Ser

O cara fashion encontrou sua identidade

O blogueiro Fabiano Gomes conta a transformação pela qual passou em busca de si mesmo

Por 2min
24 de fevereiro de 2020 Atualizado em 25/02/2020 às 17:50

Fabiano Gomes tem 32 anos. Até os 28, nunca havia visto o próprio cabelo. Tinha aprendido, ainda criança, que não era bonito negro de cabelo grande.

— Ensinam isso pra gente. Mas um dia eu pensei: “Qualquer hora eu fico careca de verdade e nunca vi meu cabelo”. Deixei crescer.

A inspiração veio da irmã, dona de uma vasta cabeleira cacheada, linda. Para alegria de Fabiano, o dele veio igual. Foi a deixa para que “o cara fashion”, blogueiro de moda desde 2012, passasse a incluir o tema beleza em seus posts. De quebra, empoderou-se o bastante para passar a militar na causa negra.

— Foi aí que enxerguei minha identidade e vi que poderia trabalhar com isso. Foi uma libertação – conta.

A descoberta da identidade foi responsável por uma profunda e relevante mudança profissional:

— Quando comecei a trabalhar com moda, me vestia da forma que eu achava que tinha que me vestir, de acordo com as tendências, e que as pessoas iam me aceitar por isso, e que por causa da moda eu ia me sentir inserido. Quando quebrei esse paradigma, junto com o cabelo, vi que as pessoas prezam pela identidade. No mundo de hoje a gente não consegue mais ter espaço para ser simplesmente alguém que se monta de acordo com a tendência.

Outro tema que lhe é caro, a causa LGBT, aflorou em suas postagens no mesmo período, embora sua libertação como gay tenha vindo antes da descoberta como negro.

Enfrentei bastante preconceito. Eu era blogueiro de cantinho

— Desde que me aceitei como gay, em 2007, já foi libertador. Isso nunca foi um tabu no blog, mas comecei a falaobre isso mais ou menos junto com o cabelo. Percebi que isso inspirava as pessoas também – diz.

Fabiano cobra que a mídia, assim como novelas e filmes, inclua mais representantes negros. Por outro lado, reconhece que a moda já tem dado mais atenção à causa.

— Hoje a moda abraça bastante tanto a causa LGBT como o movimento negro. Mas abraçar causas por motivos comerciais é ruim – alerta. – A Reserva trabalha bastante com a diversidade. É importante ver todo mundo se identificando com as campanhas. É muito chato quando a gente vê aquelas campanhas só com modelos altas, brancas e magras.

Embora a situação tenha melhorado, Fabiano não esquece os momentos difíceis, de lá atrás:

— Enfrentei bastante preconceito. No início, os blogueiros que estavam fazendo sucesso eram pessoas que eram brancas. Eu era blogueiro de cantinho, nos eventos, pra fazer meu trabalho – diz.

E se antes se vestia de acordo com as tendências, hoje seu humor é soberano na escolha das roupas:

— Me arrumo da maneira que estou me sentindo. E também escolho pelo conforto, porque ando o dia inteiro na rua, às vezes saio de casa às seis da manhã e só volto meia-noite – afirma. -Acho que as pessoas abriram mão daquela coisa do homem-pavão para uma coisa mais despojada mesmo – festeja.

Gostou? Ótimo. Não gostou? Problema seu!

— Minha mãe me aceitou quando tinha 16 anos, ficou grávida e decidiu me ter. A questão não é aceitação, é o respeito. Você pode não concordar com a minha sexualidade, mas isso já é um problema seu, até porque eu não abraço o problema que as pessoas têm comigo. Na vida a gente aprende – encerra a questão o cara fashion.