Ser

Simplesmente Nina

Nina Silva, criadora do Movimento Black Money, é uma das personagens da campanha do tênis Simples

Por 2min
22 de dezembro de 2020

Quando ela nasceu, em 1982, seu Jardim Catarina, em São Gonçalo, era a maior favela plana da América Latina. Hoje Nina Silva é sócia de um hub de empreendedorismo negro, o Movimento Black Money, marketplace por onde circulam 100 mil pessoas por mês, visitando 600 lojas.

– É um Mercado Livre, onde se vende de piscinas plásticas a vibrador, além de profissionais oferecendo serviços. Não temos drogas ilícitas, mas até cerveja tem. A única certeza é que você está comprando de uma pessoa negra, sendo você negro ou não. É um novo lugar de mundo, de real liberdade – explica.

O caminho de um extremo a outro não foi facinho. Contou, antes de mais nada, com o esforço dos pais, que sempre fizeram o impossível para colocar as filhas em boas escolas – a irmã mais velha de Nina, Carla Verônica, foi a primeira da família a entrar e a sair de uma universidade. Aos 17 anos, foi sua vez de começar o ensino superior.

No primeiro estágio em Administração teve contato com a informática. No segundo, numa multinacional alemã, aprendeu tudo sobre logística.

– Isso acabou me dando repertório pra poder participar da implementação de um sistema de ERP. Não fazia nada em tecnologia, não fazia curso, mas vi que aquilo era uma possibilidade de entrar nessa área, que tinha uma remuneração mais alta. E o objetivo era realmente poder galgar uma mudança financeira familiar mais rapidamente – explica.

Durante um ano, buscou aprender o que os consultores gringos faziam. Imprimiu o helpdesk do sistema, em inglês, e a cada dia lia duas ou três páginas. No fim do ano, formou-se, autodidata, e acabou treinando o resto da empresa. No fim, foi contratada pela consultoria que prestava serviços por lá, e rodou por diversas empresas gigantescas não apenas no Brasil, mas também nos Estados Unidos, no México e na Argentina, utilizando a vantagem de ter feito inglês e espanhol na juventude.

– Costumo dizer que sou a exceção da regra e que eu trabalho hoje pra que a gente não tenha mais essas histórias muito rebuscadas – diz.

Em 2013, teve um burnout. Trabalhando muitas horas por dia, vez ou outra ouvia desaforos racistas e não via propósito onde estava. Achava que não era tão reconhecida quanto deveria ser. Largou tudo e foi fazer cursos de literatura em Nova York, retomando um interesse antigo – em 2011, havia publicado seu primeiro livro de poemas eróticos, “Incorporos, nuances de libido”.

– No primeiro mês em NY, fiquei chorando dentro de casa. Ainda bem que o dólar era 2 para 1, e não 5 para 1, como hoje. Mas chorar em dólar não é bacana para ninguém – brinca.

Entusiasmada com os movimentos nas ruas de junho de 2013, que viu pela TV num bar local, decidiu voltar para casa e começar a empreender. Abriu um salão de beleza que tinha ela própria como persona, e em seis meses quebrou.

Enfim, conheceu Alan Soares, trader do mercado financeiro, e rolou um match profissional. Ele já falava sobre “black money”, pessoas negras apoiando negócios de pessoas negras. Ela já pensava em compartilhar com outras pessoas negras seus conhecimentos de tecnologia.

 

O que nos move é criar estratégias para essas pessoas. Precisamos falar de letramento racial, explicar que somos um único povo e ele precisa se ajudar. Há três anos, ninguém sabia o que era black money.

Em março, abriram o marketplace – para muitos lojistas, foi a única loja aberta na quarentena. Em paralelo, lançaram uma máquina própria de cartão para os estabelecimentos, a Pretinha (começaram pilotando em 50 lojas, mas a ideia era expandir para 500, o que foi um pouco adiado por causa do coronavírus). O próximo passo é a integração dos serviços financeiros, com uma conta digital, e continuar fortalecendo a mensagem.

– Quando o trabalho estiver consolidado, podemos falar de dinheiro – avalia Nina, que ainda não abriu diálogo para investimentos, embora já tenha valuation para todo o ecossistema.

A inspiração de estratégia de fortalecimento, ela conta, vem dos asiáticos. Segundo uma pesquisa, a cada 1 dólar gasto, a comunidade asiática movimenta esse 1 dólar por 28 dias sem sair de mãos asiáticas, numa cadeia de suprimentos; a comunidade judaica faz isso por 19 dias; a comunidade majoritariamente branca, por 17 dias; a latina, por 7 dias; e a comunidade negra, mesmo nos EUA, que tem um fortalecimento de consciência racial, por apenas 6 horas.

– Se nós não formos os donos dos negócios, não vai mudar – diz Nina, pronta para mudar essa situação.

Por tudo isso, Nina é uma das personagens escolhidas para apresentar o primeiro tênis feminino da Reserva. O Simples tem como conceito facilitar a vida das mulheres na hora de se vestir, com conforto e versatilidade. Afinal, a mulher não precisa ficar sobre um salto alto para sentir-se empoderada.