Ser

Os altos e baixos de ser grandão

O fotógrafo João Pedro Januário, ex-jogador de basquete, diz que viajar é um dos maiores tormentos

Por 2min
25 de fevereiro de 2020 Atualizado em 27/02/2020 às 10:00

O fotógrafo João Pedro Januário, de 29 anos, sabe a dor e a delícia de ter 1,96m e calçar 45-46.
– É difícil. Mas é bom – resume.

A parte boa a gente imagina: lá em cima deve ser até mais fresquinho. E o visual, incrível. A parte ruim? O mundo não foi feito para quem é grande demais.

— Sapato e roupa é difícil de achar. Aquela roupa mais estranhinha sempre tem do seu tamanho. Mas aquela mais bonita, que você quer e acha que vai ficar legal, quando experimenta a manga fica um pouco curta, ou o tênis não cabe, não tem o seu número, é sempre complicado. Te frustra. “Que lindo, quero!”, “não tem” – conta. – Tênis é o mais difícil. A maioria das marcas só faz até 44. Ou eu gosto muito e uso apertado, ou não tem jeito. A camisa você ainda dá um jeitinho, usa a manga dobrada, sei lá…

Pela altura, é fácil de imaginar: João já jogou basquete. Foi campeão brasileiro sub-23 pelo Flamengo e chegou a jogar profissionalmente pelo clube também.

— Sou apaixonado por basquete até hoje, jogo uma peladinha de vez em quando, mas tenho uma hérnia de disco – conta.

Por causa da minha coluna, estava com tanta dor na última viagem [para Portugal], que deitei no chão do avião

Viajar, desde aquela época, é um tormento.

— A rotina de viajar é dura. Cama de hotel, avião… O joelho fica batendo na cadeira da frente. Você já chega ao destino todo quebrado… E até hoje sofro por causa disso. Por causa da minha coluna, estava com tanta dor na última viagem [para Portugal], de classe econômica, que deitei no chão do avião. Dormi um pouco, mas acordava com as pessoas passando por cima [risos].  Aí acordava, dava uma alongada – lembra.

A carreira de atleta foi abandonada – não por causa das viagens, é claro. Mas João preferiu dedicar-se aos estudos (primeiro Design, depois Cinema), ao relacionamento com Benedita Casé Zerbini (filha de Regina Casé e Luiz Zerbini), com quem se casou, e, ultimamente, à fotografia também. No momento, ele se debruça sobre projetos autorais e negocia com galerias de arte.

— Por acaso, uma das últimas séries que tenho fotografado é uma crítica à mobilidade – conta. Se viajar de avião é ruim, o que dizer de cruzar a cidade dentro de ônibus todos os dias? – Durante muito tempo, quando ainda jogava basquete, morava em Vargem Grande [Zona Oeste do Rio], estudava na Lagoa e treinava na Gávea [ambos na Zona Sul]. Perdia 5 horas por dia dentro de um transporte público. Eram duas horas pra chegar ao colégio, às 7h, mais meia hora até o Flamengo, depois mais 2 horas e meia até voltar pra casa. Soma tudo, dá cinco horas por dia.

Sem perceber inicialmente que fazia uma referência à própria história, João Pedro começou a fotografar ônibus, desta vez vistos pelo lado de fora. Utiliza as pinturas gráficas dos coletivos para dar unidades às cenas (“é como se a geometria fosse empacotando as pessoas, fazendo parte da sua vida”, explica).

— Eu me vejo nessas pessoas e batizei a série de “382: Piabas-Carioca”, que é a linha que eu utilizava.

Além da série fotográfica, João Pedro tem se dedicado a fotos de still para cinema, além de direção de fotografia. Assina uma campanha e está dirigindo e fotografando um documentário que vai ao ar no Multishow, sobre a turnê da festa “Tardezinha”, comandada pelo pagodeiro Thiaguinho. Cada edição tem em torno de 30 mil frequentadores. Em 2019, a turnê vai se estender por 55 cidades.

— Felizmente para fazer o documentário a gente não precisa viajar para todos esses lugares – brinca.