Ser

Para Tallis Gomes, nada foi fácil

Criador do aplicativo Easy Taxi fala sobre a dura rotina e a disciplina que fizeram seu sucesso financeiro

Por 2min
26 de fevereiro de 2020 Atualizado em 02/03/2020 às 10:40

Não foi nada fácil, como diz Tallis Gomes em seu best-seller. Até o sucesso, o Miojo era o protagonista em seu cardápio. Mas aos 25 o mineiro de Carangola já havia sido identificado pela revista Forbes como um dos 30 jovens brasileiros mais promissores com menos de 30 anos. Especula-se que tenha recebido centenas de milhões de dólares pela venda do app Easy Taxi, criado por ele, logo depois. Vida ganha, certo? Errado.

— Durmo de quatro a cinco horas por dia e trabalho de 14 a 16 horas – conta. – Atualmente tenho cinco negócios, em setores variados: comunicação, educação, farmacêutico, financeiro e beleza e bem-estar – diz. Esta última empresa, a Singu, é sua “next one billion dollar company”. Um app que conecta prestadores de serviços da área de beleza a consumidores, num formato parecido com a plataforma de táxis. – Sou CEO da holding e diretor executivo da Singu, e meu dia a dia se divide entre os meus negócios e meus esportes, que são minhas duas grandes prioridades. Pratico jiu-jítsu, boxe e paraquedismo.

Já está cansado? Tem mais.

— Acordo às cinco da manhã, leio até as seis. A vida inteira foi assim, aprendi com meu avô. Nesse horário consigo absorver mais conteúdo em menos tempo. Das seis às sete, treino. Ou um treino físico ou alguma luta. Cinco a seis vezes por semana treino força ou algum esporte de contato. Aos fins de semana, uma vez por mês eu tento saltar ou fazer outros esportes. Mais eventualmente, mergulho, sou deep diver, já cheguei a 70 metros – diz.

Durmo de quatro a cinco horas por dia e trabalho de 14 a 16 horas

O preparo físico é o que o ajuda a enfrentar a sensação de estar permanente “segurando o mundo nas costas”.

— Sabe aquela sensação de estar sufocado, com tudo acontecendo ao mesmo tempo? Usando uma comparação com o jiu-jítsu, que me ajuda muito, tento sair dessa situação de sufoco e virar o jogo. Às vezes o cara tá passando a sua guarda, você tá perdendo a posição, estão amassando o seu queixo, e você pensa: “o que eu tenho que fazer agora?”. Não posso desesperar. Tenho que ficar calmo e tentar repor a guarda e depois tentar raspar. Acho que eu trago isso. Acho que minha preferência por esportes que ameacem minha integridade física, ou até minha vida, tem a ver com esse meu dia a dia intenso. Preciso de uma válvula de escape, e ela é o esporte radical.

Na agenda de Talllis Gomes não se lê a palavra “férias”. Ele não sabe o que é isso. O mais próximo são pequenas escapulidas mundo afora. Uma semana na Grécia, com amigos, foi sua última desacelerada. Mas mesmo nesses períodos ele não desliga, e segue trabalhando via WhatsApp e e-mail. O maior desafio vem a seguir: enfrentar uma breve temporada no meio de um deserto no estado americano de Nevada. Não que ele tenha receio de algum perigo. Apenas de estar num lugar onde o celular não pega.

— Serão cinco dias no festival Burning Man. Tô até com medo. Vai me tirar da zona de conforto porque lá não tem transação financeira, não tem comida, água, conforto, sinal de telefone. Quero viver isso pra fazer uma desintoxicação desse ambiente que a gente vive, de pressão por conectividade. Parece que quando saiu o fio do telefone, ele enrolou os nossos braços. A gente está à mercê do sinalzinho que aparece na tela. Eu me sinto escravo do meu telefone. Mas não posso viver sem ele. É uma relação de amor e ódio – explica. – Tava até falando com meu psicólogo que eu tô preocupado, nunca na minha vida consegui ficar desconectado. Me recordo que já terminei um relacionamento por causa disso. Cheguei numa fazenda e não tinha sinal de celular. Peguei as coisas e fui embora – lembra.

No processo de escala do Easy Taxi, Tallis Gomes morou – pelo menos seis meses – em várias cidades do mundo (todas com sinal de celular): Bogotá (Colômbia), Cidade do México, Lahore (Paquistão), Lagos (Nigéria) e Seul (Coréia do Sul). Conta que, em cada um desses lugares, teve que se adaptar aos hábitos locais, inclusive na maneira de se vestir.

— Tive que me adequar a duras penas. Tudo aconteceu muito rápido. Do dia pra noite, eu tô em capa de revista, sendo considerado o maior empreendedor do Brasil… Isso tudo subiu à cabeça num determinado momento. Uma vez, estava em Cingapura, e teria uma reunião com o secretário de Transportes. E fui barrado. “Aqui você não entra sem terno”. Eu respondi: “Peraí, eu estou investindo 50 milhões de dólares no país, fala pro secretário que se ele quiser falar comigo, não vou trocar minha roupa”. Resposta? “Beleza. Ele não vai falar com você”. E aí eu quase destruí uma operação em Cingapura por causa de uma bobagem, uma crise de ego, uma molecagem. Era muita responsabilidade para pouca idade. Eu devia ter ali uns 24 anos. Aprendi. You gonna dress as your audience. Se ali o dress code manda usar terno, vou usar. Mas se eu tiver oportunidade de ser eu mesmo, vou ser – diz.

No Brasil, adotou o estilo básico.

— A maravilha é o seguinte: a gente vive uma época em que você não é mais tão julgado pelo que você. Isso era a década de 80, talvez até o meio de 90. Se você não tivesse um terno bem cortado e um grande relógio, você não era respeitado. O Vale do Silício acabou com esse mito, e eu sou isso, esse cara básico. Meu guarda-roupa é o do Cebolinha, camisa preta, branca e cinza, e é isso.

Em seu escritório ou fora dele, segue o mesmo padrão.

— Considero que tenho bom gosto e gosto de me vestir bem, mas não me preocupo em trocar o figurino. Não existe uma distinção pra mim entre a pessoa física e a jurídica. Sou o mesmo cara. Tenho os mesmos valores, princípios, me visto da mesma forma, me comunico da mesma forma. Sou muito fã do Ray Dailo, autor do livro “Principles”, gestor do maior headfund do mundo, o Bridgewaters. Ele fala que não é possível distinguir entre você no trabalho e fora. Se você vive personagens diferentes, você tá gastando uma energia que é crucial para a tomada de decisões, lembrando das mentiras que você conta em cada personagem que você veste. Por isso eu não tenho personagens, eu sou eu mesmo. Isso me dá leveza pra gastar energia mental com o que realmente é necessário – explica Tallis, que normalmente mistura palavras e expressões em inglês. Assim, explica como seus funcionários também devem se vestir: “there is no dress code, cada um se veste do jeito que quiser. Por isso eu gosto tanto da Reserva. Ela é original e se encaixa no estilo de vida que eu levo, de muito trabalho, mas despojado. Nas minhas empresas o cara pode ir de chinelo, de bermuda, de roupa social, cada um do jeito que quer.”