Ser

O doutor do Jacarezinho

Joel Luiz Costa, nascido na favela, hoje mantém um escritório de advocacia e um curso pré-vestibular por lá

Por 2min
15 de Maio de 2020

Joel Luiz Costa é cria do Jacarezinho, e nunca ficou longe de sua gente. Até os 7 anos, morou na favela com sua avó Nica, que era analfabeta. Depois, foi para o interior, onde ficou por 15 anos. Mas voltava a cada férias ou fim de semana, pra visitar a família. Hoje advogado criminalista, ama a comunidade a ponto de tê-la tatuado no braço direito, e mora no bairro do Jacaré, a apenas uma quadra de onde nasceu.

– Meus laços sempre foram daqui. É muito intenso e real – diz.

Ao ser aprovado na faculdade de Direito, deu um drible na própria história: filho de um traficante, tinha combinado com o pai que “quando ele tivesse um filho formado advogado”, ele iria largar o crime. E assim foi.

– Tenho noção de que não sou um exemplo de homem negro da periferia. Graças à condição financeira do meu pai, sempre estive numa posição diferente da dos meus amigos – explica. – E se eu não fizesse nada, a oportunidade que eu tive não faria sentido: seria como um homem branco do asfalto.

Para não ser esse “homem branco do asfalto”, Joel decidiu que seu escritório seria na favela, assim como um curso pré-vestibular criado por ele para os jovens do Jacarezinho.

– O que me tira da cama é isso, sem querer romantizar a parada – conta.

 

Penso que os moleques que eu defendo são como eu. Qual a diferença entre nós? A oportunidade de ensino que eu tive

Em sua atuação como advogado, observou que “o mundo jurídico é um universo muito branco e punitivista”. Depois de fazer concurso para delegado federal, percebeu que ficava mais feliz indo na contramão. Especializou-se em Direito Criminal, e garante: não há sensação melhor do que tirar alguém da cadeia.

– São 763 mil presos no sistema penitenciário, sendo 40% deles provisórios. Nem tudo vai se resolver com prisão. Penso que os moleques que eu defendo são como eu. Qual a diferença entre nós? A oportunidade de ensino que eu tive. Por isso criei o pré-vestibular, que é uma possibilidade de pagar por esse privilégio – avalia.

O pré-vestibular nasceu como um curso de alfabetização para adultos e idosos, com o nome de Nica – o mesmo da avó –, mas como sigla para Núcleo Independente Comunitário de Aprendizagem. Já como pré-vestibular, reuniu 25 matriculados no primeiro ano, em 2019.

– Depois caiu para 12 alunos. Mas terminamos o ano com quatro aprovados na Uerj – vibra Joel. – A partir daí, deu uma bombada, e este ano tivemos 92 inscritos. Tivemos que selecionar 30 – diz.

Por conta da pandemia, foi instituído o ensino à distância neste momento, além de apoio psicológico.

No fim do ano, sua história será contada num documentário na TV Futura.

– Vão pegar 12 personagens históricos negros e vão vincular com personagens atuais. Meu episódio serei eu e Luis Gama, patrono da Abolição – diz.

Por ora, ele é uma das inspirações para nosso lançamento de Sustentáveis, como o Júnior e o André.