Ser

Por um futuro mais feminino

Ao lado de duas colegas jornalistas, Fernanda Prestes produz série documental sobre o poder das mulheres

Por Tiago Petrik
27 de fevereiro de 2020 Atualizado em 05/03/2020 às 08:39

Na companhia de duas amigas, a jornalista Fernanda Prestes cruzou o globo num roteiro inusitado: do Brasil, foi até a Finlândia, e de lá para o Paquistão. Férias extravagantes? Não. Foram, as três, produzir a primeira temporada de “O Futuro é Feminino”, série documental veiculada pelo GNT em março. Uma nova temporada está em produção, com visitas ao Japão e Ruanda.

– Gosto de acreditar que o futuro será feminino, sim, e acredito que se depender dos movimentos das mulheres – que só se intensificaram e fortaleceram na última onda do feminismo – teremos essa certeza. Mas é importante a gente olhar e fazer no presente – diz Fernanda.

A Islândia está há dez anos no topo do ranking de igualdade de gênero. Lá, uma mulher é primeira-ministra (Katrín Jakobsdóttir foi uma das entrevistadas pelo trio de brasileiras); e foi a terra do gelo o primeiro país a eleger uma mulher presidente. Fruto de uma educação voltada para diminuir as desigualdades, já que as escolas tratam das questões de gênero desde o jardim de infância. Em 2012, foi aprovada uma lei que estabelece pagamento igual para serviços equivalentes, desempenhados por homens ou mulheres.

– É importante até a gente quebrar esse ideal de país para uma mulher viver, porque hoje, no mundo, não existe um país 100% igualitário. Existem exemplos de sociedades matriarcais, sim, mas quando a gente fala da massa de países do mundo, até os que lideram o ranking têm problemas sérios a serem resolvidos, e problemas que estão diretamente relacionados à opressão que as mulheres sofrem em sociedades patriarcais. Como a violência doméstica, que é uma questão aqui, no Paquistão, na Islândia e no
mundo todo. Então não existe um modelo a ser seguido e acho que antes de criarmos um parâmetro pros países, precisamos olhar para dentro e entender o que as mulheres precisam e os caminhos e políticas pra se alcançar isso – avalia a jornalista.

Temos dados alarmantes de violência doméstica, mesmo após 13 anos de lei Maria da Penha

No Paquistão, as três visitaram a documentarista Sharmeen Obaid-Chinoy, vencedora de dois Oscars, que usa a violência contra a mulher como tema de seus filmes. Por lá, tomar chá numa barraquinha de rua é uma forma de resistência feminina, assim como
andar de bicicleta (!).

– O Paquistão é o penúltimo colocado no ranking de igualdade de gênero. O último é o Iêmen, mas na época da pesquisa, e ainda hoje, o Iêmen vive uma crise humanitária braba, que fechou aeroportos. Seria difícil focar “apenas” na questão das mulheres.

Mas não é preciso ir tão longe para se achar casos dramáticos de desrespeito às mulheres. Aqui mesmo no Brasil – aliás, 95º colocado do ranking de 149 países –, muita coisa precisa mudar, na avaliação de Fernanda Prestes:

– Nas últimas eleições tivemos um aumento do número de congressistas mulheres, mas isso soma apenas 15%. O Brasil é um dos líderes de feminicídios, e temos dados alarmantes de violência doméstica, mesmo após 13 anos de lei Maria da Penha. O atual governo, além de não deixar progredir, estimula a regressão. Estamos vendo movimentos para restringir ainda mais a lei do aborto, pra acabar com a cota dos 30% de mulheres na política e uma Ministra de Mulheres e Direitos Humanos que não quer discutir sexualidade com jovens no país em que a cada 11 minutos uma mulher é estuprada. Precisamos nos manter alertas.

Do ponto de vista da moda, Fernanda observou, em suas andanças mundo afora, que a expressão pessoal e de liberdade sempre dá um jeito de aparecer.

– É interessante pensar como em países islâmicos, que muitas vezes exigem que as mulheres usem a burca, a expressão corre para um outro lugar que não a vestimenta, né? Até a própria burca vira um item fashion, tomando outras formas, cores e detalhes, mas nem sempre isso é uma questão para as mulheres de lá, como nos do Ocidente costumamos pensar.