Ser

O indomável Caio Junger

Designer conta uma história de conflitos com o pai que termina em final feliz para todas as partes

Por 2min
14 de abril de 2020

“Meu nome é Caio Junger, tenho 32 anos e há 6 trabalho na Reserva.

Sou formado em Desenho Industrial, mas antes comecei o curso de Belas Artes na UFRJ. Meu pai é oficial do Bope, e sempre quis que eu fosse militar também. Então quando fiz vestibular para Belas Artes também fiz para a Escola Preparatória de Cadetes do Exército – era o que ele queria que eu fizesse.

 

A diferença entre nós dois é bizarra. Parece que a relação com meu pai é karmática, às vezes acho que a gente tinha que escrever um livro sobre isso. Mas ao mesmo tempo em que ele queria que eu fosse militar, ele tem um dom artístico que ele nem sabe que tem. Ele faz modelismo como hobby, é um artista. Comecei a pintar por causa dele, moleque. Minhas primeiras memórias de desenhos são de tanques de guerra. Ele desenhava paraquedistas saltando para mim.

Ele sempre disse: “No Bope a gente faz guerra de verdade. Quero que você tenha segurança. Se você for oficial do Exército, vai sair da escola ganhando R$ 5 mil; quando tiver 30 anos vai estar ganhando R$ 15 mil…  E o Brasil não vai entrar em guerra, você vai brincar. Depois faz uma faculdade de arte, o que quiser.”

Passei para a escola do Exército, mas acabei indo para Belas Artes. E ele quase chorou. “Sua mãe é cabeleireira. Você mora em Marechal Hermes. Como quer ser artista plástico?”. É engraçado como é pai… Hoje eu vejo que isso tudo era com o intuito de me proteger e querer o melhor pra mim, pela vivência dele. Só que aquilo foi um corte no meu coração. Mas banquei a história. Não fui, e ele ficou louco.

Fiquei um pouco em Belas Artes e depois mudei para Desenho Industrial, que eu nem sabia que existia. Quando eu já estava no curso, meu pai conseguiu um estágio para mim numa fábrica de paraquedas. Funcionava dentro de um quartel, eu era o único civil da parada. No final, estava fazendo reergonomia dos materiais militares. Porque eles traziam as referências da gringa, reproduziam aqui, mas o padrão dos soldados brasileiros é diferente. Tudo tinha que rolar uma ergonomia pra diminuir os produtos. Nessa eu trabalhei direto com as costureiras, e elas me ensinaram a fazer modelagem em acetato. Elas planificavam as mochilas e eu ia desenhando, pedaço por pedaço. Tudo na mão.

Só que aquilo me aproximou da Moda. E o segundo tiro no meu pai foi quando entrei pra Moda.

 

 

 

Eu estava no quarto período, perdido – eram muitos estímulos e pouco foco – , e fui assistir a uma palestra. Entrou um garotão de cabelo grande, despojado. “Esse cara que vai dar palestra?”, pensei. Achei engraçado. Mas na palestra meu olho brilhou. Até então eu tinha banda e achava que meu futuro era fazer capa de CD. Quando acabou, voei no cara e falei: “Meu irmão, me arruma um estágio por favor. Olha aqui essa camisa, fui eu que desenhei”. Desde moleque eu gostava de desenhar minhas estampas. Comprava camisas da Hering e desenhava. Era meio grunge, tipo Kurt Cobain. Eu tinha essa viagem com t-shirt. Ele curtiu. Tinha feito um croquis do Leonardo da Vinci que lancei com um cabelo punk e escrevi “Punk is old”, inspirado num desenho do Kurt Cobain que dizia  “Grunge is dead”.

Aí ele se amarrou. Dois dias depois me ligou. Eu não tinha nenhum portifólio, então criei uns desenhos. Foi assim que comecei na Moda.

Aquarela sempre foi minha técnica preferida [as ilustrações que acompanham este post foram feitas neste período de Covid-19 aplicando a técnica]. Sempre fiz muita alusão à água. Tem a ver com meu signo, Câncer, que é de água. Meu mapa é todo de água – meu pai é de Touro, um signo de terra. E eu sou um amante do surfe. Apesar de ter sido criado no subúrbio, meu tio tinha casa em Saquarema, então desde cedo eu descobri isso. Eu matava aula todo dia. Ia pro Recreio, deixava a prancha com um amigo que consertava pranchas. Minha mãe me dava dinheiro pra merenda, aí eu pegava e usava na passagem de ônibus pro Recreio.

Passei para a escola do Exército, mas acabei indo para Belas Artes. Meu pai quase chorou

Eu tinha muito medo do meu pai, mas era levadíssimo. Eu sabia que pra me safar diante dos olhos dele eu tinha que me safar no colégio. Então eu mandava muito bem. Os professores não entendiam, porque eu não ia pras aulas, mas fazia boas provas. História e Geografia eu pegava o livro e lia todo. Eu compensava as horas que passava no mar. Gosto da aquarela por ser indomável, como a água. Aquela teoria do Bruce Lee: “Be water, my friend”. A água não para no obstáculo, ela contorna. É puro movimento. Pra mim isso é uma filosofia de vida, estar sempre em movimento: diante dos seus problemas, contorne. E assim tenho caminhado na Moda já há onze anos.

Mais tarde, uma coisa me ajudou a entender meu pai: o fato de ele ser muito consumista. Ele sempre gostou de se vestir bem. Eu até zoo ele: “Como você pode ter um gosto refinado desses?”. Ele me disse: “Meu filho, já vi tiro de 762 passar a 2 centímetros da minha cabeça. Pra mim a vida não vale muita coisa. Se você visse as coisas que já vi, não conseguiria dormir ou talvez nem conseguisse mais levar uma vida normal. Você vê a vida em cor de rosa, eu vejo em preto e branco.”.  Passei a entender mais até o jeito como ele pensa: consome como se a conta não fosse chegar.

Como funcionário público, sempre consegue um financiamento, um parcelamento. Sempre viveu estourado no cartão. Parece mentira, mas é um cara incorruptível. Mora até hoje em Marechal, na casa que era da minha avó. Lá onde fui criado, filho de PM andava de Kawasaki para ir à escola.

Hoje em dia, colocando na balança, sei que ele não era um cara fácil, mas agradeço pela forma como fui criado. Era a forma que ele sabia. Os pais também estão aprendendo com a gente.

E, consumista como é, ele sempre adotou uma marca. Numa época gostava muito da Ellus, só usava calça de lá. Teve uma época que era pólo da Lacoste. E quando a Reserva surgiu ele adotou a Reserva. Ama a Reserva. E eu vim parar na Reserva. E hoje ele entra na loja com orgulho. Sem ser da forma como ele achava que tinha que ser.”