Ser

Tinta Fresca, das ruas para os seus pés

Reserva Go convida artista urbano para pintar 5 pares de tênis em série para colecionadores

Por Tiago Petrik
29 de setembro de 2020

Se você é do Rio, certamente já esbarrou por aí com a pichação “Tinta Fresca”. Em dez anos de atividades, a assinatura já foi replicada em torno de 2 mil vezes, segundo calcula seu autor.

 

– No Brasil, a maioria é no Nordeste, mas tem também em São Paulo, onde morei um tempo, e no Rio. Lá fora, já pichei até trem no Japão, e também na Califórnia, em Las Vegas, em Seattle e na Argentina – conta o personagem, que prefere se manter anônimo – por isso o rosto coberto nas fotos para o lançamento dos tênis Szuck – série de cinco unidades – batizada de Art Series pela Reserva Go.

Ele revela que é movido por um vício, que o levou a sair madrugadas a fio (hoje ele já não tem essa disposição) em busca de adrenalina.

– Eu já subi em marquise, em lugar alto, de ficar na beira, mas não no nível que fazem em São Paulo, onde escolhem os prédios mais altos. Uma vez quebrei o pé numa queda ao pular de um muro, e meu calcanhar explodiu. Hoje não consigo mais correr – diz.

O começo do Tinta Fresca foi a busca por uma estética, algo que já agradava seu criador na faculdade de design.

– A tipografia sempre me interessou, e eu sempre gostei da rua como plataforma. Gosto da ideia de não ter galeria, de ser acessível às pessoas na rua – explica. – É intrínseca a transgressão em quem picha, normalmente as pessoas são motivadas por isso, mas não é o meu caso. Eu simplesmente queria fazer.

 

 

Normalmente quem picha é motivado pela transgressão, mas não é o meu caso. Eu só queria fazer

Claro que não necessariamente as pessoas acham bom o resultado. A ponto de Tinta Fresca ter sido capturado quatro vezes pela polícia. Na primeira vez em que foi levado para a delegacia de Copacabana, os policiais fizeram uma comemoração ao anunciarem sua chegada.

– Mas no Rio é muito tranquilo, a polícia não quer nem se dar ao trabalho de me levar mais. Nas vezes em que aconteceu, paguei multa, fiz serviço comunitário. Dei aula de artes para crianças, acabou sendo superlegal pra mim também – diz. – Já em São Paulo é diferente, tudo funciona melhor, até a polícia. Na primeira vez que eu saí lá me pegaram, foi um banho de água fria.

Se nem todos gostam de ter seu muro pichado, o outro lado da moeda também foi observado por Tinta Fresca, para sua surpresa.

– Um cara uma vez postou uma foto se dizendo amarradão. E outra vez eu cheguei na casa de um sujeito e, quando ele soube quem eu era, me pediu pra pichar a parede do quarto dele – diverte-se.

Mesmo assim, Tinta Fresca se diz surpreso pelo convite para a colaboração nos tênis da Reserva.

– Acho que, de certa forma, o que faço é o mais comercial que uma pichação pode ser. Então faz sentido, mas eu não esperava – avalia. Mas nada que vá mudar sua maneira de encarar o trabalho de pichador – passa longe de seus planos uma coleção assinada.

– Sinceramente, não tenho vontade. Ganho minha grana no meu trabalho, não quero viver disso – garante. – Mas foi interessante porque nunca tinha feito isso num produto, então foi muito diferente, uma coisa nova, achei que no fim das contas é outra plataforma – diz.