, onde pela primeira vez se defrontou com o racismo

Por 2min
10 de abril de 2020 Atualizado em 13/04/2020 às 13:25

Raphael Santos sempre foi baixinho e troncudo. Como é típico da molecada, ninguém perdoou: na escola, virou Tijolo. Filho de um militar que também era sambista, nasceu na Zona Norte, mas sempre frequentou a Zona Sul, por causa da família paterna. Num lado da cidade, era considerado “muito preto”. No outro, “esbranquiçado demais”.
– Cheguei a ter crise de identidade. E demorei pra entender que isso era um trunfo, e não o contrário – celebra Raphael, hoje mais conhecido como Brick. O “Tijolo” da infância ganhou tradução para o inglês quando resolveu tornar-se DJ de trance. – Tentei ser o DJ Tijolo, mas os amigos disseram que parecia mais DJ de funk. Aí virei Brick – conta ele, hoje designer da Reserva.

Depois de viver a dicotomia Norte/Sul, branco/preto, militar/músico, Brick já se acostumou a altos e baixos – chegou a enfrentar uma depressão profunda num desses baixos –, e hoje está mais devagar.

– O trance que eu tocava era 145/148 bpm, ai depois fui descendo pra 120. Hoje em dia, eu gosto de tocar disco, que é 90 bpm – compara.

Fiquei um ano sem conseguir trabalhar, foi um período sombrio

A desacelerada talvez tenha a ver com o nascimento do filho – Jamal Bernardo tem 9 meses –, um sonho antigo que foi realizado sem muito planejamento. Para se ter uma ideia, ele passava por entrevistas com uma agente de imigração australiana quando recebeu a notícia de que seria pai. Tudo mudou – de novo. Na relação com o pequeno, uma das preocupações é com o preconceito. Brick conta que a primeira vez que passou por isso foi quando entrou para o Colégio Militar. [Na vitrola, agora toca Pink Floyd, e justamente com “Another brick in the wall”: “When we grew up and went to school / There were certain teachers who would / Hurt the children in any way they could”].

– Meu pai morreu quando eu tinha 8 anos. Aí tinha aquela coisa de criança, de querer seguir os passos dele. E lá tinha um comandante que era negro. Só que ele pegava no pé de quem era negro. Os primeiros episódios de preconceito que sofri foram com ele. Foi um negócio bem complicado, inclusive fui convidado a me retirar do colégio por causa dele – diz. – É muito difícil você conseguir manter 100% de confiança, autoestima e segurança. Porque você nasce com uma geladeira nas costas. Enquanto tá todo mundo andando aqui levinho, alguns com ultraleve, a gente tá com a geladeira nas costas. A geladeira nas costas é a cor na pele que a gente carrega – compara.

Atualmente, Brick faz parte de um grupo no Whatsapp “só de pais pretos”, que o ajudam a lidar com a situação no dia a dia. Grupo que ele conheceu através de outro, formado por publicitários negros. Formado em Comunicação Social, Brick trabalhou com Publicidade antes de se tornar designer autodidata.

– O primeiro trabalho na área criativa foi num estúdio de fotografia, com fotógrafos sensacionais. Cheguei lá de “aspira”, recortando imagem. Mas foi muito enriquecedor, embora não ganhasse absolutamente nada – lembra.

Graças à ajuda financeira da avó, tocou adiante. A morte dela, tempos depois, foi a responsável pelo período de inércia, em que praticamente se recusava a sair de casa. Encontrou ajuda no espiritismo.

– Fiquei um ano sem conseguir trabalhar, foi um período sombrio. Saí porque se eu não fizesse nada por mim mesmo, ninguém mais poderia fazer.

E Brick, o DJ que foi “criado com um cavaco na mão”, recitou o samba de Jovelina Pérola Negra: “Foi ruim à beça / Mas pensei depressa / Numa solução para a depressão”. Da mesma forte que veio, passou. “Malandro desse tipo / Que balança mas não cai / De qualquer jeito vai / Ficar bem mais legal / Pra nivelar / A vida em alto astral”.

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